Como padrões de beleza prejudicam mulheres no mercado de trabalho
Em seu livro “O Mito da Beleza”, Naomi Wolf aponta como os padrões de beleza vêm sendo impostos cada vez mais. Para ela, essa imposição é uma reação à conquista de direito das mulheres, ganhando mais força à medida que mulheres conquistam maior acesso a espaços. As normas de beleza, disfarçadas de “liberdade” e “escolha”, são a nova forma de garantir o poder masculino.
“A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer, sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino.Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical,de acordo com um padrão físico imposto culturalmente,ele expressa relações de poder segundo as quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram.” Naomi Wolf, O Mito da Beleza
E, ainda,
“À medida que as mulheres iam exigindo acesso ao poder, a estrutura do poder recorreu ao mito da beleza para prejudicar, sob o aspecto material, o progresso das mulheres.” Naomi Wolf, O Mito da Beleza
Dentro do ambiente de trabalho, mulheres têm sido forçadas a se vestirem com roupas desconfortáveis, a usarem maquiagem, saltos e determinado tipo de cabelo. Pela lei, a exigência é permitida desde que não seja discriminatória, mas, na prática, mulheres consideradas “feias”, “mal arrumadas” ou “sensuais” demais perdem seus empregos por não estarem dentro das exigências da empresa. Além de tudo, tais exigências são extremamente racistas. Mulheres negras, com cabelo crespo, encontram dificuldades para conseguirem trabalho, são despedidas ou até mesmo forçadas a se adequarem, como foi o caso da estagiária Ester Elisa da Silva Cesário, que acusou os superiores de afirmarem que seu cabelo crespo e seus quadris iam contra as normas de “boa aparência”. Por trás desse rótulo de “boa aparência”, estão escondidos preconceitos e discriminações.
A liberdade masculina fica clara dentro do local de trabalho, sendo a imagem de um homem mais velho, com cabelo grisalho e rugas ao lado de uma jovem moça com rosto e corpo simétrico um novo paradigma dentro desse ambiente. Isso demonstra a valorização da experiência masculina e da aparência feminina, ficando ainda mais evidente na mídia, nos telejornais
“A mensagem da equipe do noticiário, nada difícil , é a de que um homem poderoso é um indivíduo,quer essa individualidade se expresse em traços assimétricos, rugas, cabelos grisalhos, perucas, calvície, pele irregular, formas atarracadas, quer em tiques faciais ou papadas; e que a sua maturidade faz parte do seu poder. Se um padrão único fosse aplicado aos homens, como é às mulheres, no telejornalismo, a maioria deles perderia o emprego. No entanto, as mulheres ao seu lado precisam de juventude e beleza para chegar ao mesmo estúdio.A juventude e a beleza, recobertas de uma sólida maquiagem, fazem da apresentadora um ser genérico — um“clone de âncora” como diz o jargão do setor. O que é genérico é substituível. Com a beleza e a juventude, portanto,a mulher que trabalha fica visível e insegura, com a percepção de que suas qualidades não lhe são exclusivas. No entanto, sem elas, ela se torna invisível e sai literalmente do ar.” Naomi Wolf, O Mito da Beleza

Além de tudo, mulheres são vítimas de assédio constante em seus serviços e levam a culpa pela aparência, pelo modo como se vestem. Esse foi o caso de Debrahlee Lorenzana, despedida por ser “sexy demais”.
Assim, corpos e comportamentos femininos são manipulados por toda uma instituição patriarcal. Não existem escolhas quando há uma imposição da performance da feminilidade. Estamos, a todo momento, sendo tratadas como objetos moldáveis para satisfazer necessidades masculinas, enquanto uma indústria bilionário lucra com o que chamamos de “liberdade”.
