Lucca Cozzolino
Feb 23, 2017 · 4 min read

Grito

por lucca Cozzolino

- Não que o mundo seja cheio de idiotas, mas cara, vou te contar da vez que eu encontrei um por aí. Não, não tô falando de você. Só me escuta, Caio! Porque eu só o notei na pior hora possível, quando olhei no espelho. Não, não é papo de autoajuda, cara! Mas eu vou voltar um pouco antes de olhar no espelho e ver o quão idiota eu era, porque aí você entende como eu cheguei nesse ponto. Essa história começa numa daquelas biroscas bizarras do centro, onde os vagabundos iluminados sentam e debatem sobre as amenidades da vida, eu tava com meu parceiro Cody, que eu vou chamar de Cody porque não posso citar o nome dele, sabe? Problemas com a polícia e tal, você vai ouvir ou não caralho? Voltando: Cody já tinha bebido o suficiente pra resmungar com um som bizarro, os outros camaradas do bar riam enquanto jogavam cartas. Eu só fitava a rua olhando as horas passarem porque é disso que a gente tá precisando ultimamente, saca? Ócio e devaneio. Aí eu vi entrando um cara de terno todo amassado entrando no bar com aquela cara de” perdi dinheiro pra caralho hoje e possivelmente me mataria mas não posso porque isso acarretaria uma série de acontecimentos não muito legal no meu microcosmos”, entende esse tipo de cara? Ele pediu uma dose forte, as olheiras marcavam o rosto dele como se ele tivesse sido espancado por agiotas do sono. A camisa rosácea delimitada por pizzas de suor debaixo dos braços. A barba tava mal-feita porque eu tenho certeza que ele teve que fazer correndo porque estava atrasado para uma reunião importante e se cortou com a navalha. Eu tenho certeza que ele era o tipo de homem que faz a barba com a navalha. Eu sentia isso. É uma habilidade minha, não questiona.

Ele já havia bebido umas cinco doses quando viu que eu tava analisando o quão forte ele segurava o copo, porque isso diz muito sobre qual o tipo de problema a pessoa tem. Ele se virou pra mim e disse:
“Vocês aqui sentados nesse bar tem sorte de não suportar o peso dos problemas nas costas. Eu queria ficar aqui, olhando pra rua e dizendo o quão bom é a vida. Mas não, eu tenho que acordar todo dia e fumar um cigarro escondido da minha esposa, que não sabe que eu fumo a quinze anos. Aí eu corro pra o meu trabalho, onde meu chefe desgraçado resolveu que eu sou o seu bobo da corte, e me diz as melhores coisas como “o relatório poderia melhorar, Carlos! Você não sabe fazer as apresentações da pauta direito! Por que essa sua camisa rosa cheira tanto a cigarro?” e eu tenho que abaixar a cabeça e sorrir. Mas vou dizer a verdade, ele disse enquanto se apoiava no meu ombro e parecia com uma vontade imensa de vomitar mas fazendo o máximo possível pra manter aquela dignidade classe média que todos nós temos aqui dentro, a verdade é que esse não é o peso da vida! Essas coisas são só pedras que passam rolando mas não quebram nenhum osso. Eu tô falando de outra coisa. De uma sensação que eu sinto quando tô fumando meu cigarro escondido. A sensação que eu sinto quando me escondo no banheiro para que o meu chefe não me encontre. Eu não sei o que é. Vazio mas cheio. Uma sensação de grito interno que me enlouquece. Como se eu fosse sair correndo. Como se a minha alma fosse sair correndo por aí desgovernada e girasse o mundo por mil vezes atrás de algo. E a minha carcaça estremece toda e eu respiro fundo e penso um pouco. E por um segundo eu fico triste pra caralho. Daí eu volto aos meus afazeres. Daí eu apago o meu cigarro e corro para o metrô. Volto para o computador e os gritos do chefe. Esse é o peso que eu sinto.” e aí ele vomitou na minha camisa.

O Cody o ajudou a levantar e se ajeitar. Pediu outra dose pra ele e todo mundo. Não sei porque ando com o Cody, ele bebe demais e eu só o observo que é pra escrever as aventuras de um bêbado um dia. E não, não vou falar o nome dele, cala a boca. Eu fui correndo até o banheiro pra me limpar porque o cara fez um belo estrago na minha camisa azul-pastel, aquela que eu ganhei da Maria, sabe? Foi para o lixo. Eu tava lavando ela na pia do bar e não conseguia tirar aquele cheiro que era uma mistura de leite azedo e aquele uísque misturado. Joguei no lixo. Logo lavei o rosto. Tava precisando. E aí veio. Senti um grito interno. E a minha alma quis correr enquanto olhava no espelho. E eu não conseguia explicar. E foi aí que eu percebi que eu era um idiota. Porque eu não consegui explicar aquilo que tava dentro de mim, eu nunca havia sentido isso. Eu era um idiota por não perceber que essa sensação tava dentro de mim durante tanto tempo. Eu não notava quando estava ali com meus amigos, ou com aquelas garotas ou com os livros que eu lia. E por eu não notar, ela só crescia dentro de mim. Quando eu notei, já estava perdido. Eu era só um idiota com uma alma gritante. E eu havia deixado ela calada ali dentro.

-É uma boa história, Albert. Me deixou pensando bastante. Mas me diz uma coisa: o que ela tem haver com o fato da gente dividir a conta desse café?

- Ela não te convenceu que eu sou um idiota com algo preso e por isso não posso pagar?

-Nem um pouco. Paga logo.

-Caralho, Caio você não tem coração. Ok, da próxima vez eu conto uma outra e te convenço. Verei se consigo gritar mais daqui de dentro.

***

Lucca Cozzolino

Written by

Escritor, Poeta e pseudo-dançarino do “é o tchan!”

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade