A Ponte para o Futuro de Temer destruiu parte da nossa memória. Que “futuro” é esse?

Luca Vilela
Sep 4, 2018 · 2 min read

O projeto político-econômico neoliberal é a doutrina do plástico, dos hidrocarbonetos, daquilo que é combustível. Por plástico entende-se aquilo cuja essência é a moldabilidade, isto é, a mudança de forma física. Nesse sentido, tudo que é estático representa uma potencial ameaça ao neoliberalismo, devendo ser eliminado. A ideia de estaticidade é insuportável, pois ela sugere que algo que não seja a própria ideologia neoliberal possa se universalizar e fixar. Nessa lógica autoritária é que reside a real agressividade das chamas que destruiram o Museu Nacional. A história e a cultura devem desaparecer porque são conjuntos de signos que constitutem uma memória coletiva. Mesmo que esses signos estejam se (re)formulando nos diferentes espaços e tempos, a memória está sempre presente enquanto corpo construtor de uma co-pertença. Por isso, ela precisa ser aniquilada, dando lugar à falsa universalidade neoliberal. Não há outra alternativa senão o neoliberalismo. Políticas de austeridade são a única solução. Para garantir o triunfo dessa ideologia, subjetividades devem ser conquistadas e símbolos do passado descartados. A lembrança é um "fator de risco" e não pode, em hipótese alguma, ser estimulada, pois isso colocaria o futuro do sistema em jogo. Portanto, quando Crivella, em seu comentário cínico, fala em "lembrança da família imperial", ele revela toda a sua aversão vazia às diversas outras representações culturais e étnicas que se encontravam no museu. Como pode haver algo que seja Brasil e que não seja ligado à história clássica e conservadora? Como podem ter existido artefatos que mostravam a possibilidade de um mundo diferente? Crivella acredita que o museu pode ser reconstruído pelo simples fato de que, em sua cabeça, ele nunca existiu. Naquele espaço, não havia nada "universal". Por mais irônico que isso seja, é também simbólico e representativo. O golpe não acabou. Ele é um processo agressivo, antipolítco e suicída que uniu o neoliberalismo a uma espécie de fascismo social. Juntos, esses modelos querem eliminar toda e qualquer possibilidade de diálogo, para prolongar o presente construindo uma "ponte para o futuro". Que futuro é esse?

    Luca Vilela
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