Plano Piloto


Essa noite foi por pouco. Não consigo acreditar que continuo vivo. Na verdade, não consigo acreditar que continuo vivendo. Não consigo acreditar que continuo vivendo nesta cidade que nasceu à frente de seu tempo planejada para um futuro que nunca chegou em um passado tão remoto que nem mais notícias se tem.

Ontem saí por aí. Estava cansado de ontem, de anteontem e tantos outros ante-ante-ante. Talvez o encontrasse. Percorri todo o eixão em direção ao plano piloto. Cada dia se torna mais difícil sair das asas. Antes de chegar ao eixo, precisei me apresentar algumas dezenas de vezes. Todos os dias eu passo ali. Todos os dias estão as mesmas pessoas, os mesmos guardas e os mesmos prompts. Nenhum, ninguém, nada, me, reconhece, nunca. Nem eu tenho me reconhecido nos últimos anos. Não sei de onde vim, só sei que estou aqui. Estou aqui paralisado nesta cidade que não deixa eu me sentir, preso em uma época em que não vivi, graças ao tombo que deram nessa droga de lugar assim que ele nasceu, sabe-se lá há quanto tempo. Até um templo aqui tem. Pra quê?

Sair da asa é tão complicado quanto pegar um carrilho-flutuante. Preciso me identificar duas vezes, mostrar meus dois olhos, meus 20 dedos, passar três chips e ainda cumprimentar os guardas com o aceno circular. Preciso mostrar que estou de acordo com o partido. Ou ao menos demonstrar. Sei que está se partindo. Quero que parta.

Quando finalmente consegui sair da minha asa, não sorri para ninguém nem nada. Não precisa. Até ontem eu ainda alimentava a ideia de que essa amnésia curta-duradoura que abala nossa população teria um fim em breve. Mas não. Dois dias e a memória pluft! Parece que é assim em todos os cantos. Até os ecrãs repetem a mesma programação como se fosse inédita.

Encontrei Ralf-Z, meu único amigo, e, aparentemente, o único além de mim que não foi tomar a vacina naquele dia em que o planeta viraria de cabeça para baixo.

Entramos no chão. Há mais ou menos dois anos descobrimos essa porta redonda no meio do eixão. Descobrimos galerias e novos caminhos e marcamos por onde caminhamos. Percorremos a cidade inteira por ali, embaixo de tudo que encosta e não encosta no chão. Ali podemos ser quem quisermos, fazer o que quisermos e, de uns tempos para cá, discutir o que fazer para a situação voltar ao normal — e, lógico, conversarmos, algo que se torna impossível em uma sociedade sem novidade. As pessoas chegam no trabalho e o que tinham que fazer já está feito. Então voltam a simplesmente fazer de novo. Parece programado. Não sabemos o que fariam conosco caso notassem que notamos que ninguém nota.

O tempo parou embora continue correndo. As máquinas estão arredias. Elas devem saber de algo.