Juliana

Juliana tem uma genética privilegiada. Pode comer um pote inteiro de Nutella no dia anterior a uma sessão de fotos que, mesmo assim, exigiria os menores retoques no Photoshop. Magnética, não existe um lugar por onde passe despercebida. E é muito mais que um rostinho bonito: fez Ciências Sociais na USP porque “sempre quis entender o motivo das pessoas pensarem como pensam hoje em dia”.

Mas o destino e as covinhas a levaram para outro caminho. Descoberta por um agente de modelos enquanto comia coxinha com coca no balcão da padaria, não demorou para Juliana assinar inúmeros contratos publicitários. Marcas de roupas, shampoos e barrinhas de cereal brigam para terem seus produtos ligados a ela. Quando Juliana se deu conta, já tinha milhares de seguidores no Instagram e uma aposentadoria tranquila. Aos 26 anos.

O problema é que, em vez de likes, Juliana quer trocar experiências. Não entende como as pessoas seguem alguém que não encontrou o próprio caminho. “Por que gostam de mim? Onde foi que eu acertei?”

Para organizar seu caos, Juliana voltou a escrever. Leva seu molesquine pra cima e pra baixo. Para shootings e coletivas.

Outro dia, Juliana aproveitou a fila no Drive Thru para anotar algumas linhas. “De que me adianta ter fã-clube, entrada vip nas baladas e todas essas coisas, se ninguém sabe que eu prefiro fazenda do que praia? Que escuto Jota Quest no último volume? Que só durmo com a TV ligada? Que camafeu é meu doce favorito?”

Pelo retrovisor, viu a moça do Mc Donalds equilibrando as sacolas de lanche na chuva. A cena fez com que se sentisse mal. “Perspectiva, Juliana”, disse, enquanto amassava o papel e o jogava no banco do passageiro.

Juliana sempre seguiu à risca um conselho que seu pai deu a ela quando ainda era criança. “Filha, não tem nada pior do que depender de outra pessoa para poder fazer alguma coisa. Você ainda é menina, então vou continuar pegando as amoras nos galhos que você não alcança. Mas daqui um tempo, você vai ter de se virar. E vai ver como a amora vai ficar até mais gostosa.”

Não deu outra. Da amoreira pra cá, Juliana faz tudo sozinha. Nunca precisou de ninguém.

E pensar que toda essa força e todo esse poder não aparecem nas lentes. Não se destacam nos filtros. Não cabem na tela do celular. Juliana ofusca qualquer flash e isso fica evidente quando trabalha com outras modelos. O contraste é tão grande que dá para entender porque ela anda tão saturada. As hashtags, os makes, os looks falham em mostrar as true colors de Juliana. É como se ela falasse uma língua diferente de todo o resto. Um abismo de distância na época do touch screen. Porque, embora dois toques no rosto dela provoquem um coração, não existe contato. Muito menos amor.

O cabelo ruivo e as sardas ajudam, sem dúvida, mas é o carisma de Juliana que paga as contas. Dela e dos pais.

Estudos mostram que ela é responsável pelo aumento do números de torcicolos na Zona Sul de São Paulo. Homens e mulheres deslocam a coluna para acompanhar seus passos, seja no Iguatemi ou no açougue. E ela não está nem aí.

É daquelas pessoas que conseguem aliar profundidade com leveza. Juliana não liga se o quarteirão veio com picles, se a ligação para NET caiu pela nona vez ou se o carro quebrou. Essa semana mesmo ficou a pé na Rebouças porque o motor ferveu. Resultado: 3 dias de conserto na oficina.

O curioso é que nenhuma dessas coisas era a razão pela qual estava triste. Sentia saudades da família e se perguntava por que ainda não havia encontrado um namorado que se atentasse mais aos seus medos do que às suas medidas.

Juliana chamou as amigas em casa para conversar, mas elas só falavam. E só elas falavam. Depois que foram embora, Juliana resolveu abrir um pote de Haggen Dazs para assistir Sense 8. Já era dia quando terminou de escrever mais um texto lindo que nunca foi publicado. Quando acordou, viu que tinha 30 mil likes na sua foto fazendo alongamento na praia.

Aproveitou que não tinha nenhum compromisso e ficou o dia todo de pijama, alternando entre episódios de Big Bang Theory e Superbonita. Até que, no comecinho da noite, o interfone tocou.

- Ô Dona Juliana, tudo bem? Tem um cabra aqui embaixo querendo falar com você.
- Quem?
- Um tal de Seu Juraci.