A Reforma Trabalhista é fruto do pacifismo

A violência que ocorreu nas ruas no evento dos últimos dias necessita ser motivo de discussão, para que possamos tornar cristalinos os percursos que levaram todos os agentes envolvidos a causar tal estrago. No caso, estamos falando da tortura executada pela Polícia Militar contra o jovem na Favela do Moinho em São Paulo, ou dos tiroteios nas escolas cariocas que resultam em crianças baleadas, ou de qualquer outra forma de repressão desempenhada pelo Estado.

Cenas fortes de depredação do patrimônio público e privado… ou será apenas a cena do homicídio de Leandro na Favela do Moinho?

Mas, o jornalista alemão Hans Pfeifer, escreveu uma coluna no DeutschWelle, no dia 10 de Julho, com o título: Precisamos falar sobre oque aconteceu em Hamburgo argumentando que o problema causado pelos manifestantes anarquistas e autonomistas nas ruas da cidade, através da depredação, confronto com a polícia e saque as lojas da região, acaba por minar a principal conquista da democracia contemporânea: o diálogo e a capacidade de resolver conflitos fazendo política.

O argumento de Pfeifer entende que é possível resolver os problemas da sociedade através da negociação, com representação política e dialogo republicano… porém, temos plena ciência das condições que nós, cidadãos comuns e trabalhadores, temos de nos contrapor ao Estado e seus representantes nas mesmas condições que os grandes empresários representantes de suas corporações e bancos.

Mafalda rindo pra não chorar, ou se rebelar

É exatamente nesse ponto que entramos para discutir o último acontecimento nas terras brasileiras: a Reforma Trabalhista.

No período da Copa do Mundo, em 2014, quando alguns protestavam contra sua execução no Brasil, por termos outras prioridades para o dinheiro público, as manifestações pouco adiantaram e a Copa aconteceu; quando muitos protestavam contra o Impeachment da presidenta Dilma Roussef, através de manifestações gigantescas e múltiplas bandeiras, o golpe institucional aconteceu com aparência de legitimidade, por conta das enormes manifestações financiadas pelos partidos de oposição ao de Roussef e pelas corporações interessadas nas mudanças radicais que a situação não permitiria que fossem executadas na celeridade necessária, e principalmente, porque a opinião pública, ou seja, os meios de comunicação estavam apoiando esse processo.

Portanto, o único momento em que as manifestações-procissões tiveram alguma efetividade na contemporaneidade, foi quando as câmeras multiplicaram a sua presença, na Tv Globo e nos jornais Folha de São Paulo e Estadão, levando cada vez mais desorientados para as ruas, dando apoio popular para as mudanças que já seriam feitas por aqueles que representavam o Estado e o capital financeiro na Câmara dos Deputados e no Senado em Brasília, ou seja, a massa de manobra não pressionou coisa alguma, apenas legitimou algo que estava em processo e que desemboca na realidade de hoje: a Reforma Trabalhista.

As manifestações pacíficas e ordeiras durante o ano de 2015 e 2016, contra e a favor do Impeachment, disputavam quem levava mais pessoas para a rua conforme a contagem da Polícia Militar e das centrais sindicais ou movimentos responsáveis pela manifestação, tendo como único objetivo sair na capa do jornal do outro dia com uma foto que demonstrasse que a Avenida Paulista havia sido tomada.

Por isso, devemos retornar a discutida Jornada de Junho, ainda em disputa na memória recente como um possível gatilho para o fortalecimento da direita para voltar as ruas e derrubar a presidente Dilma, ou como um renascer da esquerda pela organização autônoma e pelo uso da violência revolucionária.

Esse último elemento é essencial e será o objeto de discussão daqui em diante.

Da mesma forma, ou de forma semelhante em que ocorreu em Hamburgo no G20, nas Jornadas de Junho as manifestações sofreram e enfrentaram a repressão policial, onde pela primeira vez no Brasil, a face do Black Bloc foi revelada, como algo incontrolável e impossível de ser repreendido na sociedade do controle, onde todos deveriam temer serem registrados pela vigilância constante, temendo uma possível prisão, mas com a máscara e a unidade pela homogeneidade, se tornava possível se tornar anônimo.

E foi apenas nesse momento, que depois de muitos anos de silêncio dos movimentos sociais, causado por diversos motivos — sendo um deles o aparelhamento ao governo federal -, que a presidenta da República foi obrigada a se manifestar em rede nacional, clamando por negociações e soluções para a crise social que havia explodido no Brasil com o rompimento do contrato social, onde a violência foi expropriada do monopólio feito pelo Estado, e agora era usada contra ele e as empresas privadas.

Em Hamburgo, da mesma forma, a tática Black Bloc foi utilizada como única forma da voz silenciada ser escutada, fazendo com que o mundo inteiro virasse suas câmeras para a reunião do G20 e percebesse a reunião dos países mais poderosos do mundo, cercada por forças policiais com autorização para reprimir toda e qualquer manifestação.

Ao contrário do que diz Pfeifer, o diálogo do Estado com a sociedade nunca existiu, muito menos com a iniciativa privada, que é a proprietária de todos os governos dentro da sociedade capitalista, muito pelo contrário, os únicos momentos em que o Estado escutou a sociedade foi com a violência revolucionária, assim como ocorreu na centenária Greve Geral de 1917 em São Paulo.

Portanto, não temos nada a perder a não ser os nossos grilhões.

A Reforma Trabalhista, assim como todos os outros horrores cometidos pelo governo brasileiro, apenas são executadas pois tais parlamentares não temem o povo, todos eles sabem que iremos nos revoltar através do Facebook e em conversas acaloradas nos almoços familiares, onde todos poderão reafirmar as suas identidades contraditórias, e todo a estrutura continuará ilesa, pois estaremos muito ocupados discutindo e nos agredindo.

O governo petista temia a população, mas não por sua violência, mas pela sua base popular que o elegia, logo, não podia executar tais reformas. O governo atual, nada teme pois nunca foi eleito, e tem que enganar ninguém além do mínimo, assim como é feito com a Reforma Trabalhista.

Nos torna nítido o caminho que deve ser tomado, devemos fazer com que o Estado volte a temer o povo, e para fazer isso, devemos voltar a ser organizados e anônimos, para além de qualquer pretensão individual ou egocêntrica, temos de entender que o Estado advoga em causa própria, portanto, não será através dele que conquistaremos, mas apenas contra ele.

Para tal, devemos voltar as ruas, incitar a revolta no peito da trabalhadora e trabalhador, fazer o trabalho de base que nunca foi feito pelas organizações que apenas desejavam o poder, e dizer a todos que é possível se rebelar, e que a paz seja entre nós e a guerra seja declarada aos senhores.

Brasil, 2013.