A obsessão nacional

Seria presunçoso de minha parte tentar discorrer sobre os problemas do esporte no Brasil, apesar de ter minhas opiniões, minha falta de conhecimento sobre o assunto, me levam a apontar aquelas questões batidas e mais óbvias, falta de incentivo de base, formação, estrutura, etc. Questões que podem ser bem melhor debatidas por especialistas na área. É importante, porém além dos problemas estruturais discutir o papel da mídia frente o panorama do esporte nacional. Uso como exemplo aqui a televisão pois este é o principal meio pelo qual acompanho — quando o faço, meu interesse é intermitente, confesso — discussões esportivas, porém, muitas características transpõem-se para outros meios. Durante estes jogos olímpicos, assim como em inúmeras edições anteriores assisti jornalistas, comentaristas, ex-atletas, convidados e todos aqueles que fazem parte das transmissões e discussões esportivas debaterem o tema: como fomentar o esporte no Brasil. As discussões, porém, raramente chegavam ao papel da mídia nesta equação. Quando chegavam, os jornalistas e comentaristas ao serem confrontados com o porquê da extrema concentração midiática no país no futebol masculino, rapidamente davam uma lista de motivos, econômicos geralmente, para eximir-se da responsabilidade e culpar unicamente o público. Público que viabilizava economicamente a apresentação da liga de futebol do Quirguistão, mas não a apresentação de outros esportes — a exceção daqueles com seu nicho já garantido no país, como Fórmula 1 ou tênis, etc.

Tomo como exemplo a ESPN, por considera-la não somente um pouco mais independente politicamente em relação a determinados grupos de confederações esportivas, mas por ter jornalistas e comentaristas muito bons, como Juca Kfouri e José Trajano, que é um ranzinza, mas um ranzinza bom no que faz. No dia em que a seleção masculina de futebol ganhou o ouro olímpico vi o esforço hercúleo que Trajano teve no programa Linha de Passe em tentar desviar a atenção do feito que todos concordavam não ser expressivo do futebol, nem solucionar os problemas os quais passa o futebol nacional, para outros esportes, e para o desempenho geral dos representantes brasileiros na Rio 2016. Em vão. Além de comentarem sobre a mediana campanha do selecionado de futebol, seus companheiros de bancada dissecavam cada ato presente e passado da recente trajetória de Neymar fora dos campos. Suas atitudes de empáfia tomam proporções gigantescas pela obsessão destes profissionais em responder e analisa-las — e tomo aqui este caso e a ESPN de exemplo, mas o mesmo acontece em diversas mesas redondas “esportivas”.

As aspas que fecham o parágrafo anterior, introduzem a este pois boa parte dos comentaristas esportivos no brasil, não são na verdade comentaristas esportivos e sim exclusivamente de futebol (cabe também separar o comentarista do repórter). Isso não significa apenas que eles não entendem muito sobre outros esportes, mas que eles não têm o menor interesse nestes, frequentemente eles demonstram um total enfado com outros esportes. O clima pós olímpico em programas esportivos é sempre “agora podemos voltar ao que interessa”. Veja bem, não estou falando que todos são assim, existem comentaristas que entendem bastante, e se mostram tão ou mais empolgados em poderem falar de outros esportes. Mas o comentarista médio, aquele que não é setorista, mas sim pau pra toda obra nos noticiários e transmissões esportivas televisivos, em canais como SporTV, ESPN, FOX Sports, além de Band, e outras redes que contam com programação esportiva, possui uma obsessão juvenil por futebol (como aqueles meninos de 10 anos naquela fase em que alguns guris passam o dia todo jogando bola, só entravam em casa pra comer e dormir, depois de muitos berros da mãe). Por isso, mesas redondas televisivas diárias passam de 30 a 50 minutos discutindo a melhor formação para o meio campo do Corinthians ou Flamengo — não entro aqui no viés geográfico RJ-SP de tais programas nacionais, pois não é este o objetivo. Isso não quer dizer que tais comentaristas de futebol sejam necessariamente ruins, mas é sempre mais do mesmo.

Esta relação obsessiva com o futebol se transfere ao público, como já foi dito antes, é o paradoxo Tostines, não se sabe se o desinteresse do público ou o desinteresse da mídia vem primeiro. Modificar este cenário é bastante difícil, pois há toda uma cultura envolvida nestas práticas midiáticas, mas possível se houvesse comprometimento dos atores da mídia de massas em formar públicos — caso do voleibol no Brasil é um exemplo de sucesso desta formação, e que há anos colhe os louros, tanto na categoria masculina, quanto feminina, além de ter um público cativo. Uma maior diversificação das redações esportivas seria não apenas uma questão de justiça, mas saudável para a mídia esportiva. Quanto menos tais grupos se parecerem com um clube exclusivo para profissionais homens, brancos e heterossexuais, não apenas teremos pontos de vista diferentes, como diminuirá a fetichização sobre a mulher no esporte, o que também incentivará mais meninas a praticarem determinadas categorias — ainda outro problema profundo e bastante em evidência nas olimpíadas.

É verdade que evoluções aparecem na mídia esportiva, o programa esportivo cheio de piadas de mau gosto, opiniões preconceituosas (sobre tudo) e fanatismo ridículo perdem gradualmente espaço para discussões mais polidas e equilibradas, embora o nicho dos “velhos gritões” ainda seja firmemente institucionalizado em diversos veículos. Porém é preciso mais, é preciso modernizar a mídia esportiva no país, tanto quanto modernizar a gestão esportiva, senão continuaremos no eterno looping pré e pós olímpico, com as mesmas falhas e as mesmas discussões. Assim como passaremos os próximos dez anos indignados com os modos e atitudes do Neymar, assim como já foi feito com Ronaldos, Romário, etc etc etc.

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