Que matéria habita a luz?

A vida é esse complexo emaranhado de fios e cordas, sendo puxados de um lado e sofrendo cortes de outro. A morte é uma luz forte demais, ofuscante e leitosa, com cheiro de cloro de piscina. E luz tem cheiro?

Escuta o que eu digo, Madalena. Olha em meus olhos e escuta o que eu digo. Escuta o que eu digo até que teus ouvidos sangrem para que então nasça da falta do medo, a verdade. Roma continuará lá, independente dos teus fios. A densa e úmida floresta que envolve teu presente, transforma tudo que é és em coisa nenhuma. E então eu, que já andei por meio de lagos tão antigos quando o tecido do próprio tempo me torno chão.

Já morto, eu vago por camadas de uma pele encardida e arrasto correntes feitas de ar. Sou Abraão, o último homem. Carrego comigo uma garrafa vazia e algumas certezas que nunca usarei. Estou dentro do escuro da noite e sou ainda a rainha dos errantes. Enquanto vejo cair do céu o gigante de metal, sinto cair de mim o peso de ser quem não pude ter sido.

Aqueles que habitam o passado nunca entenderão a nossa magia. Somos feitos de poeira e dor. Matéria tão orgânica quanto a morte em si. De que cor é o sangue que nunca escorre? A muito a ser dito mas não existe a possibilidade. A palavra existe, mas por sua vez, se torna elástica e emana um calor fraco e tímido, capaz apenas de esfriar o aço.

Recuso-me a abrir o dicionário. Esticarei o tempo e trançarei quantas cordas forem necessárias, até que haja fogo pra preencher a garrafa. Para que então, possamos voltar a dormir.