Cinco sentidos

Eu odeio a presença das pessoas e tenho medo da solidão. Estou há dez minutos cheirando um livro do Cortázar, buscando nesse odor a cura para o meu mal, ciente que minha incapacidade de ler se deve estritamente a essa contração na barriga, acompanhada de um gelo infinitamente angustiante.

Nada recebe minha inteira atenção. Me tornei um abominável, tudo aquilo que condenava há algumas horas, em dimensões ainda mais devastadoras.

Dói o meu pulso, culpa dos rabiscos rápidos que destravo, mas dói mais a culpa e essa dor me mantém vivo e acordado dentro da minha realidade que escorre. Não sou capaz de dormir, dormir é fuga.

Não faz muito joguei no lixo um punhado de sonhos, e vejam vocês, eu não tinha muitos. Se fecho os olhos, fujo, como fugiam aqueles que eu criticava. Sou, estou e me encontro cercado do nada, a deriva nessas reflexões baratas das pessoas modernas.

Não tenho vontade desse nada, mas é o que há. Estar deitado me deixou melhor. A visão turva me faz indagar se o álcool ainda toma conta do meu corpo. Engraçado. A gente bebe e ele que toma conta. E leva meu corpo ao limite do desgaste físico, faz suar a última gota de qualquer coisa líquida que esteja dentro de mim. Sou um sem sangue.

O limite mental, esse já não existe. Talvez tenha ido embora. Ou talvez jogado junto com aquele pequeno punhado de sonhos atirados da janela, forçados a pensar que tenha sido um suicídio.

O silêncio é cruel para aqueles que procuram respostas. Nada se ouve nem se vê. É a cegueira dos fracos de coração. Resta tatear na divagação dos pensamento, o olfato do mofo literário e o gosto amargo da derrota.