UM NOVO GRÊMIO

Foto: Rodrigo Fatturi/Grêmio

Uma época eu pegava muito ônibus em Porto Alegre. E confesso uma coisa estúpida que fazia, ou melhor, não fazia: ao me aproximar do ponto e ver que meu ônibus estava chegando, dificilmente eu corria pra pegá-lo a tempo. Fiz isso uma vez ou outra, apenas quando minhas possibilidades de conseguir alcançá-lo eram muito boas. Nas demais, meu “medo” era justamente esse: fracassar. Não chegava a ser medo, mas, sei lá. Ia me sentir ridículo correndo feito um idiota pra chegar lá e não pegar o bendito coletivo.

É patético, eu sei. É até errado. Eu devia ter corrido sempre. Algumas vezes não corri, resignado, e vi um ônibus que demorou muito mais que o previsto pra chegar no ponto e/ou partir dele: engarrafamento, fila demorada no embarque, etc. Se eu tivesse apertado o passo teria conseguido. Mas desisti antes de tentar. Não queria pressão. Fingia que não era meu ônibus. Andava calmamente enquanto o maldito T3 se mandava sem mim.

Ok, o ônibus passou e eu sofri calado. Mas o que isso tem a ver com o Grêmio? Nós, gremistas, também não gostamos de pressão. Rejeitamos favoritismos como talvez nenhuma outra torcida rejeite. Gostamos de ser o azarão, o patinho feio. Adoramos quando a mídia do centro do país esquece do Grêmio nas listas dos mais cotados. Isso tem um pouco a ver com o espírito aguerrido idolatrado pela torcida, que valoriza mais o empenho que a técnica. Vibra mais num belo carrinho do que num passe de letra. Mas também tem muito a ver com a pressão do favoritismo. O “medo” de fracassar quando todos esperam que vamos conseguir.

Ah, e tem a ver com a década de 90 também. Aquela geração multicampeã do Felipão reforçou o inconsciente coletivo de patinho feio. Era, de fato, um time montado com vários refugos: Jardel terceiro reserva no Vasco, Paulo Nunes reserva no Flamengo, etc. Mas o time, na verdade, era muito bom. Os dois citados já falam por si só. Dinho, o símbolo da virilidade, era raçudo e truculento mesmo, mas esbanjava técnica: chute potente e preciso, passes com extrema qualidade, desarmes. Arce cruzando, Danrlei fechando o gol… Enfim, o time todo, vocês sabem. Porém, apesar de qualificado, fixou-se o estigma de Refugos + Esforçados. E caímos no erro, muitas vezes, de tentar montar times com jogadores low profile, na expectativa de achar um novo Paulo Nunes. Também caímos algumas vezes no erro de achar que vontade e raça bastavam: são atributos fundamentais, mas efetivos apenas se aliados à qualidade. Uma coisa precisa da outra.

Dado esse cenário, quando alguém diz que temos o melhor futebol do país quase nos ofendemos. Quando essas declarações vêm somadas a um eventual favoritismo do Grêmio, ao Luan sendo considerado o melhor jogador do Brasil, ao Geromel festejado no centro do país, entre outras reverências ao Tricolor; aí quase entramos em pânico. “Tá tudo errado! Parem com isso! Nosso futebol convincente era pra ser um segredo só nosso. A gente queria calar a boca de todos vocês”. A gente gosta de correr atrás do ônibus quando estamos a 9 quarteirões de distância do ponto e ninguém acredita que vamos chegar a tempo. A gente odeia estar confortavelmente no ponto quando o ônibus chega. Cria-se uma certeza de que vamos pegá-lo. Mas ele pode estar lotado. As pessoas podem embarcar na nossa frente e o motorista pode resolver fechar a porta ao perceber que lotou. Sei lá, somos tão azarados que o ônibus pode estar até indo pra garagem. “Tem coisas que só acontecem com a gente”.

Talvez seja hora de o Grêmio, do gremista, mudar esse mindset. Sigamos valorizando a raça, a força, a vontade. Mas não precisamos rejeitar “o melhor futebol do país”. Não é garantia de ganhar nada, mas podemos curtir esse momento. Não é pecado jogar bem, jogar bonito. Sobretudo quando se tem efetividade e vontade ao mesmo tempo. Não precisamos também achar que só ganhamos na força e que só os brucutus ganham nossos corações: o toque de bola envolvente, hoje, é a cara do Grêmio. E o Luanzinho, doce, magrinho e de sorriso tímido, é o maior expoente do nosso time. Talvez seja hora de derrubar clichês. “Com o Grêmio tudo é difícil, sempre”. Ano passado não foi. Matamos a Copa do Brasil fora de casa. Administramos o resultado na Arena, sem maiores percalços. Novos tempos.

Três ônibus vão passar por aqui. Temos chances de pegar os três. Estamos bem perto do ponto. Eles vão chegar a qualquer momento. Há quem diga que estamos bem posicionados. Não vamos ter vergonha disso, não vamos rejeitar ou negar essa condição. Não vamos caminhar em direção ao ponto pra tirar a pressão dos ombros, fingindo que não é com a gente. É COM A GENTE SIM, queremos esses ônibus! Vamos correr pra pegá-los! Somos favoritos SIM!

Claro, a linha que divide a confiança da arrogância pode ser tênue. Não ganhamos nada. Temos grandes adversários em todas as competições. E tem muita água pra rolar até o fim do ano. Nessas horas também é bom lembrar dos últimos 15 anos de seca. Lembrar que esse ano mesmo caímos pro Novo Hamburgo no Gauchão. Lembrar até que, ano passado, na 8ª rodada do Brasileirão o rebaixado Internacional tinha os mesmos 19 pontos que nós. Vamos com calma. Não somos o Real Madrid. O pé jamais pode descolar do chão. Mas não dá pra fingir que esse Grêmio é só mais um Grêmio que tá jogando por aí. É diferente. Tá jogando bem dentro e fora de casa. Tem elenco consistente. Não vamos negar isso.

Favoritos SIM! É isso mesmo que você ouviu! Tenham medo! Façam cera empatando em casa com a gente, porque a gente é sinistro bagarai! Temam! Tremam! Abram alas, o Grêmio vai passar! E se o ônibus também passar, até a pé nós iremos. Nossa barca tá pesada mesmo! Não olha pro lado, quem tá passando é o bonde. Pra dentro deles! Vamô!

Saudações azuis, pretas e brancas,

Lucas von Silveira.

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