Baratas morrem gozando
Uma vez me falaram que se você tá mijando e cuspir, o cuspe tem que acertar seu pau. Se não acertar é porque você tem um pau pequeno. O que eu ficava pensando era o seguinte: mas e se eu só for péssima de mira?
Não existe pior lugar de trabalho que o meu. Vendedor de sex shop, traficante, jogador de futebol de time do interior, lixeiro, nenhum desses trabalhos faz você ficar num lugar tão merda quanto o que tenho que ficar. Correr atrás de caminhão de lixo tem até lado bom, te deixa magrinha, bicha, é tipo uma academia que não tem faxineira.
Trabalhar na rua é realmente uma merda, tão merda que às vezes você caga nela. Não tem o que fazer, onde fazer. Os botecos do centro não te aceitam porque você é barraqueira demais, todo o resto tá fechado. É foda. Nem quero falar em foda.
O meu maior problema não é que o centro de São Paulo é cheio de lixo, gente querendo te roubar e homem com piroca murcha e suja pedindo desconto pra me comer, o meu maior problema são as baratas.
Quando eu era pequena já mostrava um medo doentio de barata. Doentio. Aprendi essa palavra de tanto ficar doente. O médico do postinho disse que eu tava com um ‘aspecto doentio’, ele vai ver aspecto doentio quando aparecer aqui procurando um boquete e tentando pagar com analgésico que roubou do posto de saúde. Depois as véia vão pegar os remédio pra tentar não sentir as junta e não tem. Aí é problema de junta. Junta tudo e joga fora. Sempre odiei essas piadas de motorista de caminhão, mas fazer o que, tem que agradar a clientela.
Quando consegui comprar um pouquinho de crédito pro meu celular fui direto pesquisar na internet sobre medo de barata. Tem cada frescura. Descobri que o nome é catsaridafobia. Vê se pode, até parece nome de doença de gente rica. O Google também me disse que geralmente as pessoas tem isso por causa de algum trauma, mas tem trauma maior que ver um bicho asqueroso desse?
Aqui no centro elas brotam do chão, como aquelas plantinhas que saem do concreto em calçada mal feita. Elas parecem invisíveis e, do nada, tão quase no seu pé. Bicho asqueroso. Mais que aquela vagaba que fica na melhor esquina da Bento Freitas. Odeio ela. Aquela trava colocou um desses bicho na minha bolsa uma vez, um de borracha. Eu fui pegar aquela camisinha do governo, aquela que parece feita de garrafa pet derretida, pra colocar no pau e tava lá aquele bicho asqueroso. Ah, mas eu gritei. Esperneei. Só me controlei depois de um tempo. Perdi o cliente. Aquela noite não comi nem o pão que o diabo amassou. E olha que às vezes a gente tá com tanta fome que tem que que pensar duas vezes antes de cuspir. Acaba cuspindo só pra não dar esse prazer pro cliente. A gente é paga, mas não é contratada né.
Agora, me diz se não tem bicho pior que barata, mulher. Você pisa nela e até depois de morta ela é horrorosa. Aquele estalo de pequenos ossos, como ossos de um pássaro bem pequeno que você tá esmagando, a sensação daquele corpinho sendo pressionado, como um pacote de patê de presunto, de presunto não, de fígado, aquele líquido que parece pus humano, pus com textura de porra. É como se as baratas morressem fazendo questão de mostrar que nos aterrorizar é um prazer, afinal ela goza o que tem dentro dela quando a gente aperta ela do jeito certo.
O lado bom é que isso me fez querer estudar pra sair dessa vida, eu vou ser musa noutra freguesia. Até andei lendo uns livros grandes, daqueles maior que salto 15. Um tal de David Foster Wallace, num livro dele diz que um cara que tem medo de barata fica prendendo elas em copos ao invés de pisar pra matar, diz que com o tempo elas morrem sem ar. Pelo menos assim elas não gozam morrendo.
Uma vez vi uma foto desse autor, ele era grandão, bonitão, se ele aparecer por aqui eu até faço desconto.