A ordem simbólica das coisas: rap e privilégio branco

Acredito que seja um tema urgente, nada pretensioso na escrita, mas um tanto necessário. Existe muito alvoroço em torno da discussão sobre “apropriação cultural” ultimamente, muita gente fala, um tanto discorda, quase sempre esbarra no raso, pois a questão é um tanto complexa e não vai dar para falar sobre, só replicando opinião de internet. É extremamente necessário discutirmos racismo dentro desses espaços, mas precisa ser um debate sério, dentro do rap, poucas pessoas se propõe a fazer isso, devido a diversos fatores. Desde o mito da democracia racial inato do brasileiro médio, existe também a burrice, ou simplesmente uma preguiça congênita…

O rap é gigante muita gente faz parte, inclusive brancos, alguns fazem um ótimo trabalho, são realmente muito bons no que fazem. Porém, o rap em sua raiz, como parte da cultura hip-hop é algo negro, acredito que isso seja um consenso. A partir disso, cabe estabelecer a maneira que a estrutura social lê alguns indivíduos, para entendermos algumas diferenças gritantes, que não cabem em algumas cabeças, talvez pelos mesmos motivos que citei ali em cima. O racismo estrutura as relações sociais em diversos âmbitos, não seria diferente na realidade do último país a abolir a escravidão no mundo, não vai ser o rap, mesmo “genuinamente” negro, que vai fugir dessa realidade. Logo, é um tanto ingênuo presumir que dentro desse espaço somos todos iguais e que a cor da pele ou a textura do cabelo não influencia na maneira que o mundo lê esses corpos e define seu espaço no mesmo. Já que o racismo funciona justamente a partir do fenótipo, existe sim uma diferença entre ser um branco ou negro dentro do “rap game”, dentro da minha cabeça isso é bem obvio, mas em algumas tantas outras não, talvez esse seja o motivo do texto. É extremamente toxico para a cultura e seu desenvolvimento, não entendermos que marcadores raciais e sociais definem muita coisa na estrutura do mundo, e consequentemente na realidade do rap, que envolve sucesso, carreira, dinheiro e poder.

Então o rapper branco, mesmo sendo muito bom e competente no que faz, que conseguiu alcançar sucesso e visibilidade com o seu esforço e trabalho, não chegou nesse estagio apenas por isso, não é demérito. Mas, existe um arranjo sistêmico, que funciona além da sua opinião particular, que determina dentro de uma universalidade, o branco como normatividade. Isso é um privilegio, que está intrínseco à estrutura racista da sociedade, não é culpa de fulano ou de ciclano. O exercício não é apontar culpados, mas sim estabelecer um debate que nos proporcione avançar em pautas, que nem deveriam ser pautas, mas a realidade não é escrita com lápis de cor. O espaço confinado aos negros após a racialização de seus corpos e consequentemente da escravidão, historicamente não é o do protagonismo. Na realidade brasileira isso é nítido, no trabalho e nas relações sociais num geral, não seria diferente no rap. Me preocupa ver fã de rap, defendendo que o jogo é meritocrático, que não tem um par de coisa além disso. O rap é compromisso, mas é também sentar a bunda na cadeira e ler um monte de material que tem disponível para entender a dinâmica das coisas e ouvir o que o Mano Brown fala a no mínimo uns 20 anos. O rap comporta inúmeros discursos, de diversas origens e propósitos, mas não acredito que comporte o discurso mesquinho de reduzir um problema histórico e estrutural a vitimismo.

QUEM É, É. QUEM NÃO É CABELO AVOAA