Aprendizados da faculdade de Design

Lições dos meus primeiros anos de estudos em design.

Quando terminei a faculdade de design criei uma lista de aprendizados que tive ao longo desses anos. Compilei os principais pontos da lista nesse texto, com o objetivo de compartilhar esse aprendizado com outros estudantes e, quem sabe, ajudar nesse processo de desenvolvimento.

Vista do caramelo da FAU USP, por Ruy Vasconcelos

Antes de começar

Me formei em uma escola modernista e bastante focada no processo de projeto. O curso era generalista e com isso pude experimentar o mesmo processo de projeto tanto na programação visual quanto no projeto do produto e de serviço. Sei que muitas escolas tem cursos mais focados em uma dessas áreas. Ainda que a sua educação em design tenha uma abordagem específica para uma dessas frentes, não tem problema: listei aqui minhas reflexões tendo isto em mente.

Fique a vontade para compartilhar como foi ou tem sido sua experiência educacional em Design, nos comentários. Essa é uma pauta em eventos de design que normalmente é deixada de lado e o Medium pode servir como espaço para a discussão :)


1. Há professores em todo lugar.

Alguns meses antes de entrar na faculdade de Design lembro de me imaginar aprendendo com grandes mestres. No final da segunda semana de aula, eu já estava frustrado com a escolha de curso e cheguei até a prestar prova de transferência de curso — história para outra hora. Minha frustração, no entanto, era culpa de ninguém senão eu mesmo: eu não estava fazendo as perguntas certas.

Eu não tinha entendido ainda que existem professores excelentes em qualquer lugar que você for. A questão é que nem sempre eles assumem o papel de professores, por isso vale a pena dar um empurrãozinho pra aprender com essas pessoas. Encontrei duas formas que me ajudaram com isso:

A primeira, é não perder a oportunidade de falar sobre o que você está trabalhando, não importa o quão bobos seus projetos possam parecer. Tente fazer isso ao máximo que puder, várias vezes no mesmo dia se for possível (pra pessoas diferentes, pra não ser massante). Pessoalmente, acredito que falar sobre meus projetos é a melhor forma de entender no que eu realmente estou trabalhando e por que esse projeto é importante. Além disso, também é uma ótima forma de treinar sua narrativa. Contar a sua história de formas diferentes vai te ajudar a entender o que prende a atenção das pessoas ao mesmo tempo em que você colhe opiniões sobre como melhorar, expandir ou cortar suas ideias.

A segunda dica é ouvir o que os outros têm pra te dizer de volta. Seja um “ouvidor” bastante proativo e pergunte no que seus colegas estão trabalhando e como eles fazem as mesmas tarefas que você.

Oferecer ajuda para outras pessoas é uma das melhores formas de aprender coisas novas (e a melhor para se divertir)

Não pense duas vezes antes de oferecer ajuda para quem você nem conhece direito. Sair da zona de conforto e tentar coisas novas é fundamental pro nosso desenvolvimento. Muitos dos assuntos pelos quais eu tenho mais interesse hoje em dia eu provavelmente teria descoberto só muito depois. Ser cara de pau é uma característica excelente pra se desenvolver na faculdade: se não tivesse oferecido ajuda para fazer coisas que eu nunca havia feito antes eu provavelmente não teria conhecido algumas das pessoas com quem eu mais converso hoje em dia.

Aprender na faculdade é bem mais do que ir para a aula. Separe alguns momentos livres na sua agenda pra passar tempo, sem pretenções, nos ambientes da sua escola em que em que as ideias ganham vida ou tomam forma.

2. Se familiarize com o processo

Falar sobre processo pode parecer bastante chato, mas Design é um método. Ou seja: é o jeito de fazer e não a coisa em si. Ao contrário do que irão te dizer, seguir esse método não vai engessar sua criatividade. Na verdade ele serve pra informar e enriquecer a sua solução, por isso esteja confiante com ele.

O Duplo Diamante.

Em 2005, o Design Council mapeou o processo criativo de designers de diferentes disciplinas. Eles aprenderam que designers possuem “abordagens extremamente semelhantes para o processo criativo” e a partir disto combinaram esse mapeamento em uma visualização conhecida como o Duplo Diamante. Se você não conhece essa visualização, eu recomendo conferir esse site.

3. As ferramentas primordiais

Quando eu falo ferramentas de design não quero dizer Photoshop e Illustrator. Deixe eles de lado por alguns instantes. Um projeto de design vai precisar que você use algumas ferramentas antes de sair desenhando soluções.

As ferramentas que vêm antes dos softwares são aquelas que vão desenvolver a sua habilidade de ler os comportamentos das pessoas e entender como elas interagem com o que está à sua volta. Infelizmente essas ferramentas são as que recebem menor atenção durante a escola, pela nossa sede de materializar ideias e ter algo para mostrar. Entrevistas em profundidade, mapear perfis de clientes, desenvolver personas, construir porcótipos*, dentre outras, são tão importantes quanto seus professores (ou os livros) dizem.

Entender as pessoas e sacar quando e quais dessas ferramentas usar, torna suas decisões de projeto muito menos arbitrárias. Além disso, projetar fora da escola raramente é uma atividade individual e dominar essas técnicas irá te ajudar a trabalhar com outras pessoas e compartilhar a mesma visão sobre o que vocês estão construindo juntos. Rapidamente você vai perceber o que tem funcionado melhor ou pior e estará pronto(a) para combinar e modificar essas ferramentas, criando as suas próprias.

Entender as pessoas e sacar quando/quais dessas ferramentas usar, torna suas decisões de projeto muito menos arbitrárias”.

Certifique-se de aprender o máximo dessas ferramentas enquanto você ainda está no cenário controlado da faculdade. Explore diferentes jeitos de pesquisar, idear e prototipar suas soluções. Em um futuro (bastante) próximo, esse conhecimento servirá como um catalizador pra sua habilidade de lidar com os mais diversos desafios e equipes.

4. Experimente como forma de (auto)conhecimento

Explore com as ferramentas, construa as suas, mas não pare por aí. Vá além e experimente com a sua própria rotina.

Enquanto crescemos, involuntariamente nos condicionamos e criamos hábitos e vícios que, na verdade, nunca foram planejados. Projetar em design tem muito a ver com a forma com que criamos esses hábitos (de maneira consciente ou não). Compreender o básico sobre como funciona o nosso comportamento na construção/desconstrução de hábitos pode somar muito pro seu processo.

Eu por exemplo, nunca fui um grande fã de doces (sim). Ainda assim, em determinado momento da faculdade me percebi consumindo muito mais açúcar do que deveria. Entender de onde isso vinha e como eu podia trabalhar esse comportamento foi ponto de ignição para um dos projetos que eu mais tive prazer em desenvolver.

No seu próximo projeto, se desafie a projetar para construir/modificar um hábito seu. Essa foi uma experiência pessoal fantástica que eu acredito que todo mundo deveria tentar. Espero que você também se divirta e aprenda um monte sobre quem você é e o que funciona melhor contigo.

5. Pare de defender seu projeto

Não é mentira alguma que somos apegados às nossas criações. Quer dizer… Como poderia ser diferente? Investimos tantas horas em um projeto, construímos relações de amor… ódio… e as vezes um misto dos dois com um carinho de mãe e pai, reiterando a o clássico: “ninguém pode falar mal do nosso projeto senão eu”.

O lado negativo de ser tão apegado às ideias é que quando o trabalho é avaliado por alguém, nosso instinto diz para contra-argumentarmos ao invés de aprender com o feedback. Essa é uma reação involuntária que quase todo mundo que eu conheço — eu incluído — tem dificuldade em lidar. Agradecer o feedback, anotar o que foi dito e refletir em outro momento é tão difícil para aprender quanto pode ser esclarecedor.

Pare de dar feedback para o seu feedback.

É claro que existe a chance dos seus professores estarem errados ou da sua mensagem simplesmente não ter sido comunicada da melhor forma. No entanto, se você recebeu críticas negativas, veja esses comentários como ponto de partida para a próxima iteração de projeto e não como o enterro prematuro de uma boa ideia.

6. Dê o Zoom Out

Conforme mergulhamos nos projetos, é comum investir muito tempo sendo perfeccionista nos detalhes e perder o foco do desafio inicial do projeto. Dê um passo atrás. Veja como a tarefa que você está trabalhando agora desempenha um papel dentro do todo.

Lembre-se das pessoas com quem você conversou no início do projeto e imagine como elas irão interagir com o seu trabalho (existe um modo de fazê-las interagir com ele nesse momento?). Como essas pessoas estavam realizando a mesma tarefa antes do seu projeto? Qual problema você está resolvendo? Continue dando os próximos passos do projeto ao associar suas decisões às descobertas anteriores.

7. Aproveite ao máximo o seu tempo livre

Outras pessoas já escreveram um monte sobre produtividade então serei breve nesse último. Dizem que produtividade é sobre trabalhar melhor e não mais. E é verdade. Só que ser produtivo não se resume apenas a trabalho. Na verdade é aproveitar bem o seu tempo: trabalhando, mas também fazendo todas as outras coisas que você sente prazer em fazer.

Isso não é viver.

Aproveitar ao máximo seu tempo livre significa não ser tão duro consigo: assista bons filmes, leia livros de romance, ficção ou quaisquer outros (não técnicos) que você aprecie, vá aos museus, festivais de música, conheça novas pessoas, passe tempo com a sua família.

Nenhuma das coisas que você gosta de fazer é menos importante que seu tempo trabalhando. Essas são as coisas que se refletem no seu trabalho e fazem com que ele se destaque. Se o seu trabalho for capaz de mostrar quem você é e do que você gosta, então maiores são as chances de começar a sua carreira trabalhando com coisas que você realmente se importa.

Por fim: não estresse. Você vai se sair bem.

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Esse texto partiu de uma lista guardada em uma gaveta. Agradeço aos amigos e professores da FAU-USP por terem mais recentemente acordado e estimulado essa reflexão (agora aqui registrada).

*Nota: porcótipos são o apelido carinhoso dado aos protótipos conceituais em baixíssima fidelidade (fita crepe, jornal, papelão, etc).