Em tempos de ódio: SANT’ANA É UMA BÚSSOLA

Qual é o teu super-herói favorito? Uma vez li em algum lugar que essa era uma pergunta frequente de profissionais da área do desenvolvimento humano. Seguida do conselho: “quando você estiver em alguma situação difícil, diferente ou complicada, tente imaginar o que o seu super-herói favorito faria no seu lugar. É um bom exercício para pensar fora da caixa e chegar a soluções inusitadas e efetivas”.
Uma situação difícil — ou pelo menos chata — pela qual eu passo com alguma frequência é enfrentar a patrulha das redes sociais. Talvez apenas por ter um número um pouco acima da média geral de seguidores, diariamente convivo com fiscais das minhas opiniões. Ou até mesmo das minhas piadinhas despretensiosas. O problema é que esses fiscais não ficam satisfeitos em apenas discordar: eles precisam xingar, rotular, odiar. E não visam dar conselhos que eventualmente façam o criticado crescer: pelo contrário, procuram vírgulas — com lupa — pra tentar te destruir. Ou até deslocam o lugar da vírgula, deturpando totalmente o sentido da mensagem. É bem cansativo. Por vezes, confesso, isso suga tanta energia que cogito nunca mais falar de Grêmio, de futebol, de corneta, de nada. Cogitei mais vezes e já cheguei mais perto de fazê-lo do que talvez qualquer pessoa que me conhece imagine.
Obviamente evoluí diante de algumas críticas. Não é delas que tô falando. Falo do ódio, da “treta pela treta”. E mesmo não vendo bom senso e boa intenção por trás de algumas manifestações odiosas, chega um momento em que o criticado passa a se questionar: será que não tô errado mesmo? Vinte pessoas apontando o dedo na tua cara tem um peso, por mais que tenham milhares concordando contigo ao mesmo tempo, em silêncio. E muitas vezes eu pensei: “será que tô pegando pesado na corneta ao Inter? Tem muita gente reclamando”. “Será que estou cometendo algum equívoco nessa colocação sobre o Barcos? Esses três caras odiaram muito”.
E aí me dei conta de que essa patrulha exagerada teria sido extremamente nociva ao Sant’Ana, se existissem redes sociais em sua época. Quantos jogadores do Grêmio ele criticou em sua carreira de jornalista? Vários. Alguns com certa ênfase, talvez até demasiada. Mas ele fazia isso, bem como críticas a outras questões do clube. Sant’Ana pautou debates, questionou dirigentes. Sempre mirando o bem do Tricolor. E também fez elogios e reconhecimentos a profissionais ou questões do Inter. Adivinhem: nunca foi chamado de “Justino” por isso. Talvez por nunca ter usado o Twitter. Mas também fazia o oposto: defendeu o Grêmio nos mais variados cenários. Defesas ufanistas, apaixonadas. Quase cegas, como toda manifestação apaixonada. Ninguém entupiu os ouvidos dele o acusando de “doente” ou, ainda, de “pelego da Direção”. Ele certamente não enfrentou hordas de gremistas raivosos e irados por acharem que tava criticando pouco e “tinha que ser mais duro com o jogador X ou o dirigente Y”.
Colorados? A grande maioria gostava ou pelo menos respeitava Paulo Sant’Ana. Cheguei a ouvir hoje de um: “ao contrário de ti, ele era gremista, não anti-Inter”. Isso porque tuitei o seguinte: “Sant’Ana nos deixa com o Inter na Série B, dia de vitória gremista e Dia do Futebol. Tem poesia até no seu último ato”. Outros me chamaram de “lixo”, “doente”, e daí pra baixo. Sendo que a intenção do tweet nem era a corneta. Era só pontuar o contexto atual (no qual, sim, o Inter está na B, não é minha culpa). E alguns desses mesmos colorados que me hostilizaram com respostas indignadas estavam reverenciando o gênio Paulo Sant’Ana. O gênio que se vestiu de baiana no Jornal do Almoço quando o Inter perdeu uma Final para o Bahia. O gênio que, já com a saúde debilitada, quicou nos estúdios da RBS para imitar o goleiro Kidiaba. O gênio que previu que o Falcão seria demitido em 3 meses, no dia em que foi contratado pelo Inter, AO LADO DA ESPOSA DO FALCÃO. Pablo tinha um arsenal interminável e genial de cornetas ao rival. Sempre respeitosas, mas quase nunca brandas. Pegava pesado mesmo. E aí, colorados que conseguiram sobreviver a essas e tantas outras cornetas — e até admirar, hoje não suportam sequer que eu CITE o fato de o Inter estar na Série B.
Sou fã do Sant’Ana. E mesmo sem ter o conhecido pessoalmente, creio que ele faz parte do meu dia a dia. Eu, na condição de reles mortal, um ninguém que dá lá suas opiniõezinhas na internet, tenho esse monstro como Norte, como bússola em momentos de confusão. Quando esbarro em cardumes de haters odiosos por algo que fiz ou falei, lembro que Pablo já fizera coisas semelhantes ou até piores, ainda que com mais talento. E aí percebo que não estou tão errado assim. E aí desisto de desistir. E aí sigo firme: torcendo pelo meu Tricolor, zoando o rival, por vezes brincando, por outras falando sério, mas sempre tentando dizer o que sinto. Sem desrespeitar a ninguém, sem ser injusto com ninguém, mas também sem pedir licença pra entrar de bota embarrada em algumas salas branquinhas e cheirosas. Azar, alguns vão se incomodar. Opinião é assim mesmo. Mas provavelmente um dos meus super-heróis favoritos faria o mesmo.
