O Brasil no canto da sala: nossa pré-escola nacional*
edit 3.0*
detectei sintomas insofismáveis de que nosso país, Brasil, está em sintonia numa identidade coletiva no qual todos nós somos partes indissociáveis de um projeto simbólico, tristemente — ou talvez não, quem sabe… há quem queira — opera tal qual a personificação de um moleque zombeteiro malcriado no jardim de infância; constituímos e, por ele, diante de nós, reflexo da imagem, alguma coisa no qual, no fundo d’alma, somos também figuras repletas de orgulho por isso: os indivíduos remontam à construção coletiva daquilo que os viabiliza distante e diante dos mesmos, ainda que neguem isso — todos gostamos de ser esta criança sem-noção que unifica a imagem do país em uma só; vejam:
1) cuspir na cara tornou-se o mais alto ponto de comunicação, numa inversão freudiana da fase oral, trata-se de, ao invés de colocar na boca… tirar: jogar no outro uma objetificação daquilo que imaginamos através do verbo sem, claro, tê-lo ali: cuspir é a resposta mais palpável do que se quer dizer no que não se diz — como tal, o moleque tenta falar muito mas ainda não sabe como, é apenas uma criança cheia de orgulho e de vontade… faltam palavras, por isso, torna a si a maneira mais fácil de fazer em outro gesto: escarrando nos outros numa tentativa desesperada de se fazer ouvir;
2) brigar por cores de camisa é, da mesma forma, um diálogo profundo sem verbo: pois a identidade necessária para isso é justamente o pertencimento pelo conjunto — a cor escolhida — no qual o moleque zombeteiro do imaginário coletivo coloca-se em igual a todos que são como ele, ou nas cores semelhantes, sem precisar explicar o porquê de seus sentimentos tão complexos… eis uma tentativa de amizade e demarcação na sua constituição mais básica: brigando e amando pelos motivos mais idiotas;
3) berrar descontroladamente é, daí, a primeira maneira de verbalização, o primeiro passo lógico depois de 1) e 2): notamos que nosso moleque berra muito e, de tanto que o faz não se ouve, pois sabe que o grito tem esta função dupla na sua gênese — mesmo que não afirmando diretamente: inicialmente propõe qualquer ideia na hiperbolização sonora ao subtrair o resto; depois, então, potencializa a afirmação justamente ao subtrair o outro que, então relegado ao silêncio, é confundido com a inexistência — assim ele desarma aqueles que não são iguais a ele (seus inimigos; o território já está demarcado), fingindo que eles não estão lá; por isso o moleque imaginário necessita tanto seguir desse jeito, pois o berro é a primeira expressão sonora possível que o diferencia de um animal ainda mais incompreensível e brutal… um método extremamente animalesco para efetivamente fingir que não o é — os outros que são;
4) a idolatria insana em toda e qualquer figura afirmativa de consciência moral, afinal, o moleque ainda não superou a barreira do herói absoluto e, através dele, necessita espelhar seu caráter em um igual: basta daí, enquanto ídolo, ser apenas isso e nada mais, pois a ficção do herói impossível ajuda a colorir junto com camisetas e gritos toda uma identidade do acerto concreto em um objeto unificado de vislumbre moral: uma trilha retilínea e estranha de certezas no qual este mesmo moleque justifica a si muito maior do que é — espelhando-se no seu ídolo para construir afirmativamente seu caráter refletido em um ser ideal;
5) embala tudo isso na capa da retórica ao tentar ‘não ser o que é’ — porque todos indivíduos sociais pensam, em algum momento da vida, num propósito ao agir enquanto ‘ente diferente’, não ser como a manada, de modo que os outros são os estranhos, descontrolados, desafinados — está aí o último passo dado pelo moleque, tornando-se cada vez mais semelhante aos coleguinhas do jardim de infância justamente ao tentar não sê-lo; faz parte da formação do caráter infantil negar que se está na infância e, portanto, não há nada mais natural que agir como se a ideia separasse de si mesma - numa autonomia do próprio corpo que a pertence: o moleque zoeiro tenta não se imaginar como o moleque zoeiro, mas um adultinho cheio de certezas.
felizmente olhamos para o lado e notamos que talvez nossa sala de aula esteja vazia: não há nada simbolicamente tão próximo à nossa criança que não apenas nós mesmos — somos brasileiros, por fim, únicos… já os outros — a identidade nacional alheia — não são, não tratam e não reverberam do mesmo modo; sobrando, assim, o Brasil solitário como este moleque imaginário gritão, birrento, cuspidor, por fim, um Brasil nosso e apenas nosso, sozinho e de castigo num local vazio no qual ninguém além de nós mesmos está disposto a acompanhar: o mundo — a nossa sala — cagou; sobrou ao moleque — a nossa alma identitária — uma triste alegria de ser e não soar sua loucura descontrolada para ninguém: somos os últimos, os aprontões, mas orgulhamo-nos disso — como criança impossível, sim, rimos na cara da inocência e sentamos no fundão do planeta. vamos jogar bolinha de papel em todo resto e achar graça dessa atitude eternamente.