a idolatria expressa no governismo*

edit 2.0*

dos recortes da atualidade no qual nós, enquanto seres presentes e pensantes, temos de lidar com mais atenção — inclusive no tão especial caso político brasileiro; não, porém, sem esquecer outros locais ao redor do globo, como as eleições dos eua, por exemplo -, é a falta de percepção, a falta de uma dialética mais profunda no debate sobre os problemas à imagem do ídolo, sobretudo quando colocada no governismo como forma de redenção direcionada a um discurso uniforme: que ele funciona através de vetores certos e apenas por eles para almejar a salvação de um determinado grupo; a expressão coletivista construída da negação do não-pertencimento, pois não há possibilidade senão inserindo o próprio governo como ele se configura no momento, nas situações dispostas no agora: o não-ser da alternativa distante daquilo que vemos na realidade de uma opção palpável… o governo não é apenas a salvação, mas ‘a única’ salvação, neste tipo de pensamento.
 já, por esta síntese apresentada acima, tento colocar o que enxergo pela expressão ‘governismo’: os métodos de perpetuação estática para uma maneira de se pensar a configuração do estado, uma visão no qual o objeto torna-se não apenas ‘ferramenta de’ — e por isso o devir, a mudança conforme a realidade transforma-se diante da percepção -, mas ‘ideia de’ — o próprio estado é ente, ele necessita de uma pessoalização de maneira a validar sua noção imutável, incluindo em si uma psicologia no qual toda e qualquer mudança, inclusive como ferramenta, passa pelo desmoronamento de sua imagem pré-concebida na formulação do conceito no ente: não há, pois, dessa forma, uma desconstrução e possivelmente inovação à própria função enquanto se imaginaria o estado conforme ferramenta motora aos indivíduos e seu aperfeiçoamento no manejo social, principalmente no desenvolver da sociedade pelo movimento da história… há, sim, a visão enraizada do estado enquanto entidade absoluta — e por isso para quem nega-o nesta concepção, na percepção do governista, aflora como um inimigo da vida no todo; resulta daí como a imagem da morte de um indivíduo, colocado também como morte de uma ideia; questionar o estado, por este motivo, torna-se essencialmente colocá-lo como um familiar governista contra a parede. homem morto, homicídio ideal. por isso, também, defendê-lo trata-se de evitar um possível assassinato no imaginário. não apenas externo, mas também de si: o estado fortalece a imagem refletida daqueles que o defendem, uma projeção colocada em ideais semelhantes (pois ‘se ele pensa como eu, ele é igual a mim’); a visão idealizada de si mesmo na humanização do objeto — o ‘eu’ perfeito que é também a perfeição governista, disposta na crença em si mesmo, claro, mas também naquilo que crê além-de-si no que se reflete neste processo: o narciso demonstrado ao afirmar na construção ideológica um imaginário perfeito na reflexão.

no entanto, para explicar melhor a construção através dos atos, considero importante a discussão aprofundada, mais fácil para o debate através de tópicos; sendo assim, segue.

1 — à imagem e semelhança; do problema inicial:

enquanto imagem, vislumbramos no primeiro recurso do governismo a segurança que é, inclusive, uma reprodução sempre estática e efusiva na mesma proporção. note que toda forma de governo baseada na massificação de discurso sob a veia do significado atribuído em si como ‘ente popular’ (na humanização da condição do aparelho estatal; que, como dito, não se trata de ferramenta, devir, mas de uma figura, o objeto pessoalizado; o estado enquanto raiz e rastro de um significado humano) — e, aqui, indiferente à esquerda ou direita, importante em processos, projetos absolutos na formulação de algo — como método de se relacionar com seus apoiadores é, antes de mais nada, um discurso ao anti-devir; a) efusivo porque depende da inflamação dos seus indivíduos internamente, o propósito de defesa baseado principalmente na ideia de estruturação nos alicerces, no qual cada um dispõe de sua potência como um mecanismo possível a contribuir com isso na formação da imagem do ‘ente popular’ no coletivo; diferentes tijolos emanam a edificação possível da figura maior: que a ideia do governismo necessita de cada qual como uma formiga trabalhadora para desenvolver um formigueiro; que este formigueiro em si, ideal, só é material se enfrentado diante do ‘todo’, o ‘eu coletivo’ na forma de equiparação intelectual: todos pensam igual e, por isso, imaginam o mesmo fim-em-si à figura do estado b) estático porque imediatamente que reutiliza a potência através dos seus indivíduos para afirmar a próprio finalidade, também se contradiz para fugir de uma necessidade de entender o devir social na individualização de propósitos, de forma que necessita do pensamento unificado no coletivo: o governismo é hermético, a sua força é essencialmente na ideia de manter a si e, portanto, uma lógica no qual toda potência tem função como recurso de proteção, que o ‘ente popular’, ou seja, o próprio governo, é uma noção que precise constantemente e unicamente de defesa — daí que seus recursos humanos não progridem senão retroalimentados; não há ocupação senão dos mesmos motivos. as necessidades de desenvolvimento dos indivíduos são, dessa forma, interpretadas através de como eles podem apenas pelo governismo funcionar como sua máquina, uma soma de engrenagens funcionando em uma mecanismo maior: a metáfora das formigas, novamente válida, erguendo de dentro para fora o seu formigueiro… sem contato com o mundo exterior e tampouco dispostas a entendê-lo; o que importa é, apenas, a solidificação do objeto interior e coletivo; a própria estrutura do formigueiro torna-se o único vislumbre de possibilidade.
para que isso possa ser percebido na definição de um significado conjunto, que os indivíduos estejam dispostos a se enxergar positivamente como formigas ou engrenagens, é necessário que se estabeleça um símbolo capaz de sintetizar este processo: o ídolo — sempre atrelado ao líder e seu apoio em estruturas imagéticas (bandeiras, hinos etc.); daí a necessidade de uma imagem comum. note que, como dito, o governismo é essencialmente a pessoalização do estado, que ele entende a si como um ‘ente popular’ e, por isso, precisa ser correlacionado à imagem de alguém ou um grupo hermético do mesmo modo: o ídolo da massa, o líder enquanto entidade espiritual. este, por sua vez, tem função de reflexo duplicado: ele transporta a ideia ao homem, de maneira que todo o significado por trás da perpetuação estática é, em si, alguém, um indivíduo visível, mas também transporta às suas formigas e toda sua potência a necessidade de que o governismo seja visível também como elas: uma imagem semelhante. o líder, no primeiro momento, embora líder, não assume este discurso, pois precisa transparecer a equalização do todo, que mesmo enquanto comandante ele é apenas um entre tantos no mesmo coletivo.

deste modo, o ídolo não é só um objeto estático em si nos seus significados interiores para o projeto de formigueiro coletivista, embora necessite disso na perpetuação de sua existência; o principal feito deste processo é, necessariamente, que ele seja estático aos outros, para que estes olhem na imagem do ídolo a ideia proposta em seu significado além-figura: todo ídolo é a transmutação do ser-em-si para um ser-em-todo ou ser-em-outro, correlacionando na sua existência a necessidade também de existência do outro — e, então, uma comutação magnética que necessita de sua raiz, a sua construção relacionada em duas figuras distintas formatadas sobre uma mesma resposta. daí a comunidade, o formigueiro: enxergar a dupla função transportando uma particularidade, o indivíduo, numa universalidade imaginária: o próprio todo; não existe individuação no governismo justamente pela necessidade de anular a diferença, a morte da experiência dialética na oposição proposto numa retórica de unidade no qual e, através apenas dela, a existência é condicionada ao coletivo; eis aí sua imagem e semelhança ao líder, o poder… afetar este processo é, por sua vez, afetar a todos que se enxergam como tal. não se discute nunca com/contra o indivíduo, mas apenas com ‘o coletivo’, haja vista que qualquer distinção entre um e outro não é possível senão no rompimento do próprio conceito: o afastamento direto do governismo aquele que se enxerga como formiga de tal — o líder é, nisto, a junção de ambos: o ideal e o indivíduo, todos em sintonia num propósito no qual o ‘ente popular’ firma-se além de sua necessidade de ferramenta mas, justamente, como uma entidade acima de tudo.

2 — do ídolo para a prática; convertendo o ideal de potência em potência de um ideal:

note que, a princípio, a efusão emana de uma conciliação necessária da potência, a conversão das forças do indivíduo ao todo no seu projeto interior, utilizar os recursos humanos numa ideia de perpetuação dos propósitos coletivistas: o todo é o ‘eu’. porém, não apenas como ideia, é importante que o ideal de potência, ou seja, a força através da unificação na imagem no ídolo em comum, na retórica expressa no significado por trás de sua necessidade de existência, seja também possível na potência de um ideal, uma perpetuação ativa destes mesmos objetos simbólicos — conceitos, bandeiras, hinos, partidos etc. — que situem a imagem do líder, que afirmem reconectados em diferentes signos o próprio significado ideológico — pela utilização das forças que sejam necessárias para isso: são todos caminhos que se cruzam com o intuito de solidificar o rastro na tradição codificada da imagem do próprio conceito ao ídolo comum, pois ele não surge senão pela ficção de sua história, montada e costurada em diversos elementos que o transformam como uma identidade necessária às formigas no todo: trajetos que se cruzam e que simbolizam o mesmo passado. novamente, o líder enquanto um ‘igual’ na coletivização do formigueiro.
por isso, como formigas, na conversão de ideia em ato, o governismo utiliza a força de seus indivíduos como um coletivo de ações tautológicas em criação interior própria; pois ele não está disposto a penetrar uma energia de maneira que se explore numa dialética propositalmente questionadora (ou, ‘por que somos o que somos enquanto sociedade?’; ‘por que trabalhamos tanto pelo formigueiro?’), mas apenas uma visão no qual devemos nos manter o que já somos, justamente como perpetuação de imagem e de suas mesmas fórmulas já em execução na consolidação dos símbolos tradicionais através da afirmação do seu rastro (ou, ‘sempre fomos assim, então continuaremos sendo’).
note que a ascensão individualista (na semântica mais simples que seria ‘do indivíduo’) é anulada, pois a metáfora da formiga é, mais uma vez, pertinente: no governismo todos permanecerão exatamente como já são, apagando conceitualmente qualquer propósito de devir social, crescimento individual, uma projeção no qual as formigas deixarão de serem formigas, pois ele necessita do coletivo sob a tutela de uma união permanente na utilização de sua potência de maneira sempre igual, onde todos já são aquilo que podem ser ad eternum: sua imagem é hermética no seu significado e, por isso, seus líderes se perpetuarão enquanto líderes (os ídolos constituídos pela necessidade imagética), enquanto as formigas, infelizmente, também como formigas (os peões criados a vida toda pela defesa do coletivo com o próprio sangue).

2b & 1b — o afastamento do ídolo humano; a imortalidade do herói:

porém, para isso, é necessário um distanciamento natural dos conceitos quando se segue no próximo passo; se num primeiro momento o reflexo do ídolo é essencialmente à imagem do todo, na sua perpetuação eterna como tal é necessário que ele se distancie deste mesmo todo. não na sua imagética e seus significados mais primários, pois ele ainda ascende em sua mortalidade como um igual de raiz, haja vista que ela continuará como função mais potente na tradução significativa do ‘ente popular’, mas justamente como símbolo de mutação impossível, quase numa mitologia épica de semi-deuses: ele não mais será visto apenas como humano, mas também como supra-humano; daí sua identidade além do moral à sociedade, também, justamente porque e, como necessidade de perpetuação da imagem pessoalizada do governismo enquanto ‘ente popular’, através do conceito de supra-humanidade no seu ídolo — o símbolo máximo em imagem do discurso — supõe-se a ideia de que o próprio governismo também o é assim: ele não se torna apenas uma ferramenta de execução, ou seja, o estado e seus agentes mais claros ao agir na consolidação de mecanismos sociais e na projeção de construções na relação benéfica da sociedade em si, mas uma idolatria no conceito puro de sua noção; o governismo transforma-se na igreja de si mesmo, disposto a compreender-se além do bem e do mal como uma entidade exclusiva, que ele não é apenas uma ordem social, mas uma ordem divina, um ser maior que os próprios indivíduos que o compõem.

entretanto, há, no afastamento do humano e sua originalização divinal, também uma re-conexão (ou religião? a semântica na palavra do re-ligamento é um caminho forte de compreensão do processo) com sua humanidade: as formigas não enxergam o problema justamente porque não vislumbram o ídolo na sua condição supra-humana, embora o defendam como tal, é no seu contato humano que ele recebe a catarse de sua afirmação: por ele ser tão ‘igual ao todo’ que ele torna-se ‘tão diferente’, haja vista que e, como líder, não haveria sentido ele continuar como parte ‘do mesmo’ ainda que assim o permaneça, pois não mais o é pela construção de seu rastro simbólico divinal. neste conflito, a definição do significado transportada se justifica: o ser e não-ser no mesmo indivíduo constituem um objeto supra-humano per se; pois ele é e não-é na mesma proporção.
a religião governista nega daí o divino, pois a idolatria é no humano, ao mesmo tempo que age de dentro para fora do mesmo modo que qualquer igreja tradicional; não há diferenças ativas nos líderes religiosos habituais ao líder religioso governista, apenas diferenças em ideia, pois como propósito a perpetuação se mantém igual em seu significado: devemos interpretá-los em sua forma sagrada, inquestionável, pois é ele o contato mais próximo à imagem do supra-humano possível do grupo no tempo. ele, inclusive, assume a forma do tempo, de maneira que considera a presença de sua existência também uma justificação além do bem e do mal, que e, por ser o líder enquanto símbolo do todo no rastro, a história em si, sua existência se torna apenas um método de explicar a experiência do coletivo: se ele existe (um ente sagrado), ali, naquele momento, há porque se justificar também o que ele defende enquanto significado, ou seja, o próprio governismo — o ‘ente popular’.

3 — a religião além da verdade; o governismo acima de sua moralidade:

segue-se no projeto de imortalização dos elementos, então; após assumir o elo entre governismo e sua função enquanto religiosidade, é natural que seja dado o próximo vínculo: dentro do conceito de instituição e não apenas na sua ficção dos signos criados, toda religião — sobretudo as que centralizam seu propósito na identidade de um ou poucos líderes espirituais — há a essencialidade de um conjunto moral no qual o próprio grupo se justifique (a ideia primordial da luta entre o bem/certo x mal/errado nas religiões monoteístas, inclusive). a moralidade não tem valor por sua execução em si — ou seja, não é apenas o valor de seguir as regras que importa ao grupo -, longe disso, mas como ferramenta de exclusão ao ‘outro’ que ela se fortalece enquanto unidade. é, através deste processo, que o grupo estabelece um conjunto de determinações no qual sela enfim a última chave ao seu hermetismo na criação coletiva sobre um significado compartilhado; pois, ao considerar um certo número de regras, ele transgride uma necessidade de correlação dialética com a diferença, o conceito do ‘outro’ e os seus motivos ao ser justamente ‘outro’, assumindo que seus próprios valores são justificados tautologicamente como caminho de afirmação na sua legalidade sobre a existência suprimindo o resto que não mais faz parte do ‘eu’ na qualidade de ferramenta coletiva: o ‘ente popular’ necessita estar ali apenas entre e para ele, porque sua condução através da moral criada pelo mesmo transporta o contato do indivíduo no grupo ao discurso supra-humano de que ele já constitui em si toda explicação necessária em uma existência metafisicamente divina: ele apenas é e não-é na mesma proporção… e não se pode questionar nada além de tal feito, de forma que qualquer interpretação além da atribuída ao ídolo e seus signos é, então, negada. por isso, se o símbolo governista através de seus personagens é essencial e inquestionável além de qualquer moral, ele também tem a liberdade de justificar e julgar a moral a quem o questiona; inclusive quebrando o seu próprio conjunto de códigos ao afirmar que o questionamento seja uma intransigência à sua divindade significativa: ele conduz o discurso através dessa sua certeza de supra-humanidade, colocando a perpetuação de seus atos como a verdade em si e, portanto, a única em questão.

neste processo, surgem dois principais problemas: a) que ‘o outro’ não é apenas um diferente, mas também um indivíduo ou grupo que não pertence à proteção moralizadora do supra-humano e, por isso, o seu cerne dialético/questionador é também uma afronta à imagem do ídolo, da divindade protetora que certifica a existência ao ‘ente popular’, a verdade coletiva, na medida que o próprio ‘outro’ torna-se em si também um questionador do conjunto — pois a imagem do indivíduo disposta no formigueiro não mais se mostra individualizada, mas sim como um todo: questionar o governismo passa a ser, pelo ‘outro’, um questionamento a todas suas formigas em todos aspectos; b) a verdade é destituída de significado interpretativo, haja vista que não pode ser definida senão como afirmação à simbologia do ídolo na sua existência: a sua moralidade passa, por sua vez, a ser necessariamente como uma ‘legitimação justificada da verdade’, sob a ideia de que o ‘ente popular’ sempre fala a verdade per se, afinal, enquanto criatura divina, inquestionável também: como ele se reproduz supra-humanamente num ideal, portanto a moral que a justificativa associa no rastro simbólico de sua criação, justamente por ser ‘além do humana’, também é a verdade em si, tornando-se inquestionável porque não depende de uma contextualização individual, um propósito onde cada qual fala como tal e desenvolve uma dialética metafísica sobre interpretação e subjetividade no ser e no seu propósito, mas sempre no todo: a verdade (e o ente) é inquestionável porque, se no conjunto das formigas o pensamento torna-se conjunto, portanto, por unanimidade, ele também é verdadeiro; assim como há necessidade de alinhamento nas ferramentas para reprodução dos atos — o formigueiro que existe pelo trabalho coletivo e direcionado na potência de cada um com o mesmo objetivo — é, também, na sua moralidade alinhada que ele se reconhece como um: o formigueiro interpreta e obtém os mesmos significados aos seus porquês, sobretudo naquilo que enxerga como ‘verdade’ na existência de argumentos morais.

1c & 1c — o tempo, a imagem e o ídolo; nunca no presente, sempre no passado e no futuro*:

*este item é quase uma repetição de um ensaio anterior no qual comento a disposição temporal do indivíduo medíocre nos seus atos; talvez por ser em si um ato medíocre, o governismo obtém um resultado extremamente parecido — senão igual — naquilo que coloca como resolução na questão temporal à sua resposta: estranha, mas talvez nem tanto, coincidência do acaso.

o tempo é uma importante ferramenta na solidificação dos signos que formam a simbologia governista, na necessidade de perpetuar sua existência no que imagina-se como ‘ente popular’ além do momento que coloca-se no presente; é no tempo que o argumento idólatra estará montado de maneira mais volátil, inclusive na formulação de uma afirmação ao seu significado cíclico em ser e não-ser da mesma proporção: o ídolo na imagem do líder (e seus os objetos simbólicos, o partido, as bandeiras, hinos etc.) é uma constante mutável na sua construção ao longo do que se enxerga como tal… porém, nunca como presente — e daí a liberdade de agir em contradição à própria moral — que é constituída no presente negado a si mesmo; note que o tempo não é apenas ‘não-visto’ essencialmente como presente, pelo contrário, é mister a redução como tal, para que o deslocamento evidencie às formigas uma retórica de continuar existindo na passagem eterna através de uma negação à realidade do agora: a) pois no passado o ídolo já confirmou uma história fixada como verdade solidificada e justificada até o momento para sua existência como tal e b) no futuro ele continuará confirmando uma história fixada como verdade possível justificada no que se pode através da antecipação imaginativa — pois o futuro ainda não aconteceu, claro, mas valida os atos feitos no momento como motivo de que a sua linearidade só pode ser construída se presumida como tal; as ‘quebras’, contradições morais, por fim, tem sua permissão de acontecer na ficção do futuro: pois ele precisa existir como o conto do presente o afirma e, por isso, abre margem aos atos além da própria moral. é nisso, então, que no presente, a mutabilidade dos atos age de acordo com o fatum daquilo que seja necessário a continuar perpetuando sua verdade deslocada do momento — ora relembrando à glória passada, ora significando o futuro imaginativo -, numa realidade da negação ao que de fato acontece na existência da realidade como agora: a moral, por sua vez, é ferramenta… e por isso não se aplica ao ato presente na perpetuação da ficção coletiva no governismo, haja vista que interfere na antecipação ao que se crê do futuro idealizado — que, como dito anteriormente, serve apenas como argumento exclusor ao ‘outro’: a moral é sempre justificada no ‘outro’ como forma de diferenciá-lo; o ‘outro’ que deve ser recultivado, reeducado, rever; pois a formiga diletante do governismo age de acordo com o formigueiro, no idealismo da distância ao relembrar a potência passada do que o coletivismo fez ou a potência futura do que o coletivismo ainda fará, para que tudo possa agir no presente justificando qualquer contradição que o próprio presente mostre ao projeto.

é, inclusive, através desse meio, que forma-se a ideia de que não há discurso que seja contraditório ao governismo, pois o contraditório em si inexiste nesta noção. o deslocamento do tempo cumpre a ferramenta de eliminar qualquer erro: na necessidade de perpetuar sua existência, todo o argumento disposto no presente é uma construção da ideia do ídolo num caminho onde o passado e futuro são justificados em si pelos seus atos possíveis no agora, de modo que o próprio presente se torna também apenas uma ferramenta e, por isso, possível ao que se enxerga naquilo enquanto necessário para afirmação da realidade já definida no deslocamento — que o ídolo foi e isso é insofismável como validação do significado na sua certeza em existir no presente -, mas também a realidade do que ele será adiante — naquilo que o ídolo precisa diante da imagem refletida: o amanhã é antecipado como forma de justificar seus motivos no agora; sejam quais forem estes motivos, ainda que destituíam qualquer relação com a moral e a própria imagem estabelecida anteriormente, no poder do deslocamento, ele cria sua justificativa ao validar a contradição como essência imutável de um novo signo: a luta que se forma no presente numa tentativa de moldar o futuro fictício da imagem idealizada no ídolo.

3b — da moralidade e do tempo ao ‘outro’; finalmente, uma motivação:

eis, até agora, uma motivação entre imagem, ideia, objeto e seus métodos: tempo, moral, formação; porém, estes mecanismos apenas refletem necessidades interiores: o formigueiro ainda está recluso em si. do presente item adiante, o caminho governista segue, também, o fluxo para fora de sua casa idealizada, moldando seu propósito entre uma motivação além da proteção ao próprio conceito. na verdade, aqui, a proteção torna-se mais efetiva, justamente porque possibilita o governismo farejar na sua anti-moralidade o que exterioriza de si: o ‘outro’ como objeto a se contestar, não apenas imagem e retórica, mas tudo aquilo que desmorona qualquer relação à divindade do líder e seu ‘ente popular’ encrustado à todas formigas, pois ele coloca no exterior a eterna guerra no qual todos os que contestam são essencialmente inimigos da verdade.

na ‘consolidação carnal’, por assim dizer, de um ‘outro’ como indivíduo real, uma pessoa, objeto físico, o governismo pode finalmente ampliar seu formigueiro de formigas construtoras, criando também um séquito de formigas guerreiras. já apontamos antecipadamente que a moral e o tempo reproduzem ao governismo um arquétipo religioso, pois a distância do ídolo à realidade do presente e a supra-humanização de seus atos consolidam-no como uma figura também supra-humana: tudo pode aquele que é superior ao homem e, portanto, tudo pode aqueles que o defendem. através disso, na ‘consolidação carnal’, finalmente, há o que se combater de fato: o ‘outro’ não é mais apenas um reflexo imaginativo do não-ser, mas, sim, um inimigo real, possível e físico. o ‘outro’ é uma necessidade também na própria defesa governista: sob a constante ideia do ataque, da supressão de seus motivos, o líder valida suas propostas no medo — que existe um infinito número de atuações no qual ‘o outro’ tenta deslocar o protagonismo do governismo, de modo que o formigueiro antes ideal, agora real, também é justificação à existência do ‘ente popular’: ele só poderá perpetuar sua existência naqueles que afirmam sua existência… ou seja, as formigas que defendem a verdade consolidada no coletivo. todos que discordam são, antes de tudo, destruidores de um projeto, de um sonho utópico.
é necessário apontar estes motivos porque: a) o medo provoca reação; acreditando na derrubada do formigueiro, que o coletivismo das formigas trabalhadoras está em cheque e pode romper através da realidade a então idealização do objeto — no caso, o formigueiro em si -, as formigas guerreiras unem suas forças na supressão do ‘outro’, de modo que a ficção do constante ataque coloca forma a também ideia de uma constante defesa: o governismo é a eterna vítima, sabe-se lá exatamente do que — pois mesmo enquanto líder político, enquanto guia na sociedade e todos os agentes de atuação do estado; mesmo que, de fato, os símbolos disponíveis sejam majoritariamente governistas — continua apresentando-se unificadamente na postura defensiva; há ‘o outro’ como figura de um inimigo ideal e mais forte, uma motivação à toda perpetuação de qualquer ato justificado para defender o próprio formigueiro e o coletivismo que ele demonstra… daí, também, a anti-moralidade governista: pois tudo é possível enquanto atacado, inclusive o questionamento à própria moralidade na ideia de ‘legítima defesa’ porque b) é o ‘outro’ que se torna um agente castrador, é nele que insurge a ideia questionalizadora em si — seja qual for ela -; o ‘outro’ garante que a unidade proposta no coletivismo governista, a verdade do todo, por fim, não seja ‘todo’ e sim parcial, haja vista que o ‘outro’ essencialmente rompe com a universalização de um projeto coletivo. notadamente, romper esta barreira universalizadora e apresentar a verdade não como unidade, mas sim como particularização de ideias, uma função ao indivíduo e não propriamente ao conjunto, questiona a ideia mais básica do governismo em si. o ‘outro’, então, tornando-se inimigo não apenas de um elemento, um inimigo intelectual e inofensivo, torna-se também inimigo aos ídolos, aos discursos, aos objetos e, por fim, como tal, um inimigo completo… por isso, distante do propósito, a verdade e o tempo cumprem função em afetar também a moralidade: em momentos de ‘guerra’, na necessidade de supressão ao ‘outro’, as formigas guerreiras tem liberdade de agir como devem para perpetuar a existência do formigueiro ideal no seu futuro fantástico. daí porque o governismo transfere sua culpa ao ‘outro’ — pois é ele quem ataca, indiscutivelmente, muito embora talvez nem esteja disposto ao confronto físico tenha poder significativo para isso, a mais remota existência do ‘outro’, mesmo que apenas em questionamento, em ideia, não como ‘consolidação carnal’, ainda assim, já propicia o desmanche da verdade unificada: o formigueiro não é mais feito de apenas uma motivação, mas, também, de uma figura que está disposta a questionar o formigueiro — e este é o fim de tudo o que está embasado no coletivo, como ídolos, símbolos e a própria ideia que mantém unida as formigas.

4 — porque romper com o coletivismo; a mentira governista:

diante da apresentação dos itens anteriores, surge sintetizada uma dúvida: por que romper com o governismo? ou de maneira mais elaborada: por que romper com o coletivismo proposto no formigueiro idólatra governista? eu já havia comentado brevemente o problema na centralização do governo de maneira a tê-lo por completo como uma entidade particular em outros ensaios, porém, sinto necessidade de elaborar ainda mais a ideia, haja vista que o governismo permite o acesso à novas questões; no entanto, é importante recapitular o propósito: a primeira vista, o problema do governo é, em si, tratado na distinção entre particular e universal; note que a relação é tempestuosa em seu conceito mais primordial, pois o governo, enquanto unidade, permite a união de diferentes particulares de forma a tê-los em sua alçada através de suas distinções sob a óptica em que todos, universalmente, podem continuar coexistindo enquanto particulares — daí a necessidade de que indivíduos sejam, então, indivíduos… na valorização da própria particularidade aceita em si, aceitamos que um conjunto organizado através de suas ferramentas nos forneça esta igualdade de direito. o governo é um produto no qual a ideia se mostra essencialmente contraditória: pois embora esperemos que ele garanta as condições à particularização do todo, também, entendemos que ele fala pelo todo — ou seja, a própria ideia do universal. ele é, por isso, um ente no qual, em si, particulariza a universalização: pois existe enquanto unidade, afinal, se apresenta e se distingue como uno (o governo), ao mesmo tempo que não pode sê-lo, pois sob a pena de reverberar igualmente enquanto seus particulares que o validam e de certa forma o legitimam, os indivíduos, tem de ser acima dos mesmos com a finalidade de garantir que estes particulares sejam, então, particularizados sem que a ferramenta que os maneje seja da mesma forma que eles. por isso que o governo se mostra incógnita: ele, enquanto objeto, deve agir como tal — ou seja, particularizando fenômenos, não podendo universalizar atos diferentes ao julgamento do todo, do mesmo modo que deve universalizar seus julgamentos para poder garantir que a particularização dos fenômenos se justifique em um lastro de igualdade — pois o todo é receptivo enquanto igual, se agir igual para todos; sendo isso, há a evidência mais clara da contradição: pois ele apresenta aquilo no qual nada poderia se demonstrar da mesma maneira: ser e não-ser ambos, particular e universal. disso, esperamos, enquanto indivíduos, que possamos ser indivíduos… e que o governo, também indivíduo ideal, julgue universalmente o seu moral para que seus atos sejam a nós, enfim, particularizações concluídas distintamente, mas na mesma moralidade universal. por isso concluo que, sadiamente, um estado funcional é em si uma construção impossível: pois esperamos que ele aja com todos cidadãos igualmente, da mesma forma que não esperamos sentir os efeitos dessa ação, embora nos reconheçamos como parte da ideia proposta na universalização de ‘cidadão’ (de igual modo ao todo), o propósito do bom estado é, afinal, que se construa esta relação mágica no qual nos sintamos especial, um indivíduo e, através disso, um particular não composto do todo — acima do todo — imaginando-o como parte igual à todos.

nessa difícil tarefa, um dos aspectos mais negativos, senão inverso, é o governismo; como dito logo no início do ensaio, o governismo tem como função primordial inverter o problema do estado: ele cria um ente, o ‘ente popular’, invertendo a ordem no qual as definições mostram-se importantes. por isso o governismo particulariza o estado quase como um indivíduo — e daí a defesa dos atributos no qual ele considera indispensáveis para sua identificação, como o ídolo, a moral, a ideia de verdade e o deslocamento temporal — do mesmo modo que pretende universalizar esta compreensão: todos nós temos o dever de afirmar o mesmo, ou seja, que o ‘ente popular’ é a conceptualização do todo: o formigueiro só se justifica se a crença for majoritária e unitária.

note como isso torna-se problemático, sobretudo na visão do indivíduo. ao particularizar o estado, o ‘ente popular’ anula inclusive todas as conquistas ao social e seus indivíduos; passa a ser ‘o estado’, em sua particularização enquanto entidade governista, o motor ao qual devemos lealdade sob a pena de sermos ingratos com ele. é o próprio formigueiro que toma para si o discurso da vitória, de maneira que todas as beneficies associadas às condições formadas em indivíduos, sejam elas quais forem, ganham integralmente a tutela de ‘fruto do formigueiro’ que, por sua vez, justifica-se tautologicamente enquanto fomento disso; neste motivo garantem-se todas as respostas às distorções morais e temporais, a ideia do ídolo no governo transforma, como mostrado, uma razão insofismável à derrubada do ‘outro’: pois a afronta a figura do governo, o formigueiro, enquanto ‘ente popular’, torna-se também a afronta em tudo o que supostamente universalizou-se dessa particularização da imagem do estado; o ‘outro’, por sua vez, não ataca apenas o ídolo e a construção imagética disposta nos símbolos no qual o afirmam, tampouco atos contestáveis deste mesmo ídolo, pois tudo passa a ser demonstrado de forma que o ataque a entidade é, em si, um ataque ao que supostamente indivíduos fizeram para constituir essa imagem.
há, aqui, um problema visível não apenas no conceito, mas também na justificativa; como discutido anteriormente, na idolatria governista, no qual não há mudança ou evolução e troca hierárquica no devir — líderes serão líderes e peões serão peões -, isso deve-se também em função à particularização do ‘ente popular’ enquanto figura coletiva: pois, absorvendo para si as realizações dos indivíduos, por sua vez, o ‘ente popular’ também absorve o seu mérito na sociedade; os indivíduos não são mais parte importante no roteiro à vitória e, desassociados, entes sujeitos ao ente primordial, também apresentam um eterno dever, uma eterna dívida aquele que se apresenta enquanto conquista — o formigueiro torna-se o indivíduo; nisso, os indivíduos, formigas, são subtraídos de maneira a importar apenas enquanto figuras menores no próprio conceito (‘o formigueiro’), aqui também como particular, pois toda conquista é, em si, não uma representação da vitória à individualidade, mas sim do todo, o próprio universal.

a inversão da narrativa é também a morte: sem indivíduos há apenas um indivíduo, o próprio coletivo. tudo se justifica na afirmação deste coletivo; daí a a moralidade da anti-moralidade, toda a distorção enquanto relações necessárias a manter o próprio governismo, haja vista que, como questionador — o ‘outro’ — só pode se apresentar diante de indivíduos que, então, não mais tem valor distante da retórica coletiva: não há vidas, apenas vida, o formigueiro suprime suas formigas, ao menos aquelas que não enxergam o sono utópico de unidade.

5 — adorno quase acertou; depois de auschwitz, todo governo é, sobretudo, hitlerista:

eis uma verdade negada: não há distância à semântica se ela não se confirmar em ato, pois a avaliação do governo é possível apenas enquanto avaliação do que se faz e se constrói através dele; daí a grande mentira no discurso, mais visível na prática: esquerda e direita, enquanto governistas, são frutos do mesmo universo; note que ambas distanciam-se na semântica, na busca de significados para isso, porém, no final, transportam suas ações igualmente ao governo — ainda mais em seus aparatos de repressão à ideias opostas. aqui, um destaque à esquerda, justamente por apegar-se aos seus significantes mais ideológicos e supostamente anti-opressores, ‘contra o fascismo’, ‘contra a ditadura’, ‘contra a elite’, entre outros, não apenas mente como também reverte seu significado: alegar-se ‘anti-fascista’ não constrói um governo anti-fascista em si, de modo que são os atos no qual deveríamos justificar a saber a resposta no caso de ser ou não-ser o que o significante afirma. desse modo, pouco importa quem diz o que sobre quem, ora afirmando-se ‘pró-liberdade’, ora ‘anti-ditadura’, ora ‘anti-fascista’, ora ‘repressor’, ora ‘pró-família’, no fim, todos são mais iguais do que imaginam; é bem verdade que todo governo atual tem o seu fundo governista, uns mais que outros, numa tentativa de perpetuação eterna de si mesmo, embalado nas formigas, tanto trabalhadoras quanto guerreiras, que defendem seus propósitos mais escusos com base na idolatria às imagens dispostas na afirmação deste mesmo governo. por isso, todo governista é também um hitlerista.

nada mais sintomático ao debate que sinalizar o grande arauto do governismo, aquele que sintetiza todas as causas e modos na ideia da propaganda partidária justamente com o intuito de propagar a si mesmo e ao ‘ente popular’ enquanto uma unidade não apenas necessária, mas que também justifica qualquer ato diante da própria moral de perpetuação; hitler foi o mais enfático governista, pois reuniu todas as relações de maneira mais explícita, traduziu em atos um show, o seu palco como o mundo para vangloriar-se do grande formigueiro criado: o terceiro reich; por trás de toda a ideia racista e anti-semita, escondia-se um trabalho árduo de rotulação e formulação da ideia de superioridade — que suas formigas eram, enfim, o todo, o formigueiro e, portanto, melhores que os outros, porque o ‘outro’ simplesmente não merecia existir — e quem merece longe do formigueiro utópico, afinal? o nazismo não foi apenas um golpe de direita ou esquerda, seja lá como quiserem colocá-lo na eterna briga de definições monocromáticas e sem significado, mas a aula base do governismo: toda disputa por espaço baseou-se na perpetuação, daí ‘o reich de mil anos’, numa ideia no qual seria em si defensável tornar um governo que falasse pela voz do todo, o ‘ente popular’ na sua forma mais pura, um governo no qual indivíduos poderiam matar ou morrer com o intuito de transformar um conceito em pura atribuição de atos: não se morria pelo ‘partido nazista’, mas pelos ídolos, às causas, na disposição de que o discurso do próprio partido acabava por fim na defesa de uma entidade superior, que era o governo, o sonho de uma alemanha unida.
compare situações e perceba como os casos governistas mais recentes de brasil (eleito) e eua (eleição), muito embora coloquem-se antagônicos na crendice de si — ora trump, ora pt/pmdb/psdb ou quem estiver governando — o propósito é basicamente o mesmo: a perpetuação de ídolos (figuras políticas) atrelados à imagem da retórica no discurso de ‘grandeza nacional’, colocado numa ideia de constante dissociação temporal do presente — ‘fazer o país voltar a ser grande’… nunca ‘é’ — a medida em que o governism enraíza-se no propósito social, pois o país não ‘volta a ser grande’ por constituição organizada de seus indivíduos dispostos em compreender sua participação social mas, sim, em escolher as imagens certas, nos ídolos certos que, por sua vez, com o formigueiro aparelhado, possam por fim constituir na ideia do ‘ente popular’ um significado às suas formigas já cegas do trabalho moralizador.

em outras palavras, poderíamos dizer que a mensagem interpretada é a mesma; sem o rebusque da beleza quase religiosa, o governismo detém em si uma única frase: perpetuar o poder.

6 — poder de sempre; eis um bom motivo para ser governo, ainda mais ídolo no governo:

partilhando da ideia de que precisa ser eterno, nunca presente, por ora passado e constantemente futuro, na verdade dissimulada em uma anti-moral relativa à consolidação dos mecanismos que possam reafirmar — sempre — os símbolos idealizados por trás do governismo, mora um propósito bem igual em todos os casos: organizar uma potência unificada no coletivo, na partilha de um pensamento no qual apenas o ‘ente popular’ tenha propósito e que toda força despejada pelos indivíduos em, de alguma forma, solidificar uma utopia. por sua vez, apenas uma coisa mostra real significado: se e, como dito, as castas se mantém no sonho da mentira, assim como líderes sempre serão líderes e peões sempre serão peões, eis aí um motivo no qual a mensagem governista tenha em si um caráter unilateral, sempre partindo do líder aos seus diletantes seguidores; pois é o próprio líder, também ídolo, que transfere a imagem de necessário sacrifício às formigas em defesa do formigueiro. para ele, claro, o poder não apenas tem função no discurso, onde quer que seja, haja vista que e, ao manter-se como tal, ídolo, também o mantém como líder.

de todos os benefícios infindáveis disso, nada é mais explícito que o próprio poder; numa máquina de perpetuação tautológica, o poder gera poder que, por isso, um constante interesse em continuar agindo sob qualquer tipo de afirmação no qual o mesmo indivíduo — agora não como líder, mas sim como usuário — garante na sua imagem, tal qual um viciado, o propósito no qual mais e mais formigas o defenderão para que o mesmo possa utilizar-se eternamente do seu vício.
o poder, como figura abstrata, nada mais é do que uma coisa sem significado; um termo sem valor. porém, associado ao indivíduo, conectado com o espírito em uma relação no qual pouco se explica e muito se sente, o poder coroa monstros — daí porque qualquer perpetuação de líder, muito além do governismo, já se mostra como algo nocivo em seu conceito. na destituição da destruição criativa, ou seja, na ideia no qual instituições poderosas, traduzidas em indivíduos poderosos, mereçam organicamente manter-se assim ad eternum — sobretudo no caso político, no qual não há efetivamente a constituição de nada senão a organização obrigatória da máquina pública -, vislumbramos o maior vício no legado da aceitação cíclica: que os deméritos das formigas, trabalhadoras, merecem metafisicamente a constituição no qual são colocadas, de tal maneira que e, novamente, como uma religião, o discurso garanta que a vida é feita não mais que sofrimento e dor — como toda moral cristã -, para alguns, claro, presos ao eterno fim onde não possam escapar da tortura senão por uma ascensão mágica e impossível, baseada na superação de si (que ‘certas pessoas merecem’ e outras não; o sofrimento é justificado no merecimento mágico de ‘estar lá’ como formiga).

o mito por trás da solidificação das mesmas figuras, ídolos, líderes, não é nada mais do que a própria ideia de mortalidade interna: a formiga abdica de qualquer contato que não seja a ideia de morrer constantemente, ora pelo trabalho incessante e cruel ao gerar riqueza que não para si, ora pela vida de culpa por nunca ser mais do que o mesmo, ora pela perpetuação de algo que ela não-é (o formigueiro enquanto unidade e entidade); por isso, a formiga, ao escolher ídolos, líderes, não apenas retém uma péssima definição dos mecanismos de vida pública, ou o próprio aparato estatal, mas, também, destrói o próprio conceito de vida, destrói a si mesma assinando um acordo velado no qual ela nunca foi e nunca será o que tanto defende: alguém como o líder almejado. daí em diante, toda vida não mais será alguma coisa senão um emaranhado de funções como máquina, a engrenagem orgânica daquilo que o líder espera que ela realmente seja, um pobre e mortal elemento que defenda sem escrúpulos o propósito do ‘ente popular’ e, claro, com isso, o poder colocado no líder.
a morte da formiga, a morte moral, ironicamente e, por ser exercida no coletivo, reflete também coletivamente: sujeitar-se ao governismo não mata apenas o indivíduo que se sujeita, mas todos os que o cercam e tem de alguma forma conviver com os reflexos do formigueiro: o governismo mata, sim, de uma forma silenciosa, toda a comunidade que ele jura ser soberana. o silêncio do indivíduo é sobretudo um silêncio de mudança, pois não questionar, não destruir todo e qualquer aspecto idólatra constitui uma certeza medíocre no qual a perpetuação do presente negado pelo governismo é, por fim, um presente acertado: problemas são ignorados ou deleitados como mecanismo de discurso, de modo que o indivíduo, novamente, sem poder questionar, apenas aceita sua dívida — que o governismo deu e dá o máximo para perpetuar a mediocridade disfarçando-a de não-mediocridade, mas na ascensão vindoura de uma sociedade coletiva e utópica, claro, nunca existente no agora, sempre num futuro inalcançável do amanhã louvável.

morrer, biologicamente, morreremos enfim… mas tenhamos a coragem de reconhecer a dignidade da diferença: eis a premissa do indivíduo, porque somos todos particulares e, por fim, almejamos nossas particularidades. ignorar o indivíduo ao indivíduo é antecipar sua morte, seu pensamento, suas ideias, seus potenciais criativos — e que necessariamente precisam para existir no devir, da destruição e reconstrução de mecanismos, não a aceitação calada das coisas; idolatria ao governo torna as formigas humanas apenas isso: formigas, menos do que podem ser como humanas, mais do que já são bestializadas, eterna massa a construir algo que já nasceu morto — um formigueiro de irrelevância.
sejam, por fim, menos apegados ao coletivo, o ‘outro’ não é sobretudo uma imagem de igualdade e nunca deveria corresponder as mesmas expectativas do ‘eu’; é mais importante que ele seja em si a diferença — e não a partir disso um inimigo nem pessoal nem do coletivo — de modo que, com participação singular de cada qual estejamos preparados para a construção do próprio devir social: ele é e não-é, uma unidade disposta a derrubar a si mesmo constantemente, recriar seus motivos, anseios, propósitos — mas nunca parar de crescer; a única potência é a vontade de potência e, portanto, conforme humanos livres, devemos pensar como tal: não há muros nem formigueiros impedindo o crescimento, devemos apenas a nós mesmos, o singular, o indivíduo, de maneira que cada qual na sua potência possa, afinal, construir um futuro mais animador. menos igual, menos óbvio, mais caótico — mas em constante contato com o próprio universo, cíclico, singular e eterna renovação de si mesmo. somos, por fim, não mais que micro-universos e deveríamos agir como tal: sem líderes ou idolatria, toda formiga constrói seu próprio universo-formigueiro. toda formiga é um universo a ser descoberto… ou ao menos deveria: menos formiga e mais humano.

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Originally published at lucassemlista.wordpress.com on March 28, 2016.

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