O palhaço

O Palhaço

Por Lucca Cozzolino

Lembro-me da primeira vez que conheci um palhaço. Sim, um palhaço. Não no sentido pejorativo, mas um homem que ganhava a vida como um palhaço. E por mais clichê que pareça, sim, ele era um ser triste. Conheci-o quando tinha 12 anos. Na época, minha mãe queria me distrair; filho único, sem amigos no colégio. O casamento dos pais à beira do abismo. Advogados, fóruns e discussões sobre quem me veria as quartas-feiras. Tudo isso enquanto eu apenas desejava ficar em casa na solidão assistindo pokemon.

Naquela bela quinta-feira chuvosa, fui convidado pela mulher que chamo de mãe a visitar um circo que chegara recentemente ao nosso bairro: o circo Grustnyy, com as “peripécias” do mágico Ricardo. Eu particularmente pensei que este nome era meio caído. Não soava tão bem quanto um Houdini. Mas resolvi acompanhar minha mãe, fatigada e necessitada de uma distração.

A tenda encontrava-se em um terreno que mais parecia um pântano; meus pés afundavam na caminhada até a bilheteria. Mas as luzes me encantavam. Sempre imaginei um circo como nos desenhos animados à la Tom&Jerry: leões, domadores, Mais leões, ratos e gatos assassinos. A moça da bilheteria tinha um sorriso jovem. Seus olhos azuis demonstravam um misto de cansaço e falsa felicidade. Como eu notei isso aos doze anos de idade? Bom, talvez porque eu era uma criança muito sozinha. De verdade, sem amigos. Chorão. Meus cabelos ruivos e minhas sardas deram a mim o apelido nada original de ferrugem. Então pensava muito sobre as coisas. Se não tivesse crescido e virado um idiota, poderia ter me tornado filósofo. Hoje sou só um programador.

Mas voltemos à tenda, porque não vim pra falar de mim. Pelo jeito, a moça dos tristes olhos azuis tinha gostado de mim. Deu-me um vale para trocar por pipoca, o que fiz sem pestanejar, pois ninguém fica triste quando se tem comida. Minha mãe sorriu também ao receber o vale, o que só comprova essa minha teoria. O pipoqueiro tinha um cartola branca, como se estivesse na Paris dos anos 20. Seu terno, também branco, possuía um lenço azul claro e no pescoço uma gravata borboleta rosa. Além disso, seu bigode extremamente peculiar davam-lhe um ar inglês, imponente. Suas olheiras marcavam o rosto, demonstrando que ali havia um homem que não dormia a dias, provavelmente preocupado com algo. Ele deu um sorriso ao entregar-nos a pipoca. Observava eu tudo aquilo calado, sorrindo algumas vezes para minha mãe, que parecia se divertir. Aquela moça frágil, cansada, precisava daquela alegria naquele instante. Mesmo nova, os cabelos já começavam a aparentar os primeiros fios brancos. Brancos de preocupação. Pensei que talvez fosse por isso que o pipoqueiro usava tanto branco. Suas roupas acabaram por se tornar brancas por causa das noites sem dormir.

Logo a porta, vimos uma placa com o nome das atrações da noite. Fiquei intrigado, pois ali vi o nome do tal palhaço que mencionei no começo de nossa história, ou o nome artístico dele: o palhaço Mellon Collie. Nunca tinha visto um show de um palhaço, então aquele era o que eu mais esperava. Mas decepcionei-me por um instante, pois ali dizia que ele não se apresentaria naquela noite por “motivos de força maior.” Nunca entendi isso.

Esqueci então dele por um instante, e adentrei a tenda. No meio desta, uma espécie de palco, rodeada por arquibancadas. No meio do palco, um homem gordo, de terno vermelho e bochechas que combinavam com seu terno, começou o espetáculo. Sua voz era animada, mas pude sentir um incômodo naquele grito de respeitável público. Como se lhe faltasse algo.

Notei na arquibancada que alguns colegas de sala ali estavam, o que acabou por me deixar apreensivo. Tinha medo do que eles pensariam se me vissem. E o medo, caros amigos, percebe quando o sentimos. E ele avisa o Jorge, o garoto popular da sala, que você o está sentindo. E o Jorge te vê. E ele começa a dizer aos outros que está te vendo. E eles começam a gritar “Ferrugem!” e rir sobre o meus cabelo e minhas roupas.

Quis me esconder. Minha mãe não notou, estava ocupada demais vendo o equilibrista quase cair ao tentar não derrubar uns pratos. Tudo isso em cima de uma bicicleta. Não tiro o mérito dela, era impressionante. Aquele garoto chinês era bom.

Eu resolvi que o melhor seria me esconder lá fora, porque eles não me seguiriam. Voltaria um tempo depois, quando já tivessem cansado de pensar em apelidos para o meu cabelo. O que demoraria, porque os desgraçados eram criativos.

Acabei por sair atrás da tenda, onde estavam os trailers dos artistas. Se o caro leitor quiser, pode imaginar aqueles trailers velhos de circos americanos. Só que mais enferrujados. Aparentavam estar vazios. Resolvi andar, ver como viviam aqueles tristes seres. Havia muitas roupas penduradas. Caixas e caixas de madeira, provavelmente usadas para guardar equipamentos. Garrafas espalhadas por todo lugar. O cheiro de mofo era forte em muitas coisas. Também o cheiro de cigarro, impregnado em quase tudo ali. Os trailers poderiam ter sido fabricados pela Malboro.

De repente, um som chamou a minha atenção. Música. Algo antigo. Soava como um samba. Não sei dizer o nome agora. Mas lembro-me de parte da letra. Algo como: “de tanto levar flechada do teu olhar, meu coração parece até tábua de tiro ao Álvaro…”. Algo desse tipo. Talvez um dia procure. Ou o leitor saiba. Tentarei não ficar na ignorância.

Fui me aproximando do som. Notei que havia um último trailer com as luzes acesas. Fui me aproximando, apreensivo. Nunca se sabe o que pode acontecer. Lembrei dos filmes de terror, onde o garoto/garota idiota se aproxima do perigo, mesmo com todos os sinais pra não chegar perto e correr como um verdadeiro maluco/maluca que ele é. Mas o/a imbecil vai até lá. E lá tem um maluco com um machado. E ele/ela é cortado ao meio. Idiota.

Mas para a minha surpresa, não havia um maluco, mas algo tão bizarro quanto. Um homem, que aparentava ser jovem, com uns 24, 25 anos, vestido de palhaço. Sim, com nariz, maquiagem e toda aquela roupa de palhaço. Em sua mão, um cigarro que com certeza contribuiria futuramente para o maravilhoso cheiro dos trailers. Estava sentado a porta do trailer, com uma garrafa de uísque do lado, e um copo do lado sem gelo. Não sou nenhum Sherlock, mas eu sei hoje em dia que se você bebe com uma garrafa do lado e um copo sem gelo, é bem provável que você seja alcoólatra. Talvez deva procurar a AA. Mas voltando ao nosso querido palhaço. Que estava de cabeça baixa, e cantando baixo. Aparentava estar chorando.

Nesse momento a música mudou, e ele se levantou. Provavelmente estava indo mudar de música, quando me notou. Ele então sorriu. Entrou e trocou a música. Sentou-se novamente, colocando mais uísque no copo. Me olhou mais um pouco. Então, após um belo gole, disse:

- Acho que não é o melhor jeito de ver um palhaço né? Assim, chorando. “o palhaço triste”. Clichê demais.

Eu disse que não tinha problema em chorar. Todo mundo chora. Eu choro. Minha mãe também tem chorado bastante. Outro dia vi meu pai chorando. Ele sorriu. Colocando o copo de lado. Me disse pra sentar em uma caixa em frente a ele.

- Desculpe, nem me apresentei. Você deve ter visto meu nome lá na frente. “Mellon Collie”. Mas meu nome real deve ser Thomas. Ou Lucas. Acho que Matheus. Qualquer droga dessa. Estou tão bêbado que nem lembro meu próprio nome. Deus. Faz dias que estou com essa maldita de roupa de palhaço. Mas não importa. Qual é o seu, ferrugem?

Eu fechei a cara quando ele disse isso. Até aqui? Estava fugindo disso. Ele notou.

- Parece que alguém não gosta de ser chamado de ferrugem. Perdão. Vou te chamar de irlandês. Você me lembra um amigo de escola que era ruivo. Ele era da Irlanda. Ou da Bahia, sei lá.Cara mais louco que conheci na vida. Morreu esfaqueado por um cara num bar. Mexeu com a mulher errada. Mas diga-me irlandês: você não sabe que o espetáculo é lá dentro da tenda? Ou acha que eu sou um show à parte? “venham ver o palhaço chorão! Por mais cinco!” com certeza o Zé Roberto adoraria essa ideia. O desgraçado ama dinheiro mais que os filhos.

Eu disse que estava fugindo. Que estava me escondendo. A música trocou de novo. Ele, ao ouvir aquilo, começou a gargalhar.

- Que ótimo jeito de fugir então! Fugir com o circo! Está todo mundo fugindo aqui mesmo! O mágico Ricardo por exemplo: dizem que ele fugiu com o circo porque arrumou confusão com um fazendeiro lá no interior de Minas Gerais. A Alice, moça de olhos azuis que fica na bilheteria, está fugindo porque apanhava do pai desde criança. E tem um pessoal que diz que o pipoqueiro, aquele que tem um bigode gigante, se desiludiu com o mundo dos negócios. Você tem cara de observador, então deve ter notado que todos aqui são tristes.

Ele tomou outro gole. Acendeu mais um cigarro. Outra música dentro do trailer começou a tocar. Essa letra eu lembro. mas de novo, o nome não. “A tua piscina tá cheia de ratos;tuas ideias não correspondem aos fatos;o tempo não pára…”. pelo menos é o que eu me lembro. eu fiquei observando o movimento que ele fazia com o copo. Girando copo e olhando pro nada. Como se estivesse sentindo falta de algo. Ele percebeu que estava olhando pro copo.

-Você já experimentou uísque?

Balancei a cabeça.

- então tome um gole. Aqui.

Ele me entregou o copo. Fiquei assustado. Ele insistiu. Eu olhei para os lados. Nunca havia tomado aquilo. Era estranho. Tinha um gosto amargo ao descer pela minha garganta. Me lembrava remédio pra dor de cabeça. Desceu queimando meu esôfago. Foi uma situação bizarra. Um palhaço chorão me dando uísque. Que ser interessante era aquele? Tinha que saber mais dele! Perguntei então do por quê ele estar no circo; aparentava ser novo. Estava fugindo também? Ele olhou para o céu. Deu mais uma tragada e jogou seu cigarro fora.

- Você faz perguntas interessantes, Irlandês. Gostei de você. Sinceramente? Sim, estou fugindo como todos. Mas será que você é maduro o suficiente pra ouvir minha história?

Eu balancei a cabeça. Disse que ele não pensou nisso quando me deu uísque. Ele riu. Levantou-se e entrou no trailer. Voltou com um porta retratos. Havia ali uma moça. mas a sua beleza era singular; seus cabelos chamavam atenção. Eram cacheados; lembravam a juba de um leão. Os olhos castanhos brilhavam junto ao sorriso jovem e carinhoso. Era jovem, aparentava uns 16 ou 17 anos. Por algum motivo, aquela moça me trouxe paz. Me passava felicidade.

Quando me voltei ao palhaço, pude notar que algumas lágrimas corriam por seus rosto. Ele tentou limpá-las rapidamente, mas acabou borrando a maquiagem em seu rosto. Fiz a pergunta fatal: quem era ela?

- Sabe garoto, vou te contar uma coisa. Na cadeia alimentar, ali no final, quando todos os produtores e consumidores morrem, incluindo os seres humanos, ele são consumidos por seres chamados de decompositores. Eles pegam nossos nutrientes finais e transformam em energia. Isso, de algum modo que não sei explicar, pois não sou biólogo, acaba entrando em um ciclo que faz com que a cadeia recomece. O que eu quero dizer com isso? Bom, aqui vai a minha teoria: eu acredito que na “cadeia alimentar humana” exista esses decompositores. Que eles, indiretamente, acabam por nos decompor. Decompor nossos sentimentos, corações e desejos. E essa garota, ela me decompôs. Ela estudou comigo. Eu era um apaixonado. Um sonhador. Ela era incrível. Mas conforme fui convivendo com ela, e meu sentimento foi crescendo, mais fui sendo decomposto. Talvez ela tenha levado todo o meu ser. Eu nadei, nadei e morri na praia. Nunca tivemos nada, mas o desejo, a vontade de tê-la, me degastou todo o dia. Eu sempre fui um fraco. Então quando a vi namorando, foi como finalmente morrer. Não me matei porque sou realmente um covarde. Mas resolvi procurar “ajuda” em outras coisas. Comecei a fumar, a beber. Procurando saídas para isso. Mas mesmo assim eu não aguentava vê-la. Eu então decidi que só tinha três opções pra mim: me juntar a legião estrangeira; virar um monge ou fugir com o primeiro circo que viesse a cidade. Bom, a legião estrangeira estava longe, era difícil se alistar nela. Se eu virasse um monge seria curado, e eu não queria parar de beber e de sofrer. Sim, sou fraco. Decidi então me juntar ao circo. E calhou de o circo Grustnyy estar na minha cidade. Quando entrei pra assistir um espetáculo, notei que todos tinham olhares tristes. Me senti acolhido. Achei que aqui seria meu lugar. Então quando eles estavam pra ir embora, eu contei minha história. O Zé Roberto me acolheu. Me disse que eu poderia ser assistente de palhaço. Quando o antigo palhaço morreu, assumi o lugar dele. Mudei o nome.

Eu fiquei calado. Não sabia o que dizer. Aquela história me fez esquecer dos problemas com meus pais. Com a escola. Perguntei então se ele havia encontrado com a garota de novo.

-Um dia eu voltei escondido pra minha cidade. Faz uns cinco anos. Ela se casou. Com o tal de namorado. Acho que o nome dele era Thiago. Ou Matheus. Sei lá. Chorei muito. Vi meus pais. Eles não sentiam mais minha falta. Era como se tivesse morrido pra eles. Fui então tentar ver meus amigos. Só encontrei dois. Eles estavam felizes. Mas não me reconheceram. Disseram que eu parecia triste. Sozinho. Perguntaram se precisava de algo. Eu disse que não. Mas chorei. E fugi. Fugi de novo. Acho que sempre vou fugir. Que droga.

Ele tomou um gole. Estava chorando. Eu senti pena dele. Como sentia de minha mãe. De meu pai. Pobres seres. Sofrendo por esses decompositores. Talvez eu estivesse também.

Perguntei a ele o porquê de estar pensando nela justo naquele dia. Ele levantou a cabeça. Disse algo que me calou.

- Hoje eu recebi uma carta do meu amigo Victor. Ele descobriu que o Grustnyy estava aqui. Ele me disse que a Camila morreu. Ele me disse que ela não sofreu. Mas quem disse que eu não estou sofrendo?

Eu abaixei a cabeça. Ouvi o choro baixo do palhaço. Aquilo me entristeceu. Eu resolvi então fazer a única coisa que deve ser feita quando alguém chora, segundo minha mãe. Abracei-o. Ele se assustou.

Aquele momento parou..Choramos juntos. A música mudou. “Porque o passado me traz uma lembrança; Do tempo que eu era ainda criança; E o medo era motivo de choro; Desculpa pra um abraço ou consolo…”

Nos soltamos. Ele sorriu. Perguntei se aquilo o tinha ajudado. Se não era melhor largar aquilo tudo. Voltar pra casa. Talvez resolveria os problemas.

- garoto vou apenas lhe dizer as palavras de Carlos Drummond de Andrade: “mundo mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução!” Não adianta tentar mudar de lugar. Meus problemas sempre irão me seguir. Já disse: sou fraco demais pra enfrentá-los! Mas você garoto, pode e vai ser diferente. Você tem que enfrentar seus problemas. Então não vai fugir com o circo. Vai, volte pra sua mãe. Ela precisa de você. Precisa do seu abraço também.

Eu então me virei e comecei a caminhar. Olhei pra trás. Ele estava sorrindo. Olhou pra mim e balançou a cabeça. Sabia que ficaria bem. Tinha de ficar bem.

Quando encontrei minha mãe, ela estava preocupada. Queria saber onde eu estava. Eu me calei. Apenas a abracei. Ela sorriu. Disse que estava precisando.Fomos andando pelo terreno pantanoso. Ela então sorriu e disse que o espetáculo era ótimo. Que adorava o circo. Então disse:

-Às vezes penso em fugir com o circo. Vamos?

***

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