Análise: A Fortaleza Escondida

Como encarar e analisar aquilo que é considerado um clássico? Algo que muitos considerariam intocável? Algo tão importante culturalmente e tão influente? E como fazer uma análise levando tudo isso em conta… E ao mesmo tempo deixando claro que você não gostou tanto do filme como o resto do mundo parece ter gostado? Não que eu não tenha gostado, mas deixa eu tentar me explicar.
“A fortaleza escondida” é uma das obras primas de Akira Kurosawa, e ao lado de “7 samurais”. O filme tem entre seus maiores admiradores George Lucas, criador de “Star Wars”, que diz ter usado muito do que aprendeu com Kurosawa na hora de criar a sua própria obra prima. E tendo visto “A fortaleza escondida” é impossível não reconhecer os pedaços que Lucas pegou para criar sua história. Os dois camponeses parecem ocupar quase o mesmo papel na trama que R2D2 e C3PO na ópera espacial de Lucas.
A história segue três personagens: dois camponeses Tahei e Matashichi que fugiram da guerra e também o general Rokurota Makabe. Tahei e Matashichi estão simplesmente querendo voltar pra casa após a guerra, enquanto Makabe está tentando fugir com a princesa Yuki para poder reconstruir o clã Akizuki. Os caminhos dos personagens se cruzam quando os dois camponeses encontram uma peça de ouro que pertence ao clã Akizuki.
Não podemos falar de “A Fortaleza Escondida” sem mencionar Toshiro Mifune. O ator sempre foi muito elogiado toda vez que falam dos filmes de Kurosawa, e isso é evidente aqui. Mifune tem uma presença impactante em qualquer cena que ele está. Você não duvida que ele seja um general, puramente pela sua postura e presença. Honestamente se o filme fosse somente focado nele eu talvez gostasse mais ainda. Mas infelizmente não é o caso.
O início do filme e boa parte dele são focados em Tahei e Matashichi, mas eles não são personagens interessantes de seguir. São camponeses gananciosos e medrosos, sem nada para contrabalancear isso. Isso não é culpa dos atores, Minoru Chiaki e Kamatari Fujiwara. Ambos atuam bem dentro dos limites de seus papéis, mas os personagens não são interessantes de acompanhar nessa jornada. Mas a atuação que me incomodou do filme vai para Misa Uehara, a princesa Yuki. A atriz parece robótica na hora de falar e até na maneira como ela age em cena. Isso se torna especialmente notável quando ela tem que ter momentos emocionais e ela não consegue mostrar as profundidade que a personagem precisa. Não sei se foi uma escolha do Kurosawa, mas pra mim não funcionou.
A produção é espetacular. O número de extras em algumas dessas cenas é incrível e o cuidado com sets e locais onde a história se passa é algo é tão raro em filmes atuais. A escolha de fazer o filme em preto e branco acaba dando um ar estranhamente atemporal. O filme não parece antigo ou gasto, o que é impressionante para uma produção de 1958! Mesmo que seja fácil perceber alguns cortes muito secos em certas cenas, a narrativa te prende em sua atmosfera e faz com que você queira continuar a ver onde isso vai acabar.
A fortaleza escondida é um espetacular filme de Akira Kurosawa. Toshiro Mifune é espetacular como ator. Poucos filmes atuais conseguem chegar perto em termos de sets e produção. Mas infelizmente os personagens dos camponeses não são interessantes de seguir e a atriz que interpreta a princesa não tem uma atuação muito convincente. Talvez se eu não conhecesse todo seu impacto e o quão importante ele foi para a criação de um dos meus filmes favoritos, talvez eu gostasse mais. Mas como eu vi “A fortaleza escondida” com toda essa informação, a obra perdeu um pouco do seu impacto. Vejo o talento e técnica de Kurosawa em criar essa narrativa e eu admiro muito o que foi feito aqui, mas pessoalmente não consegui ficar tão investido no filme.