Conhecendo Roger Machado

Certa feita, em meados de 2011, encontrei o Roger na noite porto alegrense: Girassole Pub (#TodosGira). Eu, na época, escrevia para o Blog Tricolor do ClicRBS. Nosso ex-lateral esquerdo recém retornava ao Grêmio, dessa vez como auxiliar técnico.

Me apresentei ao ídolo gremista, falei onde escrevia e, gentilmente, perguntei se topava me dar uma entrevista para o Blog qualquer dia desses. Ele não foi muito simpático. Olhar sério e distante, aparentando estar de saco cheio com o blogueiro mala que fora lhe importunar. Mas também não foi grosseiro. De modo direto e seco, sem esboçar grandes emoções, falou que isso era com o Vitinho (Vitor Rodrigues, assessor de imprensa do clube à época), e que eu devia procurá-lo para agendar algo nesse sentido.

Pra ser sincero (eu não espero de você mais do que educação), achei o Roger meio estrela e até antipático. “Ui, ui, procure meu assessor”. Poxa, ele era apenas um auxiliar técnico. Não via grandes necessidades de agendamentos burocráticos. Mas ok, também compreendi minha inconveniência dentro de um Pub. Vida que segue. Depois disso, já escrevendo na página gremista do GloboEsporte.com, nem pensei em procurá-lo.

O tempo passou (e eu sofri calado) e Roger Machado precisou sair do clube para realizar seu sonho de virar treinador. Fez bons trabalhos no Juventude e principalmente no Novo Hamburgo. Profissionais que conviveram com ele nesse período eram só elogios. Aí o mundo deu lá suas voltas e eis que: o bom filho à casa torna. Roger finalmente, em 2015, é efetivado como técnico do Tricolor Gaúcho.

Seus primeiros momentos na nova empreitada foram empolgantes. Bons resultados, time mais ligado em campo, jogadas diferentes, mecânica de jogo interessante. Mas ainda era muito cedo para maiores avaliações.

Eu, fã declarado do Felipão, reconhecia que nosso ex-técnico estava sem tesão. De pau mole e mãos nos bolsos. Perdendo, talvez, um de seus maiores trunfos: a motivação, o grupo na mão. Creditei, portanto, muito desse bom começo do Roger à questão anímica. “A confiança do time voltou, jogadores estão mais leves, com a moral elevada”. Avaliação normal em qualquer troca de comando técnico, principalmente quando a comissão anterior já apresentava desgastes.

Mas o futebol que esse Grêmio está jogando hoje, sobretudo com o elenco enxuto que tem, não se explica mais por motivação, arejada no grupo, confiança e o escambau. Roger já se mostra um profissional diferente. Antenado, moderno. Gostei da sua contratação quando foi anunciado, botei fé na aposta da direção. Mesmo assim, está me surpreendendo positivamente. Sigo descobrindo, aos poucos, quem é esse Roger. E gostando muito de cada descoberta.

Comecei a entender melhor até aquele Roger frio e seco do Girassole Pub: era o mesmo que hoje dá entrevistas muito semelhantes quando ganha e quando perde: sem se deslumbrar no primeiro caso, nem se apavoravar no segundo. Sempre sereno, quase indiferente ao mundo, com respostas lúcidas e tranquilas. No mesmo tom que falou com o blogueiro mala naquela noite. Esse é o Roger. Focado, seguro, esforçado. E sem grandes sorrisos fáceis.

Provavelmente a resposta fria que recebi em 2011 não tenha sido sinal de estrelismo: talvez tenha sido apenas fruto do profissionalismo de um Roger extremamente disciplinado e pragmático. Não interessa se era “só” um auxiliar. O procedimento correto era falar com o assessor de imprensa. Sem jeitinho, sem mimimi.

Com o tempo, descobri novas facetas de Mr. Machado. Fiquei sabendo, por exemplo, que quando era jogador já sonhava em virar técnico. Tite, atual treinador do Corinthians, declarou numa entrevista que entregou um disquete de táticas a ele, quando este era seu jogador. O rapaz devorou o material. De lá pra cá, ampliou estudos e esforços, sempre focado em se aperfeiçoar.

Se formou em educação física, fez curso de gestão de pessoas, leu sobre psicologia do esporte. Assiste e analisa vídeos de ligas do mundo inteiro nas concentrações da equipe (acelerando em 2x a velocidade do jogo para dar tempo de ver mais partidas). É um cara diferenciado. Dedicado. Vai muito além da identificação com o clube ou da motivação de vestiário.

Quando jogador, Roger ganhou tudo. Uma verdadeira múmia, tapado de faixa. Mas tinha a pecha de ser um defensor que não marcava gols. De fato, raramente fazia. Seu negócio era defender. No máximo, ajudar a armar algum avanço do time. Aí ele foi jogar no Fluminense e praticamente encerrou a carreira fazendo o gol do título da Copa do Brasil.

Agora, como treinador, até onde vai esse surpreendente Roger Machado?

@lucasvon.

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