tudo por um cachorro fantasiado de abelha

pt. 1
eu corria com a carteira na mão, como se tivesse sendo perseguido por uma manada de cães fantasiados de abelha. corria como se não houvesse amanhã. e não haveria, pois as consequências seriam terríveis. foi aí que me pararam. ofegante, fiz aquele contrapasso de quem interrompe bruscamente uma corrida.
tá com pressa?
a polícia é uma merda.
tô
tô o que?
você eu não sei, mas eu tô com pressa.
tá indo fazer o que, engraçadinho?
é lucas.
lucas o que?
aí depende da hora do dia.
tá indo onde? essa carteira é de quem.
então…
diálogos à parte, o ‘então’ é uma maldição já aceita e inclusa na linguagem popular do brasileiro. o ‘então’, sozinho e mais isolado do que o gato de schrodinger, consegue ser, ao mesmo tempo que só uma palavra, também uma frase. o brasileiro é maneiro demais.
então… preciso buscar uma fantasia de abelha pra cachorro. já tô atrasado.
a gente vê esse tipo de coisa em filme, série e em vídeo merda de youtube e acha que não acontece. mas era verdade. dias antes, eu tinha investido — pq falar que ‘gastou’ tempo é feio, né? — quase um dia inteiro pesquisando fantasias de abelha para uma ação do trabalho. efetivamente tava indo buscar a famigerada roupinha.
pt. 2
“cheguei. tô aqui já” — essa foi a mensagem que sacramentou a confirmação do negócio. tudo aconteceria à luz do dia.
todo o processo de compra foi complicado. a negociação foi feita por email, mesmo que o produto tenha sido encontrado no mercado livre. já estávamos agindo de forma perigosa, desrespeitando as regras do site: fui ousado e publiquei meu email em uma pergunta na página do produto. o site não permite isso. apagaram minha pergunta. insisti. postei novamente. dessa vez tomei o cuidado de colocar espaço entre as letras, caracteres especiais e nem incluí o .com. dizem que a tecnologia ainda tem muito o que avançar, mas em menos de 3min27s minha segunda postagem ilegal já havia sido apagada.
a entrega estava marcada para uma ex-área mal vista da cidade, uma região que vem sofrendo com a porto-segurização — basicamente uma espécie de gentrificação executiva leve promovida por uma empresa de seguros que jamais citarei o nome — de toda região.
o irmão da vendedora do produto trabalha na empresa e, para economizar no frete, pois vivemos tempos de suposta crise, combinamos que ele faria a entrega da mercadoria. tudo pronto. tudo agendado.
“Estou chegando”, recebi no celular. “Já tô indo!”, respondi. o método de comunicação escolhido foi o arcaidco short message service, também conhecido como SMS. “Opa. Tô aqui na frente já”. neste momento a tensão já tava próxima do limite. este tipo de negociação é complicada. você fica observando, acompanhando todos os movimentos de todas as pessoas, tentando adivinhar quem será o envolvido, o seu contato, a pessoa designada pelo destino para entregar o que você mais deseja naquele momento.
avistei o indivíduo. camisa com listras horizontais, cerca de 1,60m de altura, talvez menos camiseta do que poderia, mas quem sou eu pra julgar. ele também me viu. apontou acanhadamente e quando os lábios deles iniciavam a pronúncia do meu nome ‘llu…’ eu intervi ‘alexandre! tudo beleza?’. este tipo de situação pede que se assuma o controle, ao menos é o que li em um post de linkedin feito por um cara de quem nunca tinha ouvido falar.
pt.3
após o contato comedido, a mochila abre e dela sai uma sacola preta. finalmente. estava lá. abro o saco esboçando um sorriso. eu convivia há três dias com a incerteza da qualidade do que tinha comprado, mas mantive uma carta na manga: ainda não tinha pago o produto.
da sacola negra, tiro uma roupinha de abelha para cachorro. tamanho g. tava tudo certo. negócio feito.
vou embora pensando que a vida é realmente emocionante.
