Tempestade

E eu chorei. Meus olhos rasgados, a verter uma água doce e opaca e com forte cheiro de cloro. Minhas mãos, espalmadas em oposição e seus dedos cumpridos e pele grossa, agora molhados, florescem. Meu coração bombeia um sangue ralo e escuro, meus pulmões já exaustos pela própria existência. É o cigarro, ele disse, nunca seremos o mesmo por causa dos cigarros.

E eu chorei. Com o corpo exposto e as feridas infectadas: Pus e sangue. Dor e desejo. A pele dele, quente e úmida, me trazia conforto. Os olhos dele, baixos e fugidios, fechavam minha garganta. E a cada abraço, o frio descia pela minha espinha. Será esse o último? Será esse o teu jeito medroso de me dizer adeus? Forço a garganta e engulo a seco, tua saliva e a memória dos teus lábios.

E eu continuo a chorar. Eu, que abri mão de te ver, para que eu fosse visto. Eu, que escolhi me perder, para então me achar em teu caminho. Eu, que fui criado numa tempestade, que senti a eletricidade correndo em minhas veias entupidas. Eu, que me ajoelhei na areia do tempo, encarei a foice de pescoço limpo. Eu, que permaneci de pé, apesar dos pés sangrando. Eu, eu, eu. Eu sinto frio. E estou apavorado.

E nunca me senti tão feliz.