O incrível caso da lingerie perdida

sempre costumo abrir as portas de casa para maravilhosos visitantes que possam estar de passagem por são paulo. basicamente tento ser um hostel grátis pra pessoas que são bacanas, porém isso, às vezes, pode ser meio controverso na preciosa vidinha de todos.

uma vez recebi uma senhora aqui em casa, amiga da família, ela tinha vindo pra um congresso religioso, essas coisas que são praticamente um lava-rápido de cérebros que usa detergente de baixíssima qualidade e acaba arranhando todo seu carro. essa senhorinha se chamava Odete — nome alterado para não constranger a véia e evitar o stalk por parte dos possíveis leitores desse caso da vida real.

só que, quando recebi a visita da dona Odetinha, eu recém tinha terminado um namoro. essa fase pós-namoro, pra mim, sempre foi provida de um nível mais elevado de promiscuidade e da auto-ilusão de que enfiar coisas em outras coisas vai ocupar o espaço que havia sido deixado em meu coraçãozinho.

acabou que uma determinada menina, com quem vivi grandes momentos — basicamente umas 4 garrafas de cerveja e conversas superficiais sobre coisas completamente idiotas, tipo a vez que supostamente fiz um colega cortar os cílios, dormiu aqui em casa comigo.

a primeira coisa que me preocupou nessa situação toda foi o fato do apartamento estar quase tão lotado quanto evento divulgado pelo catraca livre.

a segunda coisa foram, sei lá, possíveis sons. a acústica não é o forte do apartamento onde moro e duas pessoas roncando poderia ser um problema para o sono peso pena da senhorinha Odete.

a boa notícia é que tudo coreu bem. inclusive não poderia ter corrido de forma melhor.

na noite seguinte fui lavar roupa. coloquei tudo na máquina. sabão em pó. amaciante biodegradável — afinal eu tenho que fingir pra eu mesmo que tô fazendo minha parte pra salvar o planeta. programa a máquina. lava. lava. lava. centrifuga. schlópti schlipt e demais termos técnicos e onomatopeias sobre lavar roupa.

na hora de estender tudo, notei que havia um corpo estranho no meio das minhas vestimentas, que estavam úmidas pela lavagem. o que tinha ali? uma lingerie. ao contrário do possa parecer para um desavisado, eu não uso lingeries.

nesse meio tempo haviam passado uns dois dias da minha preocupação com barulhos noturnos que pudessem atrapalhar o sono dos moradores temporários da casa e eu ainda não tinha conversado de novo com a menina que dormiu aqui. com a dona Odete eu falava todo dia, era uma beleza. então decidi ir puxar papo com a menina pra avisar que ela tinha deixado a lingerie dela aqui — e também pra tirar onda com a cara dela, afinal ela tinha saído no pelo aqui de casa, mas cada um é cada um né.

a lingerie não era da menina e ela ainda ficou brava comigo por que, segundo ela, acusei-a de ser ‘o tipo de mina que sai deixando lingerie por aí em casa de homem’ — sendo que eu nem sabia que existia esse tipo da mina! depois de ser acusado de diversas coisas, notei que realmente não pertencia a essa menina, afinal ela tava usando calcinhas de algodão, mais confortáveis imagino, e simples. inclusive meio desbotadas. não que eu tenha ficado analisando muito, é que tenho memória fotográfica, mas ao mesmo tempo sofro de alguns esquecimentos repentinos.

aqui eu tinha um mistério em mãos, mas supus que a roupa de baixo vermelha, rendada e aparentemente nova, fosse de alguma menina que tivesse estado aqui em casa pra visitar meu colega de apartamento.

no fim das contas, quando eu tava recolhendo a roupa do varal, dona Odete aparece para clamar sua roupa de baixo e agradecer por eu ter lavado.

a única coisa que eu conseguia pensar nessa hora foi o seguinte: eu ando saindo com meninas que usam calcinhas piores do que as que senhorinhas fofas e de cacheados cabelos brancos usam. nesse momento eu senti orgulho do potencial erótico que minha vó poderia ter pra alguém.

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