Waitangi Day em Wellington


Nosso primeiro dia em Wellington foi especial, assim como viriam a ser os próximos. Chegamos em um sábado, dia 6 de fevereiro, quando se comemora o Waitangi Day, que é o dia em que vários líderes maoris e representantes da coroa britânica assinaram o Tratado de Waitangi, em 1840, tratado esse que visava garantir alguns direitos, tanto da parte dos maori quanto da coroa britânica principalmente em questões de domínios. O tratado daria aos maori o direito de serem tratados como súditos britânicos, e o direito de manter o domínio sobre suas terras, enquanto que os ingleses recebiam direito sobre o país e não precisariam mais batalhar constantemente contra os maori para conquistar as terras que pretendiam cultivar e onde queriam se estabelecer. Alguns chefes maori viram no tratado um fim para a rivalidade entre as diferentes tribos, e alguns também estavam cansados de tanta guerra. Como muitos neozelandeses nos disseram, até hoje a Nova Zelândia batalha para manter a promessa do tratado, mas a população maori vê muitas quebras das leis do tratado. De qualquer forma, é uma data histórica nas relações entre os maori e os Pākehā (os não-maoris), e o país se orgulha ainda hoje e busca respeitar a cultura maori e promover o bom relacionamento entre suas diferentes culturas. Em muitos casos, e salvando as exceções, o país tem conseguido, até certo ponto, manter uma coexistência amigável. Waitangi Day, entretanto, é palco de diversos protestos e embates com a polícia, principalmente por ser uma plataforma para reivindicações de comunidades que vivem em condições bem complicadas. De qualquer forma, é um marco importante na história neozelandesa, e foi muito legal estar no país para viver um pouco desse feriado.


Ao chegarmos, a cidade nos recebeu com uma brisa muito bem-vinda. Depois de uma semana de calor intenso em Napier, Wellington, a cidade dos ventos, oferecia um alívio. Depois de nos instalarmos na acomodação, fomos caminhando até a beira da água, onde ficava o antigo porto mas que hoje é uma área de lazer bem no centro da cidade. Achei interessante que ali se pode nadar, mergulhar, saltar, tudo. A água é limpa e convidativa, bem verdinha, além de ser bem rasa. No waterfront de Wellington é possível encontrar ciclistas, corredores, feirinhas de artesanato, pessoas andando de kaiak, de dragonboat, alguns nadando, outros pulando na água (tinha até uma competição informal para ver quem dava os pulos mais bonitos), algumas pessoas tomando um chopp preguiçoso em pufes de frente para o mar, alguns artistas de rua fazendo seu show, pessoas andando de patins, crianças se babando com sorvete (e alguns adultos também), enfim, de tudo. Ali, uma das áreas mais democráticas de Wellington, vimos de tudo, turistas a wellingtonians, pessoas de todo o lugar fazendo as mais diversas coisas, e tudo isso extremamente centralizado. No meio disso tudo, o museu Te Papa, o melhor museu do mundo (ao meu ver), mas ele merece um texto especial :)


Perto do Te Papa passamos e vimos um artista de rua japonês fazendo uma performance. Ele era muito engraçado, até engraçado demais, e começamos a desconfiar que não fosse fazer nenhum truque, mas no final ele não deixou a desejar e fez acrobacias fascinantes. Depois do show, ele pede que as pessoas contribuam para que ele possa continuar fazendo o seu show e ganhando seu pão. Várias pessoas contribuíam generosamente, tentando assim manter viva essa característica tão peculiar de Wellington, a dos artistas de rua. A cidade patrocina, ajuda, incentiva, e é uma das poucas no mundo que faz isso. É através dessas ações que artistas assim conseguem continuar a praticar sua arte mesmo em tempos em que tudo vira produto, em que a arte em alguns lugares fica encapsulada atrás de uma redoma de vidro cara e inacessível.




Depois do show, fomos circundando o Te Papa, até que chegamos ao Waitangi Park, um parque na beira do mar onde estava acontecendo um festival de música em homenagem ao Waitangi Day. A banda no palco misturava músicas em maori e inglês, e essa era a mesma mistura do público. Foi muito legal relaxar ali na grama ouvindo uma música boa e cercada de pessoas na maior paz curtindo esse dia que talvez, em sua essência, queira isso mesmo, a paz e a boa convivência entre os povos, se não todos os dias, pelo menos nesse 6 de fevereiro.



