Em busca de um conceito, sem fechar questão


Para inicialmente provocar indagações e servir de referência, dois materiais são válidos para leitura:

1) Uma profissão, um conceito— escrito por Eugênio Bucci e publicado pela revista Jornalismo ESPM (Ano 1, número 3, de Outubro, Novembro e Dezembro de 2012, pp. 26 a 30).

2) Para que serve o Jornalismo?— especial contendo diversos artigos também publicado pela revista Jornalismo ESPM (Ano 3, número 8, Janeiro, Fevereiro e Março de 2014, pp. 28 a 62).

Os dois textos fazem uma série de considerações a respeito da profissão. Trazem conceitos, ou pelo menos ideias que nos ajudam a pensar conceitos, histórias que nos servem de ilustração, além de depoimentos interessantes.

Consideremos alguns tópicos para pensar:

A associação do Jornalismo aos produtos jornalísticos que o materializam enquanto atividade não deve ser exclusivamente a base para pensarmos quaisquer perspectivas, alternativas ou mesmo conceituações sobre a profissão. Os produtos aos quais a atividade está sujeita são efêmeros, no sentido de que estão em profunda transformação e vivem uma crise em seus modelos de negócio por conta de “novas” formas de fazer circular informação.

A produção jornalística tem características que devem ser analisadas em contexto. Várias questões nos remetem a essa discussão: os impactos quanto ao uso dos dispositivos móveis e outras tecnologias nos processos de produção, o fato de a internet não ser considerada uma “mídia de massa” mas concentrar os meios tradicionais da cultura de massa, e por aí vai.

Não podemos confundir aspectos característicos de mercado, lógicas de produção impulsionadas por modelos de negócio e ferramentas de trabalho, por exemplo, com a atividade em si. Os conceitos passam por compreender que relação a atividade tem com essas questões e que alternativas existem.

Há princípios gerais no Jornalismo que inspiram condutas. Mas tais princípios também não podem ser congelados no tempo. Uma coisa é a humanização da atividade, no sentido da defesa de princípios pautados em respeito, honestidade… outra coisa são princípios pautados na qualificação de um produto para o qual nós, jornalistas, estamos sujeitos a trabalhar.

Os princípios são norteadores de um processo que não se restringe apenas à produção, ao trabalho específico do jornalista. Ao tratarmos de produção jornalística, por exemplo, alguns princípios universais (éticos) estarão em evidência e serão adotados como referência. Mas os princípios que dão identidade aos “produtos” não precisam ser “criados” como um manual de conduta; podem ser propostos como resultado de consensos que estabelecemos e como promoção de valores que estão refletidos em tudo o que produzirmos a partir desses consensos.

Não são apenas os aspectos tecnológicos que estão em transformação. As mídias eletrônicas (o rádio e a TV) nos proporcionaram uma mudança significativa nas relações, criando a possibilidade de colocar jornalistas e público no mesmo presente social dos “acontecimentos”, o que chamamos de “ao vivo”. Estamos todos à distância, mas “presentes” num acontecimento transmitido “ao vivo”. Já a internet nos trouxe a experiência do “online”, cuja característica essencial é reforçar o presente individual a partir do acesso permanente a conteúdos armazenados numa memória que nos é externa.

O atual, no contexto em que estamos, é o que está acessível e não somente o que “acontece” agora. Sendo assim, o “furo” jornalístico, por exemplo, deixa de fazer sentido, a “agilidade” passa a não ser mais uma prerrogativa. Se temos à disposição um “aparato” de "memória" que torna o que é “relevante” disponível, o que conta é a extemporaneidade do conteúdo a ser acessado.

A entrevista do Gay Talese no Roda Viva em 2009 é um exemplo desse repositório permanente que pode abrigar bons conteúdos jornalísticos, extemporâneos pela profundidade, pela abrangência, pela universalidade

Os fatos do cotidiano ainda fazem sentido para o Jornalismo e continuarão fazendo. Mas há uma outra possibilidade que se abre com essa perspectiva de trabalhar com aparatos de memória, que é a contextualização, o aprofundamento de temas, as entrevistas conceituais… estamos falando de uma produção jornalística que já existiu, mas que o “ao vivo” nos modelos de negócio da mídia eletrônica, de algum modo, “desconsiderou”.

Nossas experiências não podem ficar restritas ao contato mediado por essas tecnologias. As experiências midiatizadas são importantes para ampliar nosso repertório de possibilidades e compreensão sobre os fenômenos que nos cercam. Mas as experiências mais ricas são as que nos estimulam em todos os sentidos.

Como o próprio Talese argumenta no Roda Viva, o jornalismo não se resume a boas perguntas e métodos de apuração. Há um processo de observação bastante importante para o trabalho jornalístico, o que nos remete à ideia de sensibilização também. Quanto maior a experiência, no sentido de “presença” em relação aos “acontecimentos”, maiores as possibilidades de ampliação das interpretações e das formas de contar uma história. Além disso, as versões relacionadas ao que se está apurando jornalisticamente tornam-se mais verossímeis na medida em que nossos sentidos são estimulados.

De certo modo, essa concepção também relativiza o conceito de notícia ao qual o Jornalismo está “amarrado”. Porque são raríssimos os momentos em que um Jornalista está “presente” num “acontecimento” inusitado. A maioria dos “acontecimentos” relevantes é “agendado”. A relevância em Jornalismo talvez esteja muito mais no que trazemos para a atualidade a partir de observações ricas em experiências. Esse é um “diferencial” importante para pensarmos porque os veículos de comunicação tratam sempre dos mesmos assuntos e com os mesmos tipos de classificação (por exemplo, assuntos de governo = política).

Há duas definições de Jornalismo retiradas dos textos citados lá em cima e que concentram os pontos aqui delineados:

1) Jay Rosen, jornalista americano, diz o seguinte: Jornalismo é “(…) um relato daquilo que está ocorrendo além do horizonte da nossa experiência pessoal”.
2) Eugenio Bussi, professor e jornalista brasileiro, afirma: Jornalismo é “(…) a profissão daqueles que, na instituição imprensa, estão socialmente incumbidos de atender ao público em seu direito à informação, segundo uma perspectiva crítica e independente”.

Ajudam a pensar. Não fecham questão sobre o que seja Jornalismo.

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