O que eu aprendi com a depressão

Quarta, 17 de Maio, foi Dia Internacional contra LGBTFobia e ontem, 18 de Maio, foi Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Não é novidade que há estreita ligação entre essas duas lutas considerando que, por muito tempo, orientações que não a cis-heterossexual foram consideradas doenças e levaram muitas pessoas a ocuparem leitos psiquiátricos nos centros desumanos que eram a maior parte dos hospícios no Brasil e que são, hoje, muitas das Comunidades Terapêuticas espalhadas pelo país. A violência expressada nessa relação tem conexão direta com a leitura de depressão que pretendo trazer na sequência e da frequência com que deixamos de considerar (ou secundarizamos) isso na Psicologia. Os meses mais recentes foram repletos de debates sobre a depressão e o suicídio por conta de uma série da Netflix (http://migre.me/wDMyg) e do “jogo” da baleia azul (http://migre.me/wDMyN). Seja a causalidade culpabilizadora da série ou a perversidade do “jogo”, ambos estão também contemplados na violência que leva a uma lógica manicomial e patologizante da vida.

Estes eventos, somados a questões de ordem pessoal e a volta de algumas inseguranças em um momento de intenso acirramento das nossas condições materiais e objetivas de vida — por conta da crise econômica, política e social que o país passa — me fizeram revisitar o meu período mais agudo de depressão, 4 anos atrás. Somando a ausência de repertório (pretendo retomar isso depois) com uma longa sequência de relações conturbadas com amigos, família e namoros — cujas variáveis pra construção desse quadro em mim só fui entender muito tempo depois — e o resultado foi o diagnóstico que me levou a iniciar o acompanhamento com um psiquiatra e medicações, além da psicoterapia.

Doloroso como foi, esse período me permitiu repensar muitas coisas na minha vida, em especial na relação comigo mesmo e com os outros. Aprendi a dizer basta, tanto para os que me faziam mal, como para minha insistência em achar que podia dar conta das coisas sozinho ou de que apenas pelo meu esforço faria as coisas darem certo (um combo de gastrite, esofagite e duodenite provaram o contrário). Revi profundamente meu conceito de amor e de relações (de qualquer sorte) que eram pautadas no quanto só considerava “dignos” de meu amor aqueles/as que se comportavam segundo meu código moral pessoal do livrinho “como ser familiar/amigo(a)/namorada do Luccas”. Passei a aprender a amar as pessoas e, tão importante quanto, a reconhecer a importância de falar disso pra elas e sobre isso, também. Outro aprendizado importante foi o de passar a respeitar mais as minhas limitações de repertório e a dos outros e reconhecer que, em qualquer momento e circunstância, o que sai é exatamente o melhor que poderíamos ter feito (o que não deve impedir a busca por fazer diferente e comparar os resultados - mas não deve implicar em ter fracassado ou falhado anteriormente). Além disso, foi fundamental entender que eu até posso ter algum efeito sobre os comportamentos dos outros, mas a melhor aposta para lidar com as angústias pessoais e o que me incomoda nos outros é sempre na ampliação do próprio repertório — seja de enfrentamento, seja de reavaliação do desconforto.


Os efeitos disso foram diversos. Consegui sair do momento mais agudo da depressão e passei a questionar e continuo questionando muitas regras minhas, bem como as “verdades” desse sistema, ainda em decorrência desse período. No entanto, talvez o principal efeito foi me permitir entrar em contato com sentimentos que eu tinha passado um bom tempo tentando fazer desaparecer e a “ouvir” o que eles tinham a “dizer”. Disso vieram questionamentos e críticas sobre a maneira como nos relacionamos, o que permeia essas relações e quais as explicações damos para esses fenômenos. Ainda que travando esse debate cotidianamente na graduação de Psicologia, as respostas sempre pareciam carecer de algo. Embora acenassem para a importância de uma leitura não patologizante e/ou individualizante, as contradições a esses discursos eram frequentes.

Tais contradições denunciavam o que talvez seja um dos maiores equívocos da Psicologia, ou, pelo menos, de como ela foi ensinada — na maioria do tempo — nas instituições pelas quais passei e nos contatos que tive com outros/as graduandos/as e graduados/as: a Psicologia cada vez mais se descola de maneira alienada do seu berço histórico. E isso, por si só, já explicita o conflito: a Psicologia aparenta esquecer que surge e se consolida no capitalismo e a serviço do Capital. O perigo de não reconhecer isso já se transformou em prejuízo real e é evidente no como a lógica individualizante (ainda que sempre dizendo que devemos levar em conta o meio/cultura/social ou qualquer termo de escolha para entender o ser humano) e patologizante está enraizada no olhar que a Psicologia lança sobre o mundo e sobre as pessoas e seus comportamentos.

Isso pode parecer exagerado num primeiro momento, mas não é preciso ir muito longe para constatar que a descrição de boa parte dos quadros de sofrimento — seja a dos manuais ou a dos discursos “holísticos” — faz recortes individualizantes e reprodutores da violência patologizante. Ainda que possa considerar efeitos que condições objetivas e materiais de vida têm (como quando fala da escola, do emprego, das relações sociais, etc) é muito incomum que a Psicologia se lance a entender os porquês dessas condições se constituírem como fonte de sofrimento. É preciso entender que há uma premissa essencial para o que será definido como sofrimento, desajuste ou patologia na nossa sociedade: a inabilidade de desempenhar adequadamente seu papel de mão-de-obra e/ou de consumidor. Embora não seja a única variável, não consigo ver hoje, condição de sofrimento humano que não seja profundamente atravessada por essa prerrogativa. A solução para isso costuma passar, portanto, por todo um esforço de readequação e conformidade (belamente apresentada como resiliência, muitas vezez) ao status continuamente aversivo do sistema em que vivemos. Com isso, questões cruciais deixam de ser levantadas. Quem estabelece os critérios de normalidade/sofrimento? Com que recorte? Baseado em qual cultura/grupo? Fazem-no sob égide de quais teorias que, por sua vez, fizeram quais recortes e baseadas em quais culturas e autores?

Aliado a isso, o discurso excessivamente individualizante que costuma perpassar o conceito de subjetividade reforça essa leitura superficial do comportamento humano. O ser humano é tão “unicamente único” que não é surpreendente que as leituras e intervenções acabem por descolá-lo completamente da construção dos modos de se relacionar impostos pelo capitalismo. É fato que nenhum ser humano é igual ao outro, o que não quer dizer que não operemos sob lógicas similares, produtos de exposição contínua e transgeracional a uma determinada ideologia, por exemplo. Ao mesmo tempo, negar que essa ideologia incide de maneira diferente sobre diferentes grupos e “coletivizar” os parâmetros de sofrimento para se chegar a um diagnóstico parece ser um vício que a Psicologia não largou da Medicina. Caso você já tenha estudado ou estude Psicologia, pergunte-se a frequência com a qual os fenômenos que você estuda são apresentados com recorte de gênero, cor, classe social (esse ainda é um dos que mais aparece) e cultura? Uma mulher sofre os impactos do capitalismo da mesma maneira que um homem? Um homem gay da mesma maneira que um homem hetero? Uma mulher negra, da mesma maneira que uma mulher branca? O índio ou o migrante, da mesma maneira que um local não-indígena? E, ao ser constatado que não, quão longe a Psicologia está disposta a sair de sua zona de conforto para confrontar a realidade de que o sistema em que vivemos se alimenta de sofrimento, o produz e cria os dispositivos para legitimá-lo e justificar sua violência? Felizmente, para além da forma mercadológica (a famosa preparação para o mercado ou o atendimento às demandas do mercado que tanto ouvimos durante a graduação) de ensino, existem importantes espaços de resistência a essa lógica, mas que têm muito mais dificuldade para produzir e apresentar esses necessários debates por conta da pouca atenção que recebem.

O mais importante aprendizado que tive com a minha depressão foi, certamente, o de aprender a olhar para mim, para o outro e para o sistema em que vivo — entendendo que os três são indissociáveis e reciprocamente influenciáveis. Ao reconhecer posteriormente que me faltava repertório para lidar com as condições que me levaram a depressão, por exemplo, o que — em um primeiro momento — cairia facilmente em um discurso, ora culpabilizador, ora de “preciso aprender a aguentar melhor as patadas”, pôde ir além e identificar que, no modelo capitalista, habilidades que seriam essenciais para relações de afeto saudáveis e amorosas são intencionalmente distorcidas, secundarizadas ou ignoradas. Não é mera agitação dizer que o capitalismo vende segurança ao custo da violência, individualidade ao custo da coletividade e sofrimento às custas de nossa saúde. Isto, invariavelmente, implica em privilegiar habilidades sociais de relacionamento afetivo, acadêmicas e profissionais voltadas para a especialização da mão-de-obra e garantia do lucro e não, da interação comunitária e solidária uns com os outros e consigo.


É urgente a necessidade de uma refundação da Psicologia para dar espaço para uma ciência pautada em uma leitura dialética, não individualizadora e despatologizadora da vida. Tal tarefa é impossível se essa Psicologia não só questionar o quão profundo é o enraizamento do Capital nos fenômenos que estudamos, como também se não se propuser a enfrentá-lo. A luta antimanicomial é a luta contra a lgbtfobia, contra o racismo, contra a misoginia, contra qualquer forma de conformação da complexidade humana a simples métricas de desempenho técnico ou da capacidade de manter esse sistema opressor funcionando. Deve, portanto, ser prioridade na atuação do/a profissional de Psicologia, tornando-se cada vez mais intensa, denunciando e enfrentando essas violências, através do resgate do senso de comunidade, de coletividade, de solidariedade e de um amor que liberte, ao invés de aprisionar. O tal vazio apontado por tantas teorias da Psicologia pode, talvez, ser a constatação da impossibilidade — porém continuamente tentada — de se conformar e ser saudável em um sistema para o qual nossas vidas são meras moedas de troca.