dá pra viver uma vida enquanto o café fica dois minutos no micro-ondas

A madrugada é das onomatopeias.

Os sentimentos, não. No impulso do momento, cospe em diversos formatos tudo aquilo que é ou expressa, quando o melhor seria recolher à sua significância. Os sentimentos atravessam a barreira do tempo e formato, pois simplesmente não vêem a hora de estar com quem se quer.

Há algum tempo não há onomatopeias. Não há impulso, sequer. Não há palavra. Como poderíamos expressar a maçante presença do vazio? A incrível pressão que me detém o nada. Nada. Ultimamente o que fiz foi apenas folhar páginas em branco.

Como definir? “Sobra tanta falta”? “Slap, slap”, faria a página.

Dentro de uma caneca de café, o mundo sucumbe. Slurp, é esse som que faz o sorvo? Passa da hora, seja ela qual for, é sempre errada, ou sempre atrasada. Não faz a menor diferença, talvez o relógio esteja sem pilha e os dias passaram sem ninguém notar.

O café esfriou, mas não faz diferença. Faz indiferença.

Engraçado. Esse relógio parado. Não sei há quanto tempo parou, e me pego a pensar sobre os erros de ter algo tão inútil e feio pendurado na parede. Nele agora estão marcados 10:10, é dia, é manhã, e pela manhã o mundo corre. Eu me arrasto, tal qual relógio (ele de novo) prestes a acabar a corda. Dlin dlon.

As paredes da cozinha estão úmidas, escorrem gotas em um balé sincronizado e medonho. O azulejo está encardido, mas logo o azulejo que esfreguei com afinco na última faxina. Churrasco de novo pai? Não, obrigado senhor, não desejo comprar vassouras novas, estamos satisfeitos com as daqui. Relógios? Não, também não. Temos no micro-ondas, diz minha irmã, e eu concordo. O que me leva a lembrar de aquecer o café.

Dá pra viver uma vida toda enquanto o café fica dois minutos no micro-ondas. E eu vivo.

Café requentado tem gosto de morte. Penso em jogar todo ele pelo ralo, mas lembro que o mundo sucumbiu dentro daquela xícara. Como se fosse verdade tudo aquilo. Na sala, ajusto o relógio para algum momento em que seja noite. E, como por mágica, volto pra madrugada. Na minha casa ou no meu coração, todas as portas estão abertas. Clac, bum!

Um casaco, um chapéu, uma dúzia de dignidades. Vários passos pela rua, um bom vinho, ladeiras. Vários sons indecifráveis.

E quando o sol nascer, silêncio.