Roteiros sobre o escuro

I.

Começa a cena em uma dessas ladeiras da vida, a princípio perto de algum centro comercial (é o que parece). À primeira vista, temos a impressão de que é domingo, pois tudo está deserto. Talvez uma cidade fantasma. As ruas eram de paralelepípedo e, fora alguma poeira natural que as cidades tem, se mostrava bastante limpa. Algumas folhas de plátanos são levadas pelo vento, e o som desperta o espectador.

Um trinco abre abafado. A visão da câmera passa a se movimentar para perto de uma das lojas, com vitrines embaçadas. De dentro de uma delas sai um garoto, com uma pequena placa na mão. Encosta perto da parede, e com prego e martelo, a pendura na parede. Nela se lê “Há vaga”. Ele entra novamente, como se fugisse do frio. Novamente a câmera passa a andar, desta vez para longe, permitindo ver a fachada da loja que, quase apagada, mostra um coração estilizado e a frase “Meu coração”. Tudo escurece.

II.

Foca uma luminária. Então um giro de trezentos e sessenta graus mostra o ambiente. Pessoas riem, imersas em seus próprios pensamentos, embora finjam se divertir com amigos. É um bar. Volta o foco na luminária. Ela está colocada logo acima de uma mesa de sinuca. Uns caras tranquilos jogam, falando sobre futebol e outras pequenices do dia a dia. Líquidos gelados são sorvidos, cigarros são tragados, olhares captados e músculos doídos. Não há qualquer tensão no ambiente. A câmera cai sobre a mesa. No mesmo momento uma bola é tacada. A cena acompanha a bola, até que ela é encaçapada com perfeição. Bola oito. Só que ela entra deitada. O símbolo do infinito.

Está encaçapado o infinito.

Então sobe a visão e fica a girar sobre o bocal daquele universo paralelo que é o interior da mesa. O som da bola rolando dentro dela é ouvido. Estralos. A câmera novamente cai. Para dentro da caçapa. Mas nada se vê. Tudo está escuro.

III.

O barulho de umas moedas caindo no balcão sobressai antes da imagem. Quando elas aparecem, estão estáticas e logo são recolhidas pela moça da papelaria. Ele, do outro lado do balcão, compra um pacotinho de post-it e não lhe custa mais que alguns dinheiros, mas a felicidade com que o faz é incomum. Em todos eles escreve uma frase.

A mesma frase.

E os coloca no bolso. Todos os dias estão em seu bolso. Nesse momento a câmera mostra um timelapse das mudanças de roupa do garoto, sem que mude a presença daqueles adesivinhos consigo. E ele cola alguns as vezes. Sempre em finais de livros de final feliz. Em todos os livros de finais felizes que leu, está lá um dos post its. Já pensou em invadir uma biblioteca e colar em todos os livros que lhe caíssem nas mãos. Mas prefere ler antes. Vai que um dia o que ele mais teme acontece mesmo? A câmera o mostra sorrindo, sentado em uma poltrona, ao terminar mais uma história com felizes para sempre. Ele cola o recado com calma e o lê em voz alta. “É mentira cara, o amor é ruim”. Fecha o livro. Tudo escurece.