A menina de cá

Daqui de baixo deu pra ver tudo, juro. Era muita gente, é. Acho que estavam desfilando, pé ante pé. Tinha uns apitos, desses eu gostei. Além deles, tinha também um carro grande que fazia muito barulho, quando perguntei o nome, ninguém nem escutou. Eles gritavam muito. Pareciam todos com raiva, dessa parte eu não gostei. Um monte de gente grande esbravejava e gritava o nome de uma pessoa chamada Dilma. Nome esquisito, não é? Até agora não sei quem é Dilma. Eu queria mesmo era um sorvete.

Acordei cedinho, estava frio ainda. Aqui onde moro é alto, será que é por isso que chama Zona-Sul? Um dia peguei o celular de pai pra jogar. Fiquei triste por que minhas moedinhas acabaram… estava escrito que se eu eu entrasse no facebook ganhava mais moedinhas. Quando entrei apareceu um monte de gente falando mal de nós por morarmos na Zona-Sul. Nos chamam de “burgueses”. Outro dia papai saiu todo mal ajeitado do banheiro da empregada… escutei a Maria falando esse nome feio com muita raiva. Seja o que for isto eu não gosto.

Passear é muito bom. Costumo ir ao shopping e ao cinema. Ir em praças não é uma das preferências dos meus pais. Na verdade eles estão sempre ocupados. Ontem meu pai me falou que ia me levar para uma manifestação. Fiquei super feliz só de saber que ia sair, afinal, eles nunca querem fazer nada.

Pintaram meu rosto e me compraram balões. Fiquei com eles na mão, batendo um no outro pra ver se fazia barulho. Ih, nem consegui nada viu. Tinha tanta gente grande fazendo barulho que eu fiquei esquecida. Pelo menos vi um cachorro gordo, com a bandeira do Brasil enrolada, coisa mais fofa! Trocamos risadinhas como se estivéssemos falando: “o que estamos fazendo aqui?”. Ainda bem que papai não viu.

Papai não estava com tanta raiva. Encontrou vários amigos, conversou muito e riu. Gargalhava principalmente quando falava da tal da Dilma. Será que ela já foi lá em casa? Mamãe ficou em casa, com cara de chata. Falou algo parecido como “tenho mais o que fazer”. Acho que ela não gosta que falem mal da tia Dilma. Talvez Dilma seja uma amiga dela que só vai lá em casa quando papai não está.

Tinha muita gente. Fiquei com muito medo de me perder. Segurei a mão de pai com toda minha força. Acho que agora entendo bem o que estava acontecendo. Acho que é carnaval. Sou esperta, percebi logo que começaram a cantar igualzinho vejo na TV. Tinha gente rouca, chorando, gritando… e eu fiquei ali quietinha, arrepiada. Escutei alguém falando que esse era o grito da democracia.

Pra falar a verdade eu não entendi muito bem, democracia é uma pessoa? Meu tio é da polícia e um dia desses, durante um churrasco que fazemos aqui no fim de semana, escutei ele falando que na época que os militares ficavam na rua essa tal de democracia não podia circular. Nem sei o que é circular, mas eu vi que tinha muita gente com cartaz pedindo pra eles voltarem. Será que são os filhos dessa democracia?

Gostei muito dos cartazes. Todo mundo queria mostrar o seu. Queria fazer um ali na hora, mas, sei lá… fiquei com vergonha de falar com papai, afinal, acabei de aprender a escrever. Minha professora ficaria orgulhosa de mim, ela sempre fala que eu sou o futuro. Falando em futuro, adoro meu computador. Tem esse corretor ortográfico que me faz escrever igual gente grande.

Fomos pra casa já na hora do almoço. Papai ligou a TV e pediu comida pra gente pelo telefone. Mamãe, logo que chegamos, entrou para o quarto, emburrada. Fiquei na sala com pai e estou até agora, João.

Responde João! Estou falando com você a horas e você só me ignora. Seu chato. Aposto que você estava junto com aqueles bobos pedindo empetimente do presidente. João… Af, não tomei meu sorvete.

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