Sinucas de bico

Uma análise sobre o golpe é que a gente só vai entender a magnitude do dano da irracionalidade envolvida daqui uns 50 anos.

E eu não digo “a gente” historiadores, “a gente” esquerda, eu digo “a gente” a ficção que é o coletivo brasileiro. Incluindo os políticos.

O golpe, pra mim, não mostra sinais de que foi tudo uma grande brincadeira, tudo um plano, como as imagens da Dilma rindo do lado do Aécio ou a eterna aliança com Calheiros, a venda de cargos pra salvar Cunha (que tentou entrar no panteão dos Sarney-Collor-Maluf de anistia por discrição e levou uma porta na cara), as alianças mantidas entre PT e PMDB em tantos municípios e regiões. teve traição. Não foi nenhum “ele e a esposa combinaram um adultério falso pra passar a mão numa grana”, não foi nenhuma decisão Illuminatti ou maçom. Indo na contramão do wikileaks e à favor da navalha de Occam, eu não acho que sequer foi uma conspiração da CIA — se foi, foi uns 5% no máximo. O golpe tampouco foi pro pobre não ir mais pra faculdade, pq os congressistas odeiam bolsa família e afins. Alguém que tem voz são os empresários querendo mais lucros e flexibilização de direitos impossível sobre o governo do PT, mas ainda não é o motivo majoritário. As políticas presidencialistas petistas são intragáveis pra muitos, mas é difícil argumentar que isso justificaria um esquema tão grande, tão vistoso de assassinato político.

Duas razões marcam tudo isso: desespero e burrice. Falemos primeiro sobre a burrice.

Partamos do pressuposto de que todo político de alto escalão é um cuzão, ou pelo menos, como os números de investigados e inelegíveis nos mostram, a maioria relevante deles. O ganha-pão dele não são leis, assembléias ou projetos, mas se aproveitar de sua posição o máximo possível. Quando vai assinar papéis de licitações, os números suculentos de oito, nove, a maçã hesperideana dos dez dígitos, pensa se não daria pra arrancar uns seis ou sete dígitos pra si próprio. Colegas lhe pedem favores pequenos, uma ignorada aqui, uma assinatura descuidada ali, uma edição leve em um texto, uma falta de presença numa votação. Eventualmente ele se une ao clubinho, e vai aumentando seu patrimônio. Lê as notícias com sua cara estampada por algum motivo irrelevante, e aí compra seu primeiro jornal. O problema é que essa evolução termina em um ponto muito trágico: quando, pouco diferente do folclore do viciado que vende a TV por dois pinos de pó, vende o que acha nos papéis na sua mesa pro primeiro que quiser pagar em valores que terminem com ilhões. Pra ele, parece um ótimo negócio: venda acres da amazônia. venda poços de petróleo, ou depósitos de minérios. O que o verdadeiro imbecil que é o político corrupto brasileiro, com a mesma mentalidade proletária-ilegal do ladrão que só bate carteira pra tomar pinga, é que vende notas de 10 cobrando 5. E isso não é só a questão da privatização: eu lembro de ter lido um texto uma vez que mostrava bem claramente como que a privatização dá um lucro único pra união de x, enquanto que a estatização correta poderia dar um lucro de 10x. Não é nem pensando no lucro da união, é pensando no que vai pro bolso do corrupto no meio disso tudo.

Cortemos a análise sobre a burrice. Vamos pro desespero.

É inegável que dilma tentou fazer alguma coisa sobre a corrupção. É difícil dizer o que, honestamente, mas com certeza pra ela não tava dando mais esse papo. Pegar um governo que não vai se recuperar por mais uns 10 anos do Mensalão é foda, eu entendo ela não querer que isso aconteça de novo. Tem quem diga que os planos dela eram diferentes, ou que as investigações sobre corrupção só aceleraram ao extremo justamente pela falta de poder político dela — que em parte foi retirado como tentativa inicial (e BURRA) de políticos que pensaram que isso resolveria o problema. Imagina só isso: um cachorro encoleirado sempre tenta te morder no seu trajeto matinal pro trabalho, então a sua solução é cortar a coleira dele pra ver se ele foge (e aí, solto, ele pula na sua jugular). Mas enfim, o final já sabemos: as investigações aceleram, pegam todo mundo. Só a lava-jato já teve mais fase que eu tenho anos de vida, mais delator que filme de polícia hollywoodeano. Deve ser mais fácil dizer qual o político de alto escalão que NÃO tá envolvido nela a esse ponto. Imagina só você ser um desses políticos corruptos e ter que voltar todo dia pra sua casa aterrorizado com o dia que a Federal vai bater na tua porta? E pior ainda (tem fórum privilegiado, prisão domiciliar, ir preso é o de menos), congelar os seus fundos e talvez descobrir a grana dos seus amigos também? A resposta básica poderia ser a luta, mas como não estamos mais nos tempos do coronelismo ou somos um narcopaís ou temos ditadores africanos pra políticos terem exércitos próprios, a resposta é, com certeza, a fuga. o medo. O desespero, puro e simples, de que você é o próximo, e não importa quantos jornais ou policiais ou favores você compre, nada pára essa merda de investigação.

Ao conversar com os colegas, o deputado Robson Roubo(sson) percebe que eles também estão desesperados. Organiza com eles um plano, ao ver que juntos são maioria, e que podem inventar um plano que qualquer apoio necessário pode ser comprado. Rascunham o golpe, e enfim concordam que é essa a melhor saída.

O problema é que desespero é o pior momento possível pra se fazer um plano. Você já tentou fazer trabalho de faculdade valendo 80% da nota no último dia? Metade do que você escreve só sai bosta. O desespero não te deixa pensar: você quer fugir, quer se esconder dos seus monstros, quer ir pra casa jogar videogame e ver reality show bobo na TV. Um assaltante que tenta fugir de uma casa desesperado quebra coisas, passa as digitais em tudo, esquece das câmeras na rua que ele passou duas semanas observando. Um cara que acabou de atropelar dois pedestres por acidente sai correndo sem perceber que VÃO saber qual a placa do carro. O desespero não deixa a gente escolher qual o caminho menos danoso, só o que vai resolver o problema mais rápido pra gente poder tirar a cabeça debaixo da areia.

Os envolvidos, todos pensando apenas na sua individualidade, nenhum unido, nenhum menos passível de revelar os podres do próximo e receber também uma faca inesperada nas costas, não tem a capacidade coletiva de projetar expectativas muito distantes, muitos ângulos de vulnerabilidade. Cada um é uma pessoa só: pensam primeiro em si mesmos com as paradas em investigações e uma mão (pros mais ambiciosos — pra maioria, só um dedinho tá bom) supostamente nas rédeas da mídia, da lei e de suas execuções, não tem nem COMO pensar nos múltiplos ângulos para se ver o plano.

Agora, com o golpe deflagrado, com tantos áudios e escutas e documentos e ufanismos nacionalistas (que, deus os ajude, às vezes são REAIS), vemos uma presidente deposta. Um monte de sacolas cheias de cocô jogadas no seu quintal numa não mais tão agradável manhã. Se olharmos mais de perto, vemos os senadores e deputados correndo pro final da quadra puxando as calças desajeitadamente pra cima, orgulhosos de seu feito porém ainda com a bunda aparecendo.

Voltemos à burrice, e pensemos no que que isso tudo protegeu. Alguns milhões que serão praticamente intocáveis, pois seu uso requer que o político largue o vício de corromper mais, ou seu vício em estar numa posição de poder, invulnerável? Alguns esquemas de propina ou lavagem de dinheiro? Só isso? Porque isso espera-se de uma simples assembléia importante a ser esquecida nos confins da TV Justiça. De um presidente deposto esperamos no mínimo umas conexões com máfias internacionais, ligações diretas com os donos dos complexos militares-industriais, sabe? Os Big Boys. Pra um país de primeiro mundo, roubo de primeiro mundo — os capitalistas de verdade.

Mas não. O político corrupto brasileiro, na sua mediocridade, compra uma ou duas fazendas. Anda de jato, quem sabe, talvez resolva traficar um pouco (mas jamais ser um ator principal no tráfico), o que imagina-se no cenário internacional que seja a microempresa de brigadeiros gourmet da ilegalidade. Ele vende por 50 milhões um poço de petróleo que vai dar pro seu novo dono uns 50 bilhões e acha que fez ótimo negócio, ele não pensa maior, ele não se entrega nem pra uma simples ambição, quanto mais pra megalomania.

É aqui que voltamos pro começo. O dano que só vai ser sentido daqui a 50 anos não é o dano na democracia, essa aí já tá acuada num canto tentando ao máximo não incomodar as visitas desde a ditadura. É um dano estilo JK vendendo a logística nacional pra General Motors. Um dano estilo Vargas passando até gloss pra receber o Roosevelt na Segunda Guerra. Nível FHC dando as chaves da Vale pela grana pra comprar uma coxinha.

Pra fazer essa lambança toda, os senadores e deputados tiveram que mostrar todas as suas vulnerabilidades. Na sua burrice, nem perceberam quanta informação sensível teriam que expôr pra criar a janela de oportunidade; Cometeram a imbecilidade estratégica de propositalmente jogar o país numa perfeita desestabilização só pra salvar o próprio rabo! Tocaram fogo numas árvores pra plantar soja pra só depois pensar em tomar cuidado pra não espalhar pro resto da floresta inteira. A consequência de um lado seria a revolta popular, mas esta ao menos acreditam ser controlável, com polícias desnecessariamente bem-equipadas. De outro, a mídia internacional, incontrolável, mas cujos efeitos não imaginam nenhuma possibilidade de dano real, uma vez que o The Guardian, o Le Monde não são ninguém perto d’O Globo, de um Grupo Abril. De um lado nem antes pensado (se fosse pensado ninguém teria colocado o SERRA como Relações Exteriores), os cortes de relações e o quanto o novo governo se torna intragável para os países imediatamente vizinhos, fronteiriços. O damage control no momento tá indo todo pra esse último. De um lado que não tá nem perto de ser imaginado, vem os narcotraficantes internacionais, as máfias, os cartéis multinacionais, os devoradores de recursos, os terceirizadores internacionais, os Estados europeus, americanos, russos, chineses. Para estes, a desestabilização é entregue em bandeja de prata.

Parte disso é análise. Parte disso pode ser só intuição histórica mesmo. Parte disso com certeza é impossível de definir, por questões práticas de ineptidão em precognição. Mas rapaz, vai ter senador fazendo farra vendendo tudo pra comemorar; e eu sinto pena deles ao pensar nos capitalistas de verdade que vão aproveitar a falsa sensação de vitória desses bundas ao vento. Na sua burrice desesperada, não fazem idéia do que venderam. Fazem menos idéia ainda de quem é que comprou. Aguardemos pra ver quem mais vai entrar pro nosso carnaval econômico.

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