Criança, não. Bandido.

Claro que é assim que muitas pessoas estão se referindo ao menino morto nesta semana pela polícia, em São Paulo. Ele entrou em um carro, saiu dirigindo com o colega ainda mais novo que ele e foi embora, fazendo algo que ele estava acostumado: um crime.

Ao longo de sua curta vidinha de dez anos, o garoto já havia cometido várias infrações, foi recolhido, fugiu. Mãe, ex-presidiária, solta há pouco tempo. Pai, ainda preso.

Criança, não. Bandido. Não tenho dúvidas que tenha cometido delitos anteriores. Pode ser que na ocasião que foi morto estava armado mesmo, ainda não se sabe. Pode ser ainda que tenha tentado balear o policial que se protegeu e revidou. Pode ser que em uma noite qualquer, se você ou eu nos deparássemos com ele, ele atirasse sem dó nem piedade porque, afinal, ele aprendeu assim. Normal.

É aí que está o grande questionamento da coisa. Eu não julgo a ação policial, deixo isso para a polícia fazer. Pode ser que o policial tenha feito a coisa certa, afinal, tem horas que é matar ou morrer nessa profissão. Mas questiono porque uma criança de dez anos já é um bandido.

Estamos falidos socialmente. Politicamente. Humanamente. É absurdamente clara a situação de abandono de muitas crianças. Se não estão vagando pelas ruas, sem qualquer chance na vida, recolhendo lixo e resto para comer, pedindo ou mesmo matando, estão em lares em que os pais se agridem, usam drogas, já se perderam. Muitos porque foram crianças como eles, sem perspectiva nenhuma.

Esse ciclo desvirtuado não te parece óbvio? A mim, parece. A criança nasce na favela, quando não na cadeia, porque a mãe está presa e já nas primeiras horas de vida vai precisar lutar para sobreviver. É assim seguirá por quanto tempo ela conseguir.

Há mais de vinte anos, meu irmão perdeu um grande amigo, assassinado por dois menores. O crime é hediondo, repugnante, uma família destruída, sonhos perdidos. E volto a pergunta: por que dois menores se tornaram bandidos? Porque chegaram aonde chegaram?

Estamos todos os dias vendo a bandidagem política. Há corrupção em todos os níveis de cargos. Verbas desviadas. Zilhões roubados. Impostos que não chegam ao seu verdadeiro destino.

E tem a bandidagem nossa de cada dia também. Pequenas corrupções como bem descreveu uma mulher simples em um vídeo apresentado no Caldeirão do Hulk. Desvios de verbas de empresas. Colocar valor a mais em nota de táxi ou almoço para ficar com o “troco”. Comprar cd pirata. Baixar programa para assistir a vídeos de forma ilegal. Gatonet. Usar a internet do vizinho. Comprar camisa da seleção pirata. Xiii, não dá pra listar não. Muita coisa.

Mas isso é café pequeno perto da bandidagem da periferia. É. Claro. Só que é desvio de conduta também. Falhas que poderíamos evitar. Pequenos gestos que poderíamos simplesmente não cometer e trocar por outros melhores. Queremos justiça, sejamos dignos o tempo todo. Tentemos mais, pelo menos.

Voltando ao pequeno bandido. Ele está imerso nessa sociedade aí da qual fazemos parte. Essa sociedade aí que acha super tranquilo uma menina de dezesseis anos ser estuprada por vários homens na mesma noite pois é uma delinquentezinha também. Minha filha não passaria por isso. Não?! E as moças estupradas em faculdades? Indo para o trabalho? Na igreja?!

Uma criança de dez anos tornar-se bandida e morrer em uma perseguição policial é uma prova (mais uma) de como estamos falhando em todos os níveis. Todos nós temos algum grau de responsabilidade. Não deixo de achar que o governo é o maior responsável de todos. Mas numa hora dessas, também penso em coisas que posso fazer para mudar ou ajudar a mudar algumas realidades tristes.

Numa hora dessas eu sinto uma tristeza enorme no coração e penso: meu Deus, por que deixamos isso chegar aonde chegou?

Penso: meu Deus, leve a alma dessa criança e a ajude aí porque nós aqui a expulsamos do planeta. Nós a destruímos!

E peço: meu Deus, tenha piedade de nós e não permita que tanta crueldade e injustiça nos torne duros, cruéis e injustos também!

A imagem acima foi retirada da internet. Infelizmente não encontrei o crédito. Se alguém por acaso souber, acrescento aqui.

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