Acho que deve ser assim
Acordou com o Sol esquentando seu rosto.
Estava deitado em um gramado verde claro, cercado por algumas árvores espaçadas.
Eram de todos os tamanhos, mas suas copas tinham o mesmo formato arredondado. As flores tinham a altura dos seus ombros e alguns cogumelos batiam no seu joelho.
Os prédios desafiavam a geometria com suas fachadas inclinadas, mas era estranhamente bonito vê-los tão perto das duas montanhas que compunham o fundo da paisagem.
Acima delas, o vôo despreocupado de uma gaivota ou outra.
O céu era azul, salpicado por algumas nuvens pouco originais e ele podia jurar que o Sol usava óculos escuros e sorria.
Reconheceu o lugar onde estava, embora ainda não soubesse como foi parar ali. Andou alguns centímetros e encontrou o que sabia ser a sua casa: quadrada, com uma porta vermelha, duas janelas idênticas e um telhado triangular comprido. Seu pai, sua mãe e suas duas irmãs o esperavam em frente a ela de mãos dadas, um ao lado do outro, todos tão parecidos entre si e, ao mesmo tempo, tão diferentes do que ele se lembrava.
Sua irmã mais nova, ainda criança, lhe esticava as mãos para, enfim, completar o que parecia estar faltando.
Assim que encostaram os dedos, ele sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo e desapareceu dali, sem tempo para se despedir.
Só percebeu que estava cochilando há tanto tempo pela cutucada mais agressiva do garçom:
– Acorda, irmão. Não pode dormir aí no balcão.
Se ajeitou no banco, assustado, sem entender porque estava ali, embora a música, as cadeiras e até o garçom lhe fossem familiares. Foi ao banheiro lavar o rosto e, olhando no espelho, refletiu como a vida é boa e se deu conta da potência de momentos minúsculos como esses, em que a gente se olha no espelho de um boteco e se sente surpreendentemente feliz. Sua breve epifania foi interrompida por uma voz lá fora, chamando seu nome. Uma voz que ele também conhecia. Abriu a porta e deu de cara com seu melhor amigo, um pouco mais jovem e carinhoso que de costume:
– Vamo lá fora, mano, tá todo mundo te esperando pra tirar foto!
Enquanto caminhava pelo bar, se perguntou todo mundo quem? e olhou para o celular, e aí viu que era nove e quarenta e três da manhã, mas lá fora estava escuro, então nada daquilo fazia sentido, porra. Chegando na calçada, não sabe-se se pelos anéis dos copos na mesa, se pelos baldes vazios, se pelas lembranças engarrafadas, se pelo frio que sentia, se pelo barulho de conversas desencontradas, ou, apenas, se pela aglomeração de pessoas queridas o esperando para algo tão corriqueiro, entendeu: aquela cidade pertencia a eles e, por isso, jamais amanheceria; viveriam para sempre ali, naquela madrugada que inventaram. Se espremeram para sair na foto e, depois de uma frase e outra, dessas que as pessoas falam para fazer graça antes do clique, ele não soube para qual câmera olhar. Não importava mais: quando os flashes acenderam, todo o resto se apagou.
O alarme do celular continuava emitindo o toque de sirene abafado pelo edredom. Mesmo assim, ele despertou. Deu a última espreguiçada e encarou o teto do quarto por alguns minutos. Passou os olhos pelas prateleiras, pelo controle, pelo ventilador, pelas roupas no chão; de repente, tudo ali lhe pareceu tão fascinante, e aquela contemplação tão valiosa… Quis desenhar aquela cena. Quis tirar uma foto daquela cena. E quis chorar também. Até ser interrompido pelo som da porta da sala batendo. Pelo barulho da chave na mesa. Pelo som dos sacos de papelão da padaria. Pelo barulho que era qualquer ausência dela. Pelo som da voz dela rompendo as paredes:
– Amor?
Não teve tempo de responder.
– Comprei café, vem comer.
Calçou o chinelo que estava do lado da cama e, por fazê-lo, concluiu: no vigésimo sétimo andar daquele prédio de tijolinhos, o amor venceu. As relações humanas poderosas, afinal, se forjam, também, pela vista grossa dos defeitos igualmente graves e inofensivos, como: molhar a bisnaguinha no leite, ver filme dublado e… usar chinelo com meia. Foi até a sala e se empanturrou de histórias cotidianas; intimidades açucaradas pela cumplicidade que é morar em alguém. Moravam um no outro e, talvez por isso, enxergavam o apartamento como o verdadeiro mundo real, reduzindo a cidade às antenas parabólicas que viam pela janela. Deu um beijo nela e experimentou uma eletricidade diferente invadir seu corpo: ficou tudo preto, sentiu um aperto no peito e ele já não estava mais ali.
A terceira descarga do desfibrilador o acordou, mas não abriu seus olhos. E ele lembrava de tudo agora: do cruzamento, do sinal amarelo, da freada, do caminhão, da porrada, da ambulância. Tudo doía, mas ele esboçou um sorriso, embora seu corpo não o respondesse mais.
Gostava de imaginar que, ali, naquela avenida onde estava estirado, os prédios desafiavam a geometria, como nos seus desenhos de criança.
Com a multidão curiosa pra ver o acidente, reconheceu o barulho de conversas desencontradas da sua juventude.
Mas ainda esperava que algum edredom abafasse o som das sirenes.
Estava em paz. E, assim, sem mais nem menos, dormiu com o Sol esquentando seu rosto.
(Conto escrito para o site Confraria dos Trouxas que deveria seguir este desafio: Um homem dorme e acorda todo dia em uma cidade diferente. Qual a sensação? Qual a explicação para isso? Há sempre alguém o esperando em cada cidade, mesmo ele não sabendo onde irá acordar.)
