Páginas 2 e 3

Legado. De que valia deixar algo se o que importa, já havia o deixado? As palavras dela ainda mordiam forte suas lembranças:

  • “Pena de você, covarde! Pena de você! Uma vida de lamentações e todo desperdício de masculinidade nesses malditos papéis. Levanta e traz algo que nos alimente, vagabundo! Não vale o batismo que tem, ou a bebida que te acaba. Meu maior arrependimento, Rico, foi um dia ter visto um homem onde na verdade existe um menino, medroso e preguiçoso. Essa criança pode vir a ser parecida com você, ou só lembrar seus traços, mas vai nascer sem você, e com certeza próxima de um macho que valha o sobrenome, muito além dessa fantasia com tinta que mal mata a fome.”

Consuelo nem sempre fora assim. Olhos claros, verdes e grandes acompanhavam os cílios sempre naturalmente delineados, em par com os cabelos pretos, que escondiam parte do rosto fino, comum, e disfarçava uma gentileza ímpar que encantava os que a conheciam. Era uma linda e solicita mulher. Tecelã de formação, mas enfermeira por amor, suas curvas latinas e contínuas formavam um conjunto intrigante com seu tom de pele meio amarelo, meio marrom; era de um pardo incomum. Não tinha um dia sequer que ele não lembrasse daquela silhueta marcante, ou da alegria ao ganhar sua máquina de presente da amada. Eram tempos gloriosos, mais invencíveis que seus fôlegos na cama. Foi sua primeira mulher, e bastou para descobrir o amor pela intimidade dos dois, gravadas em memórias ou nas palavras do seus primeiros contos – mas a segunda grande guerra destruiu o que um dia lhe tivera dado tanto trabalho, suspiros, e flores pra conquistar. Ninguém se negava a convocação do Grande Meno, que tanto prometeu, e fez mais do que o povo pudesse imaginar.

Não existiam muitas chances, visto o cenário apresentado: arte não era mais valorizada, se não viesse pelo Meno expressamente autorizada. Relações se resumiram ao básico, sobrevivência era prioridade. Cores não mais preenchiam vilarejos, cidades capengavam em existir sem luz, apenas marcas cinza de fuga e de má sorte dos que ficaram. O êxodo europeu havia se consolidado, mas os Facis haviam fechado os limites dos países que foram tomados, e os infelizes que restaram, haviam entrado pro exército, na esperança de garantir a menor subsistência. Mulheres em casa, aguardando seus maridos, lotadas de tarefas domésticas e afazeres camaradas, ou nos fronts de batalha, socorrendo os feridos e amputando os recém mutilados.

O partido era soberano, provedor e misericordioso – ou assim se apresentava. E exigia pagamento pela proteção. Tudo pra conter a ameaça vanguardista dos “Conscientz”.

Rico traiu sua mente e seus valores, e depois de deixado pelo vulgo amor de sua vida, jurou a bandeira branca Faci que a ausência de cor representaria seu novo propósito de existência. Que sentido teria continuar depois de derrotado por si mesmo e pelas consequências das ilusões? -Um mundo melhor só era dado a quem trabalhava, não a quem escrevia.-

Obediente e servil, rapidamente mostrou-se útil, tanto com armas quanto nas missões táticas. Usou a frieza do coração pra cegar-se diante das atrocidades que cometia, sempre de branco, iluminado pela farda da 2º divisão de elite; e de uma forma vertiginosa, subiu ao alto escalão da hierarquia Menilista: Rico era mais que um sargento, era a cara da nova ordem, de um novo mundo organizado e metódico, ausente de porquês, apenas com ‘pra quês’. Disciplina como codinome. Homens à frente do tempo, sempre atrás de traidores.

Doloroso foi entender que, a imagem da sua amada e da sua suposta filha – frias, despedaçadas e inanimadas, retirariam violentamente o véu de desdém e falsa adesão que por muito o cobriu, trazendo as toneladas de vidas que não lhe pesaram extirpar. Até agora.

Afirmar que o fim iminente o abraçava não diminuía o corte na alma, por onde sangrava vontade de extinguir a própria dor. Era demais pra sanidade de menos.

Mas ..

O que seria um fim suicida, tornou-se o nascimento do mártir mais controverso que a história moderna poderia documentar.

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