a Porta

Faz um bom tempo que eles estão ali, parados
em frente à porta, de mãos dadas
mais curiosos, que apreensivos,
ansiosos, mas hesitantes.
A porta, imponente e inabalável:
nem uma frestinha antecede o porvir
nem um só som por detrás se faz ouvir.
Paira apenas um ruído de grãos de areia caindo
dentro da ampulheta imaginária - o tempo urge
a alma se agita, não se pode mais adiar.

Há que ter coragem para fazer escolhas
- ouvir e agir com o coração. Então eles se entreolham
e como duas almas antigas e amigas
entendem o que precisa ser feito.
As mãos se desenlaçam, e juntas
empurram a porta, que suavemente desaparece.
À frente, um caminho
largo o suficiente para que cada um
ande seu passo, no seu espaço;
mas não tão largo que a amizade os perca de vista.

Foi uma bela viagem até aqui, e continuará sendo
paisagens diferentes trazem belezas diferentes…
Todo viajante quando sai de casa
não sabe bem o que busca
mas descobre o que é quando encontra:
de repente está lá: a porta.
Não é a porta que ele busca,
tampouco o que está além dela
é sim, a certeza cristalina que está no coração
mas que ao longo da jornada foi sendo esquecida
uma força interior que ele nem sabia que possuía.

Há que ter coragem para abrir a porta
porque o que vem a seguir ninguém sabe
pode-se até intuir, mas enquanto há incerteza, há ilusão
e muitos preferem esse ópio
ao êxtase da realidade.
O bom viajante segue sua bússola interna
e sabe que o caminho é temporário
só ou acompanhado, na verdade,
todo viajante é um pouco sozinho.

E, da porta que juntos abriram, e se esvaiu ao ser tocada
ficou o portal, uma moldura do vazio
não um vazio do esquecimento ou do inexistente
mas um vazio de todas as possibilidades.