Semana que vem, volta.
-A gente nunca mais deveria fazer isso. — você que disse, e eu só concordei, em silêncio, com a xícara na mão.
Na semana seguinte, lá estava você de novo, cabelos platinados embaraçados como só um dia de manhã cedo consegue deixar, presos num rabo de cavalo desleixado. Seu rosto ainda tem marcas do travesseiro. Engraçado. Veste uma das minhas camisetas, muito amassada, mas que vai logo tirando, como se sentisse vergonha daquilo, e procura o vestido preto e justo da noite anterior, que ficou perdido em algum canto do apartamento.
É bom ter uma sacada grande, sabe? Não dá aquela sensação terrivelmente opressora que as vezes a paisagem predominantemente urbana ao redor gera. Também é bom morar no último andar. É como ter todo o céu ao seu dispor. Dá pra ficar escorado no parapeito tomando café enquanto as outras pessoas na cidade ainda não acordaram. Ou pra ficar sozinho ouvindo as promessas que o dia faz, quase sempre otimistas.
“Vou te dar um bom sol”, me diz o dia, “vai curar tuas olheiras” e sorri, “Mas não agora, por favor”, eu respondo, “não quero que desça quente demais o café”.
Aqui é longe de onde cresci e ainda que bata muita brisa, não bate aquela saudade de voltar. A gente é meio diferente disso, não é? Você tem essa necessidade de ir logo embora, mesmo que seja muito cedo da manhã. Só que sempre volta. Cheguei há poucos dias, dias suficientes pra você conseguir inventar desculpas palpáveis para tanta ausência, algo que o cara aquele, que eu nem quero conhecer, saber nome ou o que quer que seja, deva sentir. Mas ele ainda é seu namorado, é o que você diz. Por mim tanto faz, não sou eu que levanto a cada dia com remorso.
Eu também prometi que ia parar, mas não me arrependo.
“Tô reduzindo”, e rio comigo mesmo. Acendo outro cigarro e assopro perto da porta de vidro que separa a sala da sacada. A fumaça deixa a mostra marcas dos teus dedos, aqueles que seguraram teu corpo enquanto cambaleava de sono e perguntava pra mim que horas eram, há uns 3 dias atrás. Se assoprasse fumaça nas minhas costas, talvez achasse ali também marcas de dedos teus.
Aqui dentro, olho pras paredes brancas e acho que elas deviam ter algo mais. E nem sempre isso significa cor. Só uma nuance diferente. Talvez uns quadros com desenhos abstratos. Como é o jeito da tua voz. Cheia de um sotaque engraçado, mas que combina direitinho com a suavidade do teu tom. Eu sei que a voz não tem cor, mas é ela que garante o brilho colorido do teu sorriso branco.
– A gente nunca mais deveria fazer isso. — você que diz mais uma vez, como um mantra das minhas manhãs de sexta, enquanto coloca o brinco e gira a maçaneta pra ir embora.
Eu bebo mais um gole de café e o único pensamento que me ocorre dessa vez é me perguntar quando o “nunca mais fazer isso” vai se referir ao fato de você precisar ir embora.