Luciana Sendyk
Sep 3, 2018 · 5 min read

A AGRICULTURA FAMILIAR É POP (E O AGRO É OGRO)

Enquanto escrevo esse texto, a votação sobre mudanças nas regras dos agrotóxicos está descansando, bem como os ‘nossos’ deputados, aqueles trabalhadores que transformam cada final de semana em um agradável feriadão. Os nossos representantes — eles merecem ser chamados assim, pois todo mundo no congresso foi eleito com os votos das pessoas, até mesmo o Eduardo Cunha — descansam da árdua labuta de-terça-a-quinta-feira como se questões como a PL do Veneno fosse pouco importante.

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ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE:

Infelizmente, a PL foi aprovada por 18 votos a favor e 9 contrários, e agora será votada em plenário. O lobby do setor químico vale mais do que as notas técnicas do Ibama, da Anvisa, da Fiocruz, do Inca e de outras entidades respeitáveis? Só a pressão popular salva!

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A bancada BBB, do boi, bala e bíblia, faz jus ao nome do programa em que as aparências é que importam e dane-se o conteúdo, apelando para um argumento vazio (para não dizer idiota) de que vai melhorar a aprovação de venenos comestíveis, enquanto honra o romance de George Orwell criando uma gigante distopia.

Eu, você e todas as pessoas com menor disponibilidade para buscar uma alimentação saudável, vamos consumir veneno no café, no almoço e na janta, e ainda ter que chamar urubu de meu louro. Ai! Acabei de perceber que este ditado é terrivelmente racista, e senti ainda mais desânimo. Mas só durou um momento, pois: se até o racismo, tão infiltrado e estrutural, já está sendo dinamitado e cada vez melhor combatido, existe sim uma esperança de vencermos a batalha contra a ganância desenfreada dos ruralistas e da indústria agroquímica/farmacêutica.

E essa esperança responde pelo nome de pressão popular. Na verdade o plano A era já ter aprovado a PL a toque de caixa, mas a mobilização de artistas e formadores de opinião funcionou como antítodo ao lobby (quanto a isso, recomendo a leitura do artigo publicado na Revista Piaui).

Como eu ia dizendo, teremos que chamar tóxicos agrícolas de remédio e passar a nos referir bobo-alegremente aos pesticidas como produtos fitossanitários, nome que mistura os termos plantas (fito) e saúde (sanitas) para denominar o que, na verdade, continua sendo o velho mata-mato. Mas para que uma lei para modernizar o velho mata-mato, você se pergunta, e eu respondo: a indústria do agrotóxico é — surpresa!- a mesma que fabrica os OGM (organismos geneticamente modificados). As cinco empresas produzem agrotóxicos no Brasil (Monsanto-Bayer, Syngenta, BASF, Dow e DuPont) detêm as patentes de sementes transgênicas — que produzem soja, milho e algodão resistentes aos próprios agrotóxicos, permitindo aplicar mais veneno para inibir o crescimento de plantas concorrentes.

Os OGM, maravilhas da tecnologia, são resistentes às pragas, que ótimo, não? Não. Como a gente já sabe faz tempo, a natureza é perfeita. E as pragas, que também são filhas de Deus, evoluem para ficarem ainda mais resistentes do que as plantas geneticamente modificadas, e do que os agrotóxicos existentes. E daí a indústria faz o que? Para de competir com a natureza pela criação perfeita? hahahaha não, meu caro Watson, a indústria lança novos venenos para as novas pragas e adivinha quem — nós — consumimos tudo junto e misturado, o veneno e o DNA alienígena.

Para quem acha que sem agrotóxico a gente ia todo mundo morrer de fome, a ONU reuniu 60 especialistas que escreveram o relatório Wake up before it is too late (Acorde antes que seja tarde demais) em 2013, convocando países para urgente transformação da produção de alimentos e propondo a democratização do controle da produção na criação de um mosaico global de sistemas agroflorestais de cultivo e fortalecimento de pequenos produtores rurais. O relatório alerta que a transformação é inevitável e que o mundo precisa de uma verdadeira “intensificação ecológica” na produção de alimentos, listando a deteriorização acelerada dos ecossistemas com o modelo ultrapassado do agronegócio, o impacto ambiental, as mudanças climáticas e a escassez hídrica como as principais ameaças à segurança alimentar mundial. O estudo mostra ainda que o fortalecimento de pequenos produtores é o melhor caminho para combater a pobreza e a fome.

E, por fim, não sou eu (nem a ONU) que está dizendo: o portal Governo do Brasil publicou que:

~> a agricultura familiar do Brasil é 8a maior produtora de alimentos do mundo

~> com um faturamento anual de US$ 55,2 bilhões, caso tivesse só a produção familiar, o Brasil ainda assim estaria no top 10 do agronegócio mundial, entre os maiores produtores de alimentos

~> de acordo com o último Censo Agropecuário, a agricultura familiar é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes e é responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa do país e por mais de 70% dos brasileiros ocupados no campo

~> a agricultura familiar ainda produz 70% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo. O setor também é responsável por 60% da produção de leite e por 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos

~> 84% dos estabelecimentos rurais são de agricultores familiares

~> “O crescimento do Brasil passa pela agricultura familiar. O agricultor familiar tem grande importância para o crescimento do Brasil”, afirma o secretário da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, Jeerson Coriteac.

Boa semana para nós, para os artistas, ambientalistas, pessoas como a gente que quer apenas comer do bom e do melhor e preservar esse planeta lindo em que surgimos. Atitudes, aliás, que pedem a mesma ação: Não à PL do Veneno!

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Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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