Carta ao Inverno

Lucelia Oshiro
Jul 10, 2017 · 2 min read

Então você veio de verdade!

Um frio na espinha, um gemido abafado, uma voz calma e um abraço aconchegante. Foi só você aparecer, e junto veio a vontade de passar a tarde de domingo embaixo do cobertor, o velho clichê “pipoca e chocolate quente”! E também a vontade de ficar perto, bem perto, e cada vez mais perto e por mais tempo…

O Outono deu-me a chance de me re-conhecer, reaprender a ser. Você, Inverno, traz o imperativo de me recolher, interiorizar, para que eu possa verdadeiramente me transformar.

Quando te olho, te percebo sereno: um semblante que não é o mesmo frio cortante dos ventos noturnos, mas uma expressão indecifrável de calma, paciência, espera, esperança. Você me convidou e eu aceitei: sentir um dia por vez, sem pressa, sem pensar, sem pesar; e com simplicidade observar o que passa e o que fica.

Enfim, ao fim desses três meses, de algum modo você continuará intrínseco na semente que a Primavera verá brotar. E as histórias que vivemos nesses dias todos, estarão em modo “looping” na memória, reiterando quem eu serei, definitivamente.

Se bem que nada é para sempre; tudo é mutável e cíclico. Quando você se for, então virá a Primavera, e o Verão e o Outono; então eu já não serei mais a mesma que você conheceu. E quando, no próximo ano, você me reencontrar, será que ainda vai gostar de mim?

Caro Inverno, que traz tantas reflexões à tona, que reflete minha essência, repele meu medo, que me deixa, cansada, repousar em seu ombro, e ao mesmo tempo me impele a tomar fôlego e re-acreditar em sonhos… ah, querido Inverno, agradeço pelas noites claras de frio revigorante, pelas noites em claro de calor desconcertante, pelos dias leves de brisas sorridentes, e pelas tardes sanguíneas de silêncio e poesia.

Lucelia Oshiro

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Pra mim, escrever é uma maneira de entrar em contato com meu eu interior, e compartilhar com os amigos um pouco de quem eu sou.