Do seu dono

15/10/2016
Lá em Itaquera, em frente ao Aquário, a gente escuta os latidos vindos da calçada. De forma ilegal, animais são vendidos ali, mas todo mundo finge que não $abe de nada. Eu queria adotar, mas mãe e pai acharam melhor comprar. Mentira! Na verdade a gente tinha ido só olhar. Só pra matar um pouquinho da vontade de ter uma bolinha de pelo andando em nosso lar.

Foi paixão a primeira vista… mas não por você, eu confesso. Era fofura demais, fofura em excesso. Fofura tamanha que o “só olhar” virou um “acho que a gente pode levar”. Mainha autorizou! Papai, do jeito dele — calado e contido-, só celebrou.

-Mas não pode ser muito grande, nem soltar muito pelo! Porque depois pra pedir para vocês limparem a casa é quase como enxugar gelo!

Então começamos a caça do animal perfeito. Tinha que ser bonitinho, pequeninho e de pelo ralinho. “Esses são exatamente o que procuram”, disse o vendedor. “Poodle de belo curto! É só fazer um carinho todos os dias que já se enchem de amor”. Enquanto falava, mostrava a gaiola com cinco ou seis bolinhas peludas. Podiam ser seus irmãos e irmãs… quanta saudade devem ter.

Foi aí que escolhemos você. O pelo pretinho nos conquistou, não tinha mais nada que podíamos fazer. Pagamos e já fomos te levando. “Calma que vou embrulhar pra você!”, disse o vendedor me assustando. O embrulho era uma roupinha de cachorro, amarela e preta, para te aquecer. Era bem feinha e brega, mas a paixão já era tanta que nem isso a gente conseguia ver.

O começo foi bem difícil, disso me lembra sem nenhuma graça. Você ficou muito doente e quase morreu! Na preocupação fez até chorar o chefe dessa casa. Mas tomou remédio e melhorou pra valer! Depois disso foi crescendo, crescendo e crescendo. Mas, espera! Era pra crescer?!

“Poodle de pelo curto…”, lembro do vendedor a dizer. Cresceu mais que um garrote e o pelo você já deve saber.

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