O verdadeiro estado totalitário, segundo Aldous Huxley

Aldous Huxley, 1946. Prefácio a sua magnum opus Admirável Mundo Novo (Brave New World).

Numa espécie de claridade profética, Aldous Huxley prognostica, no prefácio ao seu Admirável Mundo Novo, um método que hoje se mostra evidente no mundo todo, e, especialmente, no Brasil. O jornalistas, professores e “marqueteiros” influenciam muitíssimo o pensamento da nossa população. Cá entre nós, o paralelo entre esse tipo de estratégia ao qual Huxley alude, rapidamente, nestas linhas, e a de Antônio Gramsci é claro demais para ser ignorado. A estratégia do político italiano que visa à tomada do poder por meios culturais e sua posterior perpetuação está em voga no Brasil há tempos.
 
 Com vocês, Huxley:

“O governo, por meio de cacetes e de pelotões de execução, de fomes artificiais, de detenções e deportações em massa não é somente desumano (parece que isso não inquieta muitas pessoas, atualmente); é — pode demonstrar-se — ineficaz. E, numa era de técnica avançada, a ineficácia é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente “eficiente” será aquele em que o todo-poderoso Poder Executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios de propaganda, aos redatores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas. Mas os seus métodos são ainda grosseiros e não científicos. Os jesuítas gabavam-se, outrora, de poderem, se lhes fosse confiada a instrução da criança, responder pelas opiniões religiosas do homem. Mas aí tratava-se de um caso de desejos tomados por realidades. E o pedagogo moderno é provavelmente menos eficaz, no condicionamento dos reflexos dos seus alunos, do que o foram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo a que o Sr. Churchil chama uma “cortina de ferro” entre as massas e certos fatos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião de uma maneira bastante mais eficaz do que teriam podido fazê-lo por meio de denúncias eloquentes ou das mais convincentes e lógicas refutações.”.