Terminal

Viajar pode ser muito chato. A fila do check in sempre é lerda. A alfândega sempre é um pé no saco. A mala sempre é pesada. O dedo sempre machuca pra fechar o zíper. Você apalpa o bolso 73 vezes pra se certificar que o passaporte tá ali. Tem que tirar o fone, o celular, a carteira, o relógio, o tênis para passar no detector de metal. Tem que colocar o fone, o celular, a carteira, o relógio, o tênis, tudo isso bem rápido, pra não atrapalhar a pessoa que vem atrás. O pão de queijo custa NOVE REAIS. O suco, SETE. Os policiais, gringos e não gringos, têm cara de cu. O avião é desconfortável. O ar condicionado é frio pra caralho. Vai ter sempre uma criança chorando do seu lado. Sempre vai dar medo da máscara de oxigênio caindo na hora das instruções. O vídeo da companhia aérea sempre vai ter um cara sorrindo enquanto fala sobre “em caso de queda da aeronave”. O piloto sempre vai interromper o clímax do filme para avisar que teremos uma turbulência. A turbulência sempre vai deixar com o cu na mão. A comida no vôo será ruim, mas a nossa fome dirá o contrário. Comeremos bolacha de água e sal esbaforidamente. Sempre virá iogurte grego sabor nada. Você sempre falará OBRIGADO para a aeromoça americana e ela não escutará o thank you baixinho porque já estará na fileira de trás. Você vai ficar surdo. Na ida e na volta. O cinto de segurança vai atrapalhar para você virar de lado e tentar dormir. O Rivotril não vai fazer efeito. Se fizer, você vai acordar de boca aberta e ficar constrangido por isso. Você vai enxugar a boca, olhar para os lados com medo de ser julgado, mas vai repetir a cena porque ainda estamos sobrevoando o PANAMÁ. Sua mala vai demorar na esteira. Você vai achar que ela extraviou. Ela não extraviou, mas é a última a sair daquela cortininha e vem lentamente quase rindo da sua cara. Você vai se atrapalhar para colocá-la em cima do carrinho. O carrinho vai ter uma roda que não gira, então ele não vai fazer curva. Você vai ter que abandonar o carrinho. A fila da imigração vai fazer você ter vontade de voltar. O turkey sandwich vai custar TREZE DÓLARES. O Orange Juice, CINCO. As fotos da viagem nunca vão passar 18% da beleza da paisagem. A maioria delas ficará tremida. A maioria delas não vai ter muito sentido e você só vai se dar conta disso quando estiver mostrando para outra pessoa. Você vai querer justificar falando que na hora estava lindo. Vai ser incrível conhecer as coisas do novo destino, mas uma hora você não vai mais achar graça. Vai sentir falta até das coisas mais estúpidas do seu cotidiano. Da garrafa de água no meio da noite, de abrir a porta do quarto para o seu cachorro entrar, do barulho que o portão de casa faz, da campainha avisando que o delivery chegou.

(O asfalto de Chicago é um pouco menos cinza que o daqui. O céu é marrom quando anoitece. Daí o vento é forte e você precisa subir o zíper do casaco. E soprar a mão o tempo todo. Nessa época, é quente de dia. Deve ser por causa das pessoas, calorosíssimas.)

Viajar pode ser muito chato, mas acho que, viajando, a gente cria coragem para fazer coisas que não faríamos por aqui.

Pensei no meu tio e falei com ele durante um show do Lolla. Não lembro qual. Pode ter sido no do Radiohead. Mas não me emociono com Radiohead, então acho difícil. Já era noite, estava bem frio, eu estava bem feliz, já tinha tomado algumas cervejas, todo mundo estava cantando, eu encontrei um metro quadrado no meio da multidão, olhei pro céu e conversei com ele. Pedi pra ele voltar. Gritando. Contei que estava com saudade, que queria viver aquelas coisas com ele. Falei “olha o que você está perdendo!”, “vai valer a pena, Má, eu prometo!”. A música acabou. A viagem também.

E eu ainda não sei como minha mala não apitou na alfândega, no detector de metal nem na balança: não deveria ser permitido voltar pra casa com excesso de saudade.