As reinvenção do Mr. West em Jesus Is King
Mais uma vez o Kanye conseguiu movimentar toda a internet para o seu lançamento e emplacar nas diversas paradas pelo mundo, Jesus Is King não é melhor álbum dele, mas é sem sombra de dúvidas um ótimo projeto e que tem muita coisa peculiar que rodeia toda a jornada até o seu lançamento.
Ele, Jesus Is King, não se origina já com o mesmo formato e propostas que o resultado final, acredito que seja um dos projetos que mais passou por transformações dentro de toda a discografia do Kanye. Sendo originalmente chamando de Yandhi e anunciado para setembro de 2018, esteticamente ele parecia ser uma sequência ou utilizar como referência o apocalítico, inovador e aclamado pela crítica Yeezus. Depois disso houve uma serie de cancelamentos, adiamentos e praticamente a repetição do que aconteceu com o The Life of Pablo.
Durante esse tempo de incerteza do lançamento houve uma serie de vazamentos do então prometido Yandhi que contava com músicas com Nicky Minaj, xxxtentation, Ty Dolla $ing e a internet vibrou e comemorou e isso acabou deixando a comunidade mais ansiosa para o lançamento. até que veio um novo anuncio. Em agosto de 2019, Kim postou a foto de um setlist que tinha como título Jesus Is King e mais uma vez a internet revirou com a expectativa e nos dias seguintes o Kanye oficializou o lançamento do seu novo álbum.
Do anuncio até o lançamento houve algumas declarações que são importantes pra entender porque o Yandhi foi descartado e teve algumas músicas refeitas para o Jesus Is King. A primeira é a conversão do Kanye ao cristianismo e a segunda e mais importante é que ele estaria abandonando a música profana para fazer Gospel.
É DE EXTREMA IMPORTÂNCIA DIZER QUE O GOSPEL ESTADUNIDENSE NÃO TEM NADA HAVER COM O GOSPEL BRASILEIRO E PRA EXPLICAR UM POUCO DISSO VOU DEIXAR ESSE VÍDEO
https://www.youtube.com/watch?v=ukEAYg_TJBo&t=376s
O álbum foi lançado e a internet revirou de novo, mas agora vamos ao que tenho pensado sobre o projeto e tudo que envolve ele.
A primeira coisa é a importância do Sunday Service pra como Kanye compreende e produz música, grande parte das produções dele você vai encontrar corais, samples a músicas dos anos 60/70/80. Kanye é apaixonado por música e um dos melhores, se não o melhor, caçador samples da nossa geração e isso reflete no Sunday Service e volta para o Kanye sendo uma influência continua.
O Sunday Service começa acontecer logo após os lançamentos de ye e o álbum colaborativo Kid See Ghosts com o Kid Cudi, ambos em junho de 2018, tudo que o público em geral sabia sobre os encontros era o que os participantes postavam nas redes sociais. Um ambiente fechado com iluminação controlado, com alguns instrumentos, um coral e muita música. Durante uma entrevista com David Letterman no “My Next Guest Needs No Introduction” comenta que ele estava estudando sobre musicoterapia e estava voltando a frequentar a igreja e que queria juntar as duas coisas e isso ajudou ele na recuperação e manutenção da saúde dos envolvidos.
Denominado pela mídia geral como “culto musical” o encontro ganhou uma edição no Coachella que mais uma vez movimentou a internet e cativou as pessoas. Foi nesse espaço que o Yandhi mudou, se transformou ou é também possível dizer que o Jesus Is King nasceu e aqui é onde vou explicar o porquê do título.
Desde “The College Dropout” o Kanye sempre mostrou o seu lado religioso em grandes partes dos seus projetos, em especial no Ye e Kids See Ghosts que foram lançados mostrando a recuperação após a desgastante e problemática Saint Pablo Tour.
Essa questão nunca impediu o de falar sobre os diferentes assuntos que ele sempre abordou, ou de convidar os diferentes colaboradores para os seus projetos, mas isso mudou com o Jesus Is King.
Uma das principais músicas que estava presente no Yandhi tinha a presença da Nicky Minaj, que é uma colaboradora de longa data. Durante o período que antecedeu o lançamento apareceu diferentes notícias falando que a Nicky e o Kanye estavam trabalhando para refazer a música para que ela se tornasse gospel e como a música foi cortada do projeto é possível dizer que o resultado não foi positivo. Outra música que pode ter sido cortada poderia ter a colaboração do Young Thug, pode ter sido um meme, mas ele deixou uma provocação no twitter que dizia: “Yo @kanyewest is my verse about the devil still on Jesus ??”
O Kanye sempre trabalhou com muitos artistas, com participações pontuais como a própria Nicky em Monster, Pusha T em Runway, Kid Cudi, Rihanna e Ty Dolla $ing em diversas músicas e o ponto aqui é esses artistas estariam dispostos a se flexibilizar para produzir músicas falando sobre religião? Mas uma coisa precisa ser dita a qualidade do projeto e o potencial de imersão nesse universo é perfeito igual aos diferentes álbuns que o Kanye produziu.
Enquanto eu estava pensando em como escrever e estruturar esse texto eu lembrei de um artista que passou por um processo parecido, o Tim Maia. Algumas pessoas podem não saber, mas durante uma parte da sua vida o Tim foi convertido a “Cultura Racional” que tinha como biblioteca base o “Universo em Desencanto” que era uma serie de livros que falava sobre tudo e o resultado musical desse momento foram dois discos nomeados de “Racional”, que alguns anos depois vai ser a inspiração pro nome de um grupo de rap.
Nenhum dos projetos do Tim perdem qualidade, na verdade são obras primas da música nacional e de certa forma trazem reflexões importantes sobre a vida, mas é impossível negar o fato que existe uma propaganda pesada a favor para conquistar novos seguidores da Cultura Racional.
Racional ou Jesus Is King possuem suas limitações, suas propagandas, mas ao mesmo tempo conseguem manter uma qualidade sonora muito alta que acaba cativando ouvintes que não tem muito interesse na religião, mas na obra em si. Ignorar qualquer um deles pelo simples fato de terem um teor religioso pode ser um desperdício de uma experiencia sonora singular, entretanto a semelhança que considero mais importante neles está para além da música.
Por mais que seja momentos históricos diferentes, cultos diferentes é possível dizer que os dois artistas acabaram cuidando mais de si mesmo, o Tim Maia abandonando o abuso de drogas e álcool e o Kanye cuidando da sua saúde mental. Para homens negros isso é um processo que precisa ser ressaltado e valorizado.
Como conclusão disso tudo o que tenho pra dizer é Jesus Is King está longe de ser o melhor projeto do Kanye, o Yandhi poderia ter potencial para ocupar esse lugar, mas entre ver o Kanye passando por questões psicológicas e ver ele sorridente ao lado da sua família e amigos o Jesus Is King é uma experiencia muito boa com uma imersão bastante interessante e divertida que a cada ouvida acaba cativando mais as pessoas.
