O corvo e o pavão

Flannery O’Connor e seus pavões.

O pavão, a mais bela das aves, orgulhava-se tanto de seu status que vivia à parte dos outros animais. Entretanto, um belo dia, decidiu caminhar até o bosque onde todos os bichos viviam.

Uma formiga, aproximando-se cautelosamente da majestosa ave, disse:
 — Ó, grande pavão! Tu que guardas a beleza de mil sóis em tua cauda, faz-me um favor? Tuas penas são soberbas; poderias, através delas, proporcionar uma sombra a mim e às minhas companheiras para que trabalhemos melhor? Era, de fato, um dia quente. O pavão, sempre muito arrogante, nada disse. Apenas assentiu com a cabeça.

Caminharam até o formigueiro. Lá estando, o pavão abriu seu leque de penas, propiciando às formigas a sombra prometida. A fila com os diminutos insetos, que carregavam folhas, gravetos e outras provisões, seguia mui organizada.
 O tempo passava e o trabalho não cessava. A formiga que conversara com o pavão deu por falta de algumas companheiras. Dúbia, indagou do pavão:

— Rei das aves, por acaso viste alguma formiga desvencilhar-se da trilha?

— Tuas colegas não foram a lugar algum. O Sol está alto; tive fome. Comi algumas de vocês.

A formiga, mesmo pesarosa, nada objetou, devido ao respeito exigido pelo pavão. Um corvo, que observava a cena do galho de certa árvore, quis imitar o pavão. Aproximou-se da fila de formigas e bicou uma, duas, até dar-se por satisfeito. O pavão observava a cena indiferente.

A formiga não demorou a notar a ausência de suas colegas. Avistou, então, a negra ave. O pavão, aproveitando-se da situação, dirigiu-se dissimuladamente ao corvo:

— Assassino! Pássaro vil! Ah! Pobres insetos… saia daqui, ave agourenta!
 O corvo sentiu-se injustiçado. Replicou:

— Pássaro egoísta! Tu podes, com o silencioso consentimento das formigas, devorar algumas delas. O que me impede de fazer o mesmo?

A formiga, assistindo à cena, nada disse. Mas, em apoio ao pavão, chamou algumas de suas semelhantes; formou-se um motim contra o corvo. Este, intimidado, impaciente, voou para nunca mais voltar àquele bosque. O pavão, então, riu-se dele, dando-se por satisfeito.
 
 MORAL: Aos poderosos, tudo se desculpa; aos miseráveis, nada se perdoa.