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Rico sabia que se tratava de uma guerra, mas continuava vivendo dia após o outro como se a vida seguisse calmamente.

Os boatos continuavam a ganhar força, as notícias constatavam os boatos, embora a censura do Meno sempre arranjasse uma forma de vetar a progressão local do sentimento de revolta, que já tomava o mundo; as atrocidades contra a humanidade praticadas ali, agora faziam parte da realidade daquela gente: Privação do direito de escolha, prisões baseadas em especulações, tortura e execuções públicas. Tudo era permitido e justificado em nome da liberdade. Foi subjetivamente estabelecida a obrigação cidadã em fazer vista grossa, testemunhar e calar. Triste seria o fim de quem se atrevesse ao contrário – ele não sabia, mas se atreveria da forma mais perigosa.

Foi com uma carta por debaixo da porta que todo torpor se dissipou. Levantou-se apressadamente, pegou o envelope encardido e cercado de dúvidas, abriu sem cuidado. A foto da menina espanhola ao lado do corpo frio da sua mãe, sem os membros superiores, num campo de concentração Faci, foi se revelando sem interpretação imediata. Uma criança sem roupa e sem futuro, pura angústia em preto e branco. O cenário comum de repente virou impactante, a cena corriqueira, horrorizante, que de tanta repulsa, viu-se a própria náusea. O remorso que o tomou por inteiro só não foi mais forte que o arrepio descendo ao longo da espinha, ou a tontura que lhe fez sentar na cama novamente. Vômito lhe subiu a garganta, mas o orgulho o fez engolir de volta: não era tempo de se abalar. – Recomponha-se! – Já se passou tempo demais desde a escolha pelo conforto egoísta que os menilistas lhe deram. Não havia mais espaço para negar sua responsabilidade renegada.

Alcançou a penteadeira com dificuldade, e acendeu o ultimo cigarro da carteira, enquanto experimentava o gosto amargo na boca. Não dava para saber de onde vinha, mas com certeza não era do tabaco. A culpa tinha um sabor forte de morte.

O olhos castanhos passaram 1 hora ou mais observando o papel curvado na Continental antiga, feitas de teclas tão pesadas e firmes que levavam os músculos dos dedos a não aguentarem mais. Mas de alguma forma, ainda aguentavam. Poucos sabiam quem ele era por trás do pseudônimo, mas firmes e pesadas mesmo eram as palavras que alentaram muitos em poucos anos, trazendo esperança e inspiração em tempos de descrença – Rico era uma lenda da escrita que ainda não tinha ideia do legado que poderia deixar.

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