Das coisas que mais gosto

Sempre gostei de histórias.

Sou capaz de me entreter com qualquer enredo, me compadeço atráves de lágrimas e sorrisos. Não me envergonho de colecionar livros de auto-ajuda e claro, melo drama, mas são das histórias reais que gosto mais. Dos encontros e olhares curiosos sobre o que o outro diz. Da voz e dos trejeitos, tudo isso diz muito sobre uma pessoa.

Da conversa no ônibus com a Dona Neusa. Do café do Mauro, virando a esquina do trabalho e de Seu Cícero, guardinha da rua.

De todas as pessoas que conheci ou que atravessaram minha vida por instantes, meus ouvidos foram atentos e leais.

Sei que alguns exageros são necessários para apimentar o enredo. Comovo-me em excesso, é verdade. Tenho uma amiga, meio irmã, que ri de si mesmo enquanto conta os maiores problemas de sua vida com sorrisos fartos. Ela não sabe, mas em cada trecho encontro mais leveza e energia para continuar com os meus fardos, ou com as paranóias que apelidei de problemas.

Ela tem uma esperança genuína quando diz que “tá tudo bem”. Eu apenas acredito. Sei que no fundo, bem lá no fundo, ela se abala, mas de uma maneira divina, a sua falta de sorte me entretém, e nesse elo nossa amizade se fez e se refaz. Dia após dia.

Temos que encarar a vida com humor. (Acho)

Ela me ensina isso - todos os dias.

Alguns acham que um drama serve apenas para chamar atenção, se é que podemos chamar isso de “apenas”. Confesso que nem sempre meus dramas me levam a alcançar tal objetivo, mas um pouco de manha me cai até bem. E por este motivo, aprendi que o que dói em mim, pode não doer no outro. Precisamos ser mais gentis com a dor alheia.

Muitas vezes gostaria de ser a mulher que não se abala, mas nem sempre me condeno quando o mundo me pede para ser forte e eu quero mesmo é continuar sendo frágil. Faz parte da minha essência, ou pelo menos é a mentira que escolhi carregar como minha verdade.

Acho bonito guerreias que não perderam sua ternura. Ter o coração forte não significa deixar o drama de lado. Não acredito que força, choro e fragilidade sejam coisas de gente fraca.

Sofro de inveja súbita por quem consegue deixar para lá o que, às vezes corrói demais no agora. Não consigo dormir engasgada com um amigo, chateada com meus pais ou com qualquer coisa que me impeça de ficar e ser mais leve.

A verdade é que me importo e acredito que estejamos todos conectados. E se não estamos, deveríamos estar.

Mesmo que eu siga os gurus mais recomendados do astral, paz e amor é uma coisa para controlar no dia a dia, como remédios tarja preta e abstinência de qualquer coisa que você adore muito. Não alcancei o desapego, nem consegui deixar livre as pessoas que amo. Eu amo e me apego, não sei agir de outra forma.

Viro uma espécie de fã da pessoa. Porque a vida real daquela pessoa me interessa. Esse é meu jeito de demostrar afeto.

Na história dos outros é que me sinto dentro de alguma parte, como quem procura gente da gente.

Manicure e porteiros são meus amigos e aliados. Gente é como um vício para mim. Às vezes, somos mais íntimos das pessoas que cruzamos do que em anos de amizade com alguém que não se deu por inteiro.

Trocar vivências é uma das coisas que mais gosta na vida.

Acredito nas almas que se encontram para coisas breves. Foi assim que conheci Ana, uma moça linda de 46 anos, que acabara de se separar e estava completamente sem rumo.

Eu poderia ser Ana, principalmente ao chorar pela perda e pela confusão que um grande amor nos deixa quando acaba. E poderia ser Ana, depois, recomposta e refeita, jurando não comenter os mesmos erros.

Quando pequena conheci uma aero moça, em 15 minutos estava convecida que queria ser igual ela. Ano passado conheci uma atriz, também me pareceu maravilhosa a vida dela. Muitos papéis e histórias numa vida só.

Todas essas pessoas são pontes. Cruzam nosso caminho sem querer e em breves encontros deixam vida, duvidas, ideias e sorrisos.

Graças a uma força maior podemos nos tornar diferentes ou iguais, porque cada encontro nos modifica.

Ouvintes ou falantes. Eu sei que é bom ser protagonista da própria vida, mas é maravilhoso ter aparições na vida alheia. Fazer brotar algo no coração de quem se encontra por ai…

A gente transforma alguém no dia a dia com uma palavra de apoio, um olhar de cumplicidade ou apenas segurando a porta do elevador quando seu vizinho estiver chegando com as compras do mês.

Gente que não gosta de gente, não deve gostar da vida.

Talvez você não quisesse ser Ana e nem goste tanto da história dela, mas vai sempre existir alguém para te inspirar e alguma história que você queira viver, ou apenas participar, com real interesse.

Porque a gente guarda esses pequenos afetos da dia a dia como lembrança de fé. Já que não estamos sozinhos e essa cidade habita sei lá quantas pessoas, seriamos todos melhores se pudéssemos ouvir mais histórias e se compadecer com elas.

Então, obrigada mundo, por você existir, seja lá quem você for. Obrigada por ter passado pela minha vida e por modificar a minha forma de ver o mundo.

Pode até ser que palavras sejam apenas coisas, mas histórias sãos nossos maiores bens.

Ninguém rouba o que a gente vive. E ninguém rouba o que a gente é.

Espero lhe encontrar na próxima esquina.