Casa de lençóis.

UM.

Era início do outono. Ainda não estava frio, mas o vento já arrepiava algumas peles mais sensíveis, tornando-se necessário colocar mais uma blusa para não se ficar resfriado. O pequeno Matt chegara da escola com uma camiseta, um suéter e algumas ideias legais.

— Papai, vamos fazer uma casa com lençóis? Uma caverna misteriosa? Vamos, vamos, por favor!

E assim fizeram. Foi bem fácil, na verdade. Algumas cadeiras, uns cobertores mais finos, um ou outro peso para segurar tudo no lugar e uma dose de imaginação reforçada. Pronto. Pegaram uma lanterna, também, para não ficarem totalmente no escuro, e porque eram bravos exploradores em busca de tesouros eternamente perdidos.

Foi uma noite mágica. O pai inventava histórias e lia outras tantas, e o menino brincava e desenhava ouvindo tudo aquilo. Quando pegaram no sono, já era alta madrugada. Antes de dormir, contudo, planejaram uma ida até a floresta do parque nacional atrás de casa. O lugar estava fechado, por conta do perigo de incêndio, mas tinha um lago lá. E grama fofa. Churrasqueiras. Piquenique.

A promessa de um dia fantástico.

DOIS.

No dia seguinte, o pai caminhava pela floresta. Linda tarde, com céu azul, brisa fresca, pássaros no alto. Ele usava seus melhores coturnos, bons para caminhar, e óculos escuros perfeitos para se resguardar do sol forte que pairava bem acima das nuvens. Na mão esquerda segurava uma corda grossa e na direita um mapa.

No cós da calça um revólver.

Não estava sozinho. Mais ou menos cinquenta pessoas o acompanhavam. Algumas carregavam lanternas, mesmo com a claridade abundante; a sombra das árvores era insidiosa. Cada um gritava o mesmo nome de forma desesperada e abafada pelo movimentar brusco das folhas verde-amareladas. Todas as mãos tremiam. Todos os corações pesavam. O xerife se aproximou do pai, que liderava a trilha.

— Mandei homens para o leste, em direção aos desfiladeiros. Ninguém foi para aquele lado ainda. O último relato de sequestro aconteceu por lá. Continuaremos pela floresta. Tem certeza que não quer ir para casa e esperar até termos outras pistas? É mais seguro.

O pai fingiu que não ouviu e continuou em frente. Logo mais chegariam ao lago, com as churrasqueiras e as mesas. A cada passo suas pernas pareciam mais inertes. Tropeçava em toda pedra. Um pressentimento sombrio. Tirou os óculos. O suor embaçava sua visão. Após alguns arbustos, enfim viu a superfície límpida e opaca da água.

E viu um cadáver infantil boiando perto da borda, ao lado de alguns esquilos mortos e umas fotografias antigas. Em sua barriga pálida, uma frase havia sido riscada à lâmina em sua pele. O sangue coalhado a tornava especialmente visível.

“Sétimo”.

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