O cinema político que aqui me refiro, se trata das representações fílmicas com — obviamente — conteúdos políticos, no entanto, conteúdos que enfrentam as principais temáticas ligadas aos problemas socioeconômicos de um país, bem como de uma região como o continente latino-americano. Por tanto, estamos diante da instrumentalização do cinema direcionado para construção de uma mudança social que enfrente as consequências do modo de produção social e econômico capitalista. Este é o caso do Cinema Novo no Brasil, Cine de la Base e Cine de Liberación na Argentina. Foram grupos de cinema político que atuaram com maior força nos dois países citados durante meados dos anos 60 e anos 70.
Para sermos mais exatos, as produções destes grupos cinematográficos não começaram do “zero”, pois tiveram suas influências. No Cinema Novo, podemos citar seus protagonistas a começar pelo seu “cabeça” , o cineasta baiano Glauber Rocha, depois, Carlos Diegues ( Cacá Diegues) Leon Hirszman, Paulo César Saraceni, Eduardo Coutinho entre outros de grande importância que tiveram destaque. Eram jovens que estavam saindo da casa dos 20 anos influenciados pelas concepções de montagem cinematográfica do cineasta Soviético Sergei Eisenstein e pelas experiência do cinema italiano do pós-guerra. A montagem, refere-se a “como contar a história”, em como será a disposição das cenas responsáveis pela narrativa do filme.
Para isto, há métodos e o método do cineasta russo é a construção de uma história (narrativa) própria dentro da linguagem cinematográfica, a partir da montagem dialética. O que é isto? Dialética é a oposição entre idéias em conflito que geram um resultado consequente de tal conflito, ou seja, seu resultado é a síntese desta oposição. Pensemos nas seguintes cenas: 1-trabalhadores em uma embarcação em péssimas condições de trabalho. 2- Estes trabalhadores se revoltam com sua situação e com os causadores da mesma e tomam a embarcação. 3- Já em conflito com os que tentam os impedir, os trabalhadores saem triunfantes. A grosso modo,(que fique claro) este é um exemplo de movimento dialético.
VOLTANDO AOS JOVENS DA AMÉRICA LATINA: BRASIL
O soviético Sergei Eisenstein, entusiasta da Revolução Russa de 1917, buscou com seu cinema edificar o socialismo e a revolução. Outra influência muito marcante foi a do cinema italiano do pós II Guerra, conhecido como Neorrealismo Italiano, este momento foi inaugurado pelo filme de Roberto Rossellini: Roma, Cidade Aberta de 1945. Depois da derrota do fascismo na Itália, o cinema também se libertou e possibilitou que atores e diretores engajados, como Rossellini, tratassem com qualidade técnica e dramática, cenas de uma sociedade em reconstrução após anos de conflitos. Para isto, não foram contratados atores profissionais e sim selecionados em bairros operários, com mulheres e crianças em cena, sem cenários, apenas com a paisagem (nua e crua )com as ruínas das consequências da guerra. Os neorrealistas se debruçaram para representar temáticas sobre a questão da terra, sobre o desemprego, o domínio nazi-fascista nos bairros, dando à representação dos atores e da narrativa, o máximo de realidade possível, que chega-se a confundir com os próprios dos documentários.
Cena Fragmento de Roma, Cidade Aberta (1945) Roberto Rossellini
Dez anos depois, ou seja em 1955, sob influência do neorrealismo italiano, o cineasta Nelson Pereira dos Santos irá gravar no Rio de Janeiro o seu longa-metragem Rio, Quarenta Graus. Anos antes, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz ( tentativa de cinema industrial no Brasil “ a lá” Hollywood) realizou uma experiência mal sucedida chamada O Caiçara (1950). Não funcionou, pois para ser neorrealista a Vera Cruz construiu cenários e atuações que forjavam e assim saía das características propostas pelo cinema italiano neorrealista. A obra de Nelson Pereira dos Santos, seguia as experiências do cinema italinao neorrealista. O tema de seu filme era a vida de crianças pobres, jogadas à própria sorte no Rio de Janeiro em busca da sobrevivência na pobreza dos morros. Seu filme inicia e se encerra com a música de Zé Keti — Eu sou o Samba (A Voz do Morro)
Para a estréia, “Rio, Quarenta Graus”, teve que enfrentar a censura durante o governo Café Filho, uma vez que seu filme possuía conteúdo que desagradava as autoridades porque, para estas, o filme mostrava uma imagem negativa do país. Foi sob forte apelo e pressão social que as autoridades liberaram sua estréia depois de um tempo de censura. A população brasileira, muito acostumada ainda como o cinema popularesco da chanchada, criou uma grande expectativa para assistir o filme que tinha sido proibido. Porém, quando assistiram caíram em decepção, isto porque o filme não continha mulheres nuas ou semi nuas, como afirmavam alguns boatos sobre os motivos de sua censura. Do outro lado da mesma moeda, o filme foi motivo de grande entusiamo para uma geração de cineastas jovens,eisensteinianos, críticos de cinema, críticos ferrenho das chanchadas pelo seu apelo comercial e popularesco. Estes eram os jovens que vieram a formar o Cinema Novo, o cinema moderno brasileiro.
O filme de Nelson Pereira dos Santos os indicou o caminho de que era possível, no Brasil, com todas as dificuldades, produzir cinema em consonância com as produções de qualidade que escapavam da lógica comercial e popularesca.
O cinema, assim como toda representação cultural e artística, apresenta respostas e leituras do contexto sócio-histórico que está inserido. No Brasil, o Cinema Novo é uma resposta contrária à dominação econômica e cultural norte-americana no país, contrária também à pobreza que leva a subserviência dos empobrecidos da região nordeste que são impostas e estão vinculadas ao mandonismo das famílias tradicionais com seus coronéis. É uma resposta também à predominância do cinema comercial hollywoodiano e do cinema brasileiro da época dominado pela chanchada, estes últimos são filmes com apelos popularescos feitos sob a condição de pobreza no país.
Na Argentina, para falarmos do Cine Liberación e o Cine de la Base, temos que lembrar que foram também respostas ao contexto da década de 70, período em que o país vizinho sofreu as consequências de uma violenta Ditadura Militar que contabilizou dezenas de milhares de mortos nos anos 80, período em que governo foi ocupado novamente pelos civis. A propósito, a vida do expoente do Cine de la Base, o jovem e combativo cineasta Raymundo Gleyzer, foi sequestrado e morto no ano de 1976 pelas forças do governo militar argentino. Do Cine de Liberación, seu expoente foi o jovem Fernando Pino Solanas, que também se contrapôs ao golpe e à condição de dominação econômica, política e cultural do continente latino-americano como Glauber Rocha e os cinemanovistas e Raymundo Gleyzer no Cine de La Base.
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