Tamanho único

Outro dia tive que me despedir de uma camiseta que usei bastante nos últimos anos. Ela já vinha dando sinais de cansaço há algum tempo. Eu até tentei ignorar, mas esse mundo da moda é cruel. Primeiro, esgarçou. Depois, desbotou. E agora nem os buraquinhos de traça conseguia mais esconder.

Até aí tudo bem. O problema é que eu criei certa afeição por ela. Era uma das poucas que valia o esforço de encarar o sereno de toalha para procurá-la na lavanderia. Mas se engana quem pensa que ela tem uma estampa incrível ou um corte alinhado. O que a faz merecedora destes dois parágrafos é outra coisa: essa camiseta foi minha roupa oficial em momentos bons de se lembrar. Não importa se era festa com os amigos, cinema com a namorada ou almoço com a família. Lá estava ela, infalível.

Em qual segundo as coisas assumem outros significados, maiores do que estava previsto? Lembro que, quando meu avô foi embora, doeu pra caralho ver a malha que ele mais usava esticada no varal. Cinza, verde e branca, cheia de losangos. Aquela malha não é da Richards. É do meu avô. Não é feita de algodão. É feita das nossas conversas na sala de televisão e dos abraços que a gente trocou.

O que me preocupa — será que deveria? — é que estou depositando minha tendência para nostalgia em cada vez mais objetos inanimados. Bisnaguinhas, bexigas, ladrilhos, limpadores de alface e coleções do Kinder Ovo são os mais novos cofres das minhas memórias associativas. E ainda há quem diga que essas coisas não têm vida…

Embora infantil, acho que essa foi a forma que encontrei para me conformar com uma verdade tão batida quanto devastadora: virar adulto implica, necessariamente, em passar menos tempo com as pessoas que a gente ama. Que elas estejam espalhadas por aí, então, neste vazio que pode ser preenchido.

Fico imaginando se existe alguma espécie de reciprocidade neste sentimento. 
Talvez as outras roupas do meu armário estejam lamentando a partida de quem sempre esteve por lá. Talvez sintam, olhando para mim, o mesmo que senti naquele dia do varal: pô, a polo azul marinho gostava tanto de vestir esse cara.
Talvez disputem entre si para ver qual delas vai ocupar o lugar deixado pela camiseta que eu me despedi.

Ou, talvez, seja só loucura minha.

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