Sem mais nem menos

Meu cabeleireiro morreu. Fui cortar o cabelo há duas semanas e me disseram que ele tinha falecido naquele dia. Fiquei mal pra caralho. Julião era gente finíssima e garantia de conversa boa naqueles 45 minutos quase constrangedores, em que você fica se olhando no espelho em público sem ser julgado.

Como meu cabelo cresce rápido, uma vez por mês a gente trocava ideia. Não tenho muito problema em me abrir para estranhos ou para pessoas que acabei de conhecer, então, quase sempre o papo era sobre minhas desventuras amorosas. Mais ou menos assim:

- Julião, tenho que ficar com o cabelo bonitão porque amanhã vou sair com uma menina que estou afim.

Ele dava risada, conselhos e me perguntava sobre o trabalho; se a campanha que eu tinha comentado fez sucesso.

E assim foi nos últimos dois anos, sempre um desejando Feliz Natal e ano novo para o outro por mensagens protocolares de WhatsApp.

A morte dele me fez pensar em algumas coisas. Aquela frase que aparece vira e mexe no Instagram nunca fez tanto sentido: Everyone you meet is fighting a battle you know nothing about. Be kind. Always.

Julião estava doente há dois anos e nunca comentou nada. Me conforta ter construído uma relação tão superficial quanto verdadeira com ele.

Outra coisa que me dei conta é de como estou rodeado de exemplos como esse. Marcelão é taxista do ponto da Rua Alvorada e com quem pego carona desde a sétima série. Nestes doze anos de corrida, entre tantas coisas, já contei que mudei de profissão e ele me mostrou vídeos das suas aulas de violino.

Clarice, Lia e Emanuelle, as três atendentes do delivery da temakeria, já sabem que eu não peço mais o molho tarê porque estou de dieta.

O Tonho, guarda da rua, me conta o placar do jogo do São Paulo quando chego da pós. O Marlon, garçom da padaria, me pergunta lá do balcão se vou querer chorinho do suco para viagem.

Estas pequenas intimidades sublimam o caráter descartável que o cotidiano confere a estas relações. E não só: fortalecem um sentimento de afeto esquisito. Não amo nenhuma dessas pessoas, mas saber que elas estarão ali é bom demais. A perda de uma delas me fez ter noção do quanto.

Por isso, hoje tomei café na padaria e conversei um pouco mais que o normal com o Marlon. Vou passar pelo ponto e gritar “Fala, Marcelão!” pela janela. Comentar do Tricolor com o Tonho. E surpreender a Clarice, a Lia ou a Emanuelle pedindo molho tarê.

Com esse tempinho, está liberado sair da dieta.

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