o dia mais assustador da minha vida foi ontem.
pronto pra ir para um aniversário, eu esperava meu querido amigo igor, íamos juntos para o local do aniversário e combinamos de usar o tempo do percurso discutindo opções de investimento no mercado de paçocas. porém o amigo igor é um cara que se atrasa e se ele disse ‘tô saindo de casa’ na verdade quis dizer ‘recém tô tomando banho, saio em meia hora’ e isso me fez ir até o bar da esquina comprar um halls. é assim que a vida funciona, qualquer chance de gastar o tempo com indulgências que não vão mudar sua vida vale a pena.
eu me dirigi ao bar mais próximo de casa, cerca de 137 passos e pronto, eu estaria no bar que era meu destino. e tudo correu bem. dei passadas decididas em direção ao bar, mas preciso esconder uma parte da história: não olhei para os dois lados ao atravessar a rua. enfim, no bar.
entrei no bar com as passadas decisivas dignas de um usain bolt as guloseimas e atrai os olhares de todos os componentes do bar. componentes, sim, pois parecia uma cena de filme. o atendente era um senhor de uns 50 anos, descendente de italianos, um cara muito magro e que claramente já deixou os sonhos que um dia teve pra trás. duas senhoras que discutiam receitas, pesos e medidas e também sobre a vida das vizinhas. um senhor de uns 70 anos, meio gordinho, jazia atirado em um dos cantos. mas o integrante mais impressionante do ambiente era um senhor de uns 60 anos, parecia ser descendente de italianos e russos, uma mistura complexa se formos falar de composição facial. esse senhor tinha cabelos de comprimento médio, eles carregavam uma cor de um amarelo velho, como um cano de cobre que sofreu muito na vida de ser cano de cobre. nada disso era o que mais chamava a atenção, quem brilhava como uma estrela de cinema no rosto desse senhorzinho era uma cicatriz de uns 12 centímetros — não que eu tenha medido, mas né, é por aí.
e aqui começa a história.
entrei no bar com meu objetivo claro em mente, comprar um halls. durante cerca de um minuto e meio eu fui como o nerdinho é para a menina mais gata da escola, invisível. depois fui notado. durante esse minuto e meio o senhor da cicatriz olhava no fundo dos meus olhos. se capitu tinha olhos de ressaca, esse senhorzinho tinha olhos de pororoca, afinal tudo que eu mais queria era sair do campo de vista dele. tava ficando incômodo.
- vai querer o que?
- um halls…
- que sabor?
- vermelho.
vermelho. vermelho. vermelho. vermelho. vermelho. vermelho. vermelho. sangue. vermelho. vermelho. sangue. vermelho. sangue. sangue. vermelho. sangue. eu consegui pedir o pior sabor de halls possível em um ambiente hostil.
então o atendente fui buscar meu halls. durante todo esse tempo o senhorzinho me observou e, quando olhei pra ele e nossos olhos se cruzaram como duas lanches indo em direções opostas, ele começou a fazer bizarros sinais. era uma espécie de coçada na bochecha e nariz. um sinal brusco e decidido, porém desconfiado. de cara não entendi o que ele significava, fingi que não era comigo e olhei pra frente. meu halls veio. peguei. paguei. esperei o troco. e durante todo esse tempo tive a cicatriz me encarando e, então notei, tentando me vender pó.
o senhorzinho começou a ficar mais nervoso e desconfiado e eu ali, firme, esperando meu troco. de tempos em tempos meu olhar escorregava e acabava se encontrando com o do senhorzinho, tudo isso pq eu precisava verificar se ele ainda mantinha o olho em mim. e ele mantinha o maldito olho em mim. meu troco chegou e eu saí rápido, mas não sem antes murmurar um baixo ‘não, muito obrigado’ para o senhor que tentava me fazer cair no caminho da perdição.
numa ida ao bar pra comprar um halls quase saí com drogas, na verdade saí com drogas. halls de melancia é uma droga terrível.