VEM PRO MURO

Pra você que defende os Direitos Humanos. Ou quer matar a bandidagem.

Eu consigo entender os argumentos daqueles que defendem os Direitos Humanos. E também consigo entender os argumentos dos “bandido bom é bandido morto”. Por um lado, me identifico com vários ideais de esquerda. Talvez uns 80%. Não gosto de rótulos: “tu é de esquerda”? Não sei. Simpatizo bastante. Mas não compro tudo que esse “bloco homogêneo” de pessoas defende. Por outro lado, já perdi um ente querido muito próximo por causa da violência. Meu tio, irmão mais novo do meu pai, 36 anos. Tiro na testa, passando de carro em frente a um assalto a banco no INTERIOR do RS. Vi minha vó enterrando seu filho mais novo. Tio Leonardo estaria comemorando seu 44º aniversário hoje, inclusive. Parabéns, tio Leo!

Entendo e vejo lógica nas duas linhas opostas de raciocínio. Mas também identifico “furos” em ambas. Talvez um híbrido seja o caminho. Pensem comigo:

// O MUNDO PERFEITO, muito próximo a alguns países reais, funcionaria mais ou menos assim, na minha opinião:

- Um Estado que oferece tudo que um cidadão precisa. Saúde, segurança, educação, oportunidades, empregos, informação, cultura… Tudo. O cara nasce e tem totais condições de seguir um caminho legal e viver uma vida honesta e decente;
- Mesmo assim, num cenário ideal, algumas pessoas cometeriam crimes. Esparsos, isolados. Mas vez que outra aconteceria;
- Os criminosos seriam pegos pela polícia. Sempre. Primeiro porque são poucos, segundo porque a segurança seria impecável: profissionais preparados, com equipamentos de ponta e em quantidade adequada;
- Ao capturar os PokeManos Vida Loka, o objetivo do Estado seria o de REABILITÁ-LOS. Na cadeia, ou até mesmo soltos em casos mais brandos, os criminosos passariam por acompanhamentos psicológicos, capacitações profissionais (trabalho na cadeia para o caso dos detidos) e todo um trabalho para devolvê-los à sociedade melhores do que entraram;
- Se o sujeito for reincidente, as penas ficam mais duras. Mais tempo de prisão, menor chance de regime aberto, talvez outro enfoque no programa de reabilitação. Mas, sinceramente, o cara nascendo no cenário supracitado e ainda recebendo mais benesses pós detenção, só não entra nos eixos se tiver algum parafuso a menos.

// O BRASIL REAL funciona mais ou menos assim:

- Um Estado que não oferece as mínimas condições que um cidadão precisa para ter uma vida digna. Aliás, sequer garante o direito a vida: falta segurança, educação, saúde, oportunidades, empregos… Palavras como “informação” e “cultura” chegam a soar como supérfluos diante desse cenário caótico;
- A criminalidade nunca é o ÚNICO caminho. Muito brasileiro (sobre)vive em condições desumanas e se mantém honesto e reto. Mas a genética dos brasileiros não é pior que a dos suecos: o fato é que para muitos aqui, esse é um dos POUCOS caminhos que sobram. O meio faz o homem. Nossa sociedade é uma fábrica de marginais. O Estado exclui, trata como lixo, ignora, dá as costas para grande parcela da população. Fatalmente alguns se viram do pior jeito;
- Nem sempre esses criminosos são pegos pela polícia. É muito criminoso pra pouco policial. É muito criminoso com armamento de primeira, carros velozes e organização profissional para poucos policiais de carro antigo, “garrucha velha” e preparo discutível;
- Muitos criminosos ficam soltos por incompetência do Estado: seja por não conseguir capturá-los, seja por falta de presídio. E os que são pegos acabam jogados em cadeias superlotadas, como se fossem animais. Na verdade, em condições muito piores que a realidade de muitos animais. Condições mais do que precárias. Zero foco em reabilitação. Pelo contrário: saem de lá piores. É a faculdade do crime. O rapaz que roubou leite pra dar aos filhos é apresentado ao mundo do crime, sente raiva do tratamento que recebeu na cadeia e sai de lá com ideias e contatos para delitos bem piores. Até porque, se não tinha muitas oportunidades antes da prisão, para um ex-presidiário menos portas vão se abrir;
- Se o sujeito for reincidente, na teoria a lei fica mais pesada pro lado dele. Mas na prática ele segue com boas chances de sequer ser pego e, se for, não durar muito tempo na cadeia. Não há espaço, não há estrutura. A sensação de impunidade segue o motivando a fazer bobagem.

DIREITOS HUMANOS x TEM QUE MATAR TUDO

Pra mim, os discursos da esquerda sobre esse tema são bons. Só que são construídos para um mundo perfeito. Ou, menos que isso, para um país bem menos problemático que o Brasil. Aqui, seguir rigorosamente a cartilha dos Direitos Humanos pode ser uma medida torta. Ou melhor, uma medida certa num cenário torto: o resultado fica torto. Já os discursos mais conservadores são bons no que diz respeito a estancar sangrias. Mas também ignoram contextos, cenários. São imediatistas, por vezes até injustos, e não resolvem nada. Amenizam um pouco, é verdade. Mas não vão na raíz do problema e ainda geram outros.

Ou seja: eu concordo MUITO com todo o discurso da galera dos Direitos Humanos. E, antagonicamente a isso, confesso ficar 0% chateado ao ver que a polícia matou bandidos em algum tiroteio ou operação específica. Confesso que lá no fundo me brota aquele pensamento do “menos um”. Fica um sentimento de “legítima defesa antecipada”. Ou seja, mataram antes que ele matasse algum inocente pouco tempo depois. Sei que é cruel. Sei que chega a ser injusto em vários casos e âmbitos. Todo mundo é “reabilitável”. E o Estado que mata é o mesmo que faz de tudo pra colocar esse marginal na posição de marginal. Esse bandido é sim uma vítima. Sei de tudo isso. Mas nesse cenário torto em que alguém fatalmente vai acabar morrendo, por mais cruel que seja, prefiro que seja ceifada a vida daquele sujeito que bem ou mal “escolheu” o caminho errado. Ainda que tenha sido uma escolha condicionada e induzida por mil fatores, ainda sim ele tinha o livre arbítrio.

O mundo perfeito é muito mais próximo dos ideais da esquerda, na minha opinião. Respeita 100% a cartilha dos Direitos Humanos, e isso é o ideal. Mas estamos em guerra. E nosso Estado é incompetente em todos os momentos do ciclo de vida de um bandido: não evita que se torne, não reabilita e até o condiciona a piorar. Alguma crueldade vai acabar rolando, e isso está fora do nosso controle. Que seja com os humanos que são bandidos. É medida de emergência, provisória. É guerra. A solução mesmo vem da EDUCAÇÃO, de um país mais pleno, menos corrupto, com mais oportunidades. Mas até lá, torço pela polícia. Que caiam pra cima da bandidagem e vençam essa guerra. Ou pelo menos algumas batalhas. Com truculência mesmo, não dá pra pedir licença. Até porque os criminosos não têm pena de ninguém: ter pena deles é entrar em desvantagem nessa guerra.

Eu defendo muitas medidas polêmicas que a esquerda costuma defender também: cotas para negros, bolsa família, etc. Papos longos. Mas, resumindo, vejo tudo isso como medidas provisórias. Medidas tortas que visam atenuar um cenário ainda mais torto. Mas que, no mundo perfeito, não fariam sentido. É o mesmo que penso pra medidas mais “tolerância zero” no caso da segurança pública. Sei de todas as questões filosóficas, morais e práticas que tornam esse pensamento linha dura um tanto ruim e torto. Mas, na boa. É guerra. É necessário. É pra fazer possíveis-bandidos pensarem duas vezes antes de entrarem nesse sub-mundo.

LUCAS, VOCÊ ESTÁ EM CIMA DO MURO?

Não sei. Até acho que não: dei minha opinião, ainda que com rodeios. Mas se ter que decidir UM LADO, engessado e categórico, é a única forma de não ficar em cima do muro, então estou. E às vezes é muito bom ficar em cima desse muro. A gente tem uma visão privilegiada daqui.

Não é covardia, não é ser “chapa branca”. Pode ser simplesmente entender com maior profundidade a complexidade de alguns temas. Não sentir a necessidade de escolher um dos DOIS lados de uma discussão. Saber que quase tudo nessa vida tem MILHARES de lados, nuances e fatores. A polarização de opiniões, quando o tema é complexo, geralmente torna o debate, no melhor dos cenários, simplista e raso.

E no fundo, todo mundo quer o melhor pro país. Não há motivos para as pessoas ficarem trocando xingamentos, vomitando ódio e despejando energia carregada umas para as outras. E só porque pensam diferente: como se o tema fosse muito simplório pra todo mundo ter que pensar igual. E justo você: com educação, esclarecimento e situação privilegiadíssima nesse país, maldizendo outras pessoas só porque discordam da sua "solução perfeita". Imagina o que faria com elas em condições-limite.

Às vezes é bom se despir de opiniões prontas. Dar dois passos pra trás pra rever conceitos. Dar um "zoom out" pra ver melhor, considerar novos elementos. Vem pro muro! Pelo menos por um tempo. Pra pensar melhor. Sem odiar ninguém. É até mais seguro aqui em cima.

Lucas von Silveira.