Crise da meia meia-idade

Peguei o elevador e, até chegar no térreo, ele parou em todos os andares sem que ninguém entrasse. Seis vezes consecutivas. Já irritado porque iria me atrasar pro trabalho na volta do almoço, saí apressado assim que a porta se abriu. Não reparei que havia uma senhora com dificuldades para andar esperando para entrar. Não segurei a porta pra ela, o que fez suas filhas olharem para mim com repreensão. Envergonhado, voltei até o elevador e fiquei segurando a porta até que ela entrasse, me desculpando repetidamente. Elas sorriram e disseram tudo bem, tudo bem.

Tudo bem, nada. Me senti um bosta. Quem não segura a porta para uma senhora merece um murro na cara. Não sou assim, mas hoje fui e nem a pressa ou a distração justificam. O buraco é mais embaixo: hoje reproduzi um comportamento dessa rotina que aceitamos viver. Em que ninguém olha para o lado; ninguém se preocupa com o outro; ninguém quer saber de nada. Uma rotina de Ninguéns. A gente perde a identidade no meio da multidão corporativa. Queria saber onde o Lucca estava, enquanto aquele cuzão com fone de ouvidos saía do elevador.

E pior que eu sei: ele estava jantando com a família, jogando bola com os amigos, vendo série, boiando no mar, torcendo pelo São Paulo, brincando com os cachorros, conhecendo uma menina nova. Ele estava nos lugares que, todos os dias, só vai de passagem, mesmo querendo nunca partir.

Falando em querer, queria que o mais pesado nos quilos fosse a consciência das pessoas. E que leve fosse o jeito de levar as coisas, dando mais valor ao que nenhum dinheiro compra. Nem Vale-Refeição. Reclamamos tanto da artificialidade das praças de alimentação, mas acho que as comidas são feitas numa linha de produção menos fria que a nossa. Elas que deveriam reclamar por entrar em bocas lotadas de assuntos repetidos.

Para nos sentirmos satisfeitos, colocamos salitre nas nossas relações e escolhas diárias: parece ter sabor, mas não tem. E haja estômago para saber que vamos continuar abrindo mais concessões que buracos no cinto. Sem ter propósito, mesmo tendo motivo: depender do dinheiro.

Mas se, até no capitalismo o cartão tem limite, por que nosso desalento não teria? É sonhador demais imaginar um cotidiano diferente? É idealismo barato? Não adianta fazer nada? Fudeu? Desculpem. Pergunto tanto porque, ultimamente, só tenho respondido. Se é débito ou crédito.

Quando, na verdade, não é nenhum dos dois: a gente paga as contas com desperdício de vida.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.